22 Mai, 2018

O Rugby de X no Rugby Feminino – uma transição inevitável para o XV?

Nuno Luís LopesDezembro 21, 20174min0

O Rugby de X no Rugby Feminino – uma transição inevitável para o XV?

Nuno Luís LopesDezembro 21, 20174min0
Nuno Luís Lopes dá o ponto de situação do Rugby Feminino com um olhar já para o futuro... é a variante de X uma abertura para a de XV?

O Rugby feminino em Portugal tem uma história recente de 17/18 anos de maior constância, se não contabilizarmos algumas experiências espasmódicas anteriores. A modalidade enferma ainda do estigma de ser um “desporto masculino”, conceito que contaminou indevidamente alguns responsáveis de equipas nacionais, ideia essa que importa desconstruir e afastar definitivamente.

Uma modalidade colectiva como é o caso do Rugby não pode nem deve ter variantes diferentes consoante o género dos praticantes, sob pena de se tornar excêntrica no contexto dos restantes desportos, não exaltando os valores do rugby que tanto gostamos de enaltecer.

Na época de 2017/2018 em Portugal, para além do Circuito Nacional de Rugby de X concluído em Dezembro, num todos contra todos a uma mão (9 equipas), teremos em breve a Taça de Portugal na mesma variante em Fevereiro de 2018.

Esta situação decorre da iniciativa de alguns clubes e da Federação Portuguesa de Rugby, no sentido de aumentar o número de praticantes e melhorar o conhecimento de jogo no 5 da frente, que mesmo no rugby moderno de movimento continua a ter uma importância determinante.

Depois de nas 2 últimas épocas se ter privilegiado o 7s, fruto da integração do Rugby como modalidade olímpica nos Jogos Olímpicos do Rio e de a selecção portuguesa feminina ter surpreendido a comunidade do Rugby nacional por ter atingido o último torneio mundial de apuramento, os olhos voltaram-se agora para o Xs enquanto variante de transição rumo ao XV.

A questão da Primeira-Linha

Importa destacar que algumas jogadoras da primeira linha, com morfologias menos adequadas à variante de 7s, abandonaram a modalidade neste hiato de tempo, com perda do conhecimento instalado em diferentes equipas, facto que poderia ter sido evitado, se tivesse havido consenso na manutenção da competição de Rugby de XIII existente.

Na verdade, só com formações ordenadas mais numerosas se conseguem treinar os equilíbrios e sintonias colectivas que conferem a beleza desta fase do rugby que é misteriosa para alguns e mágica para aqueles que, nos bons e maus momentos, as experienciaram. Creio que a força, técnica e sincronismo necessários para avançar o meio metro no momento de introdução da bola do adversário podem ser muito atraentes, mesmo para os menos conhecedores…

Um maior número de jogadoras no Xs obriga também a um maior número de fases para concentrar as defesas fruto da diminuição dos espaços, permitindo às praticantes maior conhecimento das fases de contacto, placagem, jogo no chão e reciclagem da bola, que afinal constituem os fundamentos do Rugby.

Por outro lado, as jogadoras menos experientes nesta variante mais lenta, estão menos expostas e podem ir integrando os gestos técnicos num jogo mais pausado, percebendo os objectivos gerais do jogo e ensaiando diferentes estratégias de progressão no ataque e de movimentação colectiva na defesa.

O caminho certo é este?

A experiência desta época demonstra que se está no caminho certo. Mais jogadoras e acima de tudo, mais tempo de jogo com mais jogadoras em campo, já que a matriz amadora da modalidade não motiva particularmente aquelas que ficam de fora sem oportunidades para jogar.

Jornadas jogadas na Bairrada, na Lousã, em Coimbra e em diferentes campos na área metropolitana de Lisboa mostraram o interesse e empenho de todos nesta competição que foi vencida pelo Sport Lisboa e Benfica, fruto eventualmente da experiência e conhecimento acumulados na sua participação nas 3 últimas edições do Torneio Internacional de Xs da Flandres (Bélgica), em que venceu as 2 últimas edições.

Estamos ainda em Portugal numa fase em que é preciso aumentar o recrutamento de praticantes. Só quando existir um número expressivo de jogadoras, com uma distribuição nacional mais homogénea, poderemos ter um rugby com igualdade de género verdadeiramente democrático.

Cabe naturalmente a todos: responsáveis federativos, dirigentes desportivos, treinadores, árbitros e praticantes, criar um ambiente construtivo e inclusivo, que saiba acolher novas jogadoras sem sexismos e preconceitos, que mais não fazem que enfraquecer e dividir a pequena comunidade do Rugby.

Os resultados desportivos serão o resultado natural desta evolução. Uma pirâmide com uma base maior de recrutamento para a selecção nacional trará o benefício óbvio de aparecimento de melhores jogadoras, mais rotinadas em competições de uma exigência crescente.

Será a partir de campeonatos mais competitivos que teremos uma seleção nacional com melhores resultados e será através destes que o rugby feminino ganhará maior visibilidade e notoriedade, conseguindo seduzir mais jogadoras. Um ciclo virtuoso!

Tratemos assim de captar as novas e acarinhar as jogadoras que hoje temos e dar-lhes as condições que verdadeiramente merecem, porque quanto à devoção a este jogo, compromisso e espírito de sacrifício, podemos ficar descansados…

A intensidade que se vive no Rugby feminino (Foto: Arquivo Sofia Nobre)


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