Rugby Championship 2018: monótono, assim-assim ou cinco estrelas?

Francisco IsaacOutubro 9, 201810min0

Rugby Championship 2018: monótono, assim-assim ou cinco estrelas?

Francisco IsaacOutubro 9, 201810min0
A competição terminou no sábado passado e agora fazemos uma leitura curta a alguns aspectos. O que gostaste mais do Rugby Championship 2018?

Os All Blacks continuam no topo da pirâmide “alimentar” do Rugby Championship, resistindo às tentativas dos Springboks em destronarem os bicampeões mundiais em título numa prova que teve tanto de espectáculo como de bocejos. A Austrália foi do excelente ao caótico e do pesaroso ao incrível e a Argentina conseguiu duas vitórias extraordinárias, mas falta-lhe mais “mão” nos momentos decisivos.

Foi, talvez, o Rugby Championship mais equilibrado dos últimos anos mas, também, o mais caótico em termos de estabilidade de jogo e processos, de heróis que tiveram o seu quê de vilões, de dúvidas em certas posições e sem que fosse deixada uma certeza completa do futuro das quatro principais nações do Hemisfério do Sul.

No geral houve jogos de excelente calibre como o África do Sul-Nova Zelândia, Austrália-Nova Zelândia; outros de grande impacto emocional mas que nem por isso foram estupendos na forma de jogar caso do Nova Zelândia-África do Sul ou Austrália-Argentina, sendo que o melhor jogo de todos ficou reservado para o fecho da competição entre Pumas e Wallabies.

Também no cômputo total a qualidade do rugby transitou de bastante bom para caótico, com erros de handling a surgirem mais que o costume à Nova Zelândia, a Argentina a ceder na formação-ordenada, a Austrália desgovernada nas movimentações ofensivas e a África do Sul sem a consistência no maul. Um exemplo negativo por cada selecção participante, que também tiveram os seus aspectos de alta gama como o acreditar dos All Blacks, a dureza defensiva dos Springboks, a genialidade individual dos Wallabies e a raça ofensiva dos Pumas.

Em relação a 2017 foram marcados mais 1 ensaio, terminando na fasquia dos 88 toques na área de validação. Ficam alguns dados para referência e que ajudam a perceber qual foi a melhor selecção no final das contas (números e dados fornecidos pela OPTA):

Mais ensaios – Nova Zelândia com 33;

Mais quebras-de-linha: Nova Zelândia com 107;

Mais metros conquistados: Nova Zelândia com 3508;

Mais defestas batidos: Nova Zelândia com 198;

Melhor taxa de placagem: Nova Zelândia com 85,7%;

Melhor formação-ordenada: Nova Zelândia com 100%;

Mais alinhamentos conquistados: Nova Zelândia com 86,8%;

MELHOR MOMENTO

Dos vários momentos que se proporcionaram na competição escolhemos três em específico: intercepção de Cheslin Kolbe ao mau passe de Lienert-Brown; o 4º ensaio de Beauden Barrett contra a Austrália e que lhe dá o recorde de melhor marcador num jogo da Bledisloe; e o não-passe de Folau que dá a vitória à Argentina na Austrália.

Se os dois primeiros são aspectos individuais que engrandecem o colectivo, já o 3º é o êxtase de um país que andava há anos para obter um feito fora-de-casa e conseguiu-o ao ganhar em terra de Wallabies. Foram 35 anos em que os Pumas não conseguiam quebrar o enguiço no espaço territorial australiano e agora com Ledesma no comando finalmente voltaram a sorrir, dando o mote fundamental para o futuro da celeste no rugby.

Foi o momento em que Creevy, Sanchez, Moroni, Matera, Kremer, Cubelli e afins puderam sentir que não estão no Rugby Championship só para fazer número… pode ser que em 2019 haja surpresa em tons de azul-celeste e branco!

MELHOR JOGADOR

Discussão muito delicada, pois não houve um jogador que do princípio ao fim mantivesse uma forma de topo ao ponto de silenciar os críticos e de ser erguido no ar como o melhor.

Beauden Barrett foi “rei” nos encontros dedicados à Bledisloe Cup, Faf de Klerk genial em Wellington e na recepção à Argentina, Rieko Ioane voltou a impressionar em pelo menos dois jogos, Ben Smith idem, Siya Kolisi foi uma “bestinha” a defender e a dar o corpo às “balas” em vários jogos (falta-lhe só ter mais à vontade no ataque), Will Genia foi dos mais inconformados dos Wallabies, Agustín Creevy acordou de um “sono” profundo, David Pocock foi a “rocha” que segurou os Wallabies em momentos muito complicados e Nicolás Sanchez foi extraordinário na sua missão como dez.

É por assim dizer uma missão ingrata escolher um só para MVP do torneio. Se formos só pelos números há cinco jogadores que se colocam na dianteira para a escolha final: Beauden Barrett, Nicolás Sanchez, Ben Smith, David Pocock e Faf de Klerk.

O médio-de-abertura dos neozelandeses terminou no 1º lugar de melhores marcadores de ensaios, a par de Rieko Ioane e Aphiwe Diantyi, todos com 5. Para além disso, acaba no top-10 de jogadores com mais metros conquistados, 10 quebras-de-linha, 85% de placagens completas, 18 defesas batidos, sete assistências para ensaio (o melhor neste aspecto também) entre outros destaques.

Nicolás Sanchez acabou no topo de melhores pontuadores com 67 pontos no final das contas, com quatro ensaios no seu “mealheiro”, destacando-se nas movimentações ofensivas, aumento de velocidade nas jogadas de ataque e 85% de eficácia nos pontapés.

Ben Smith foi fundamental na conquista de metros, na criação e assistência a ensaios (4 no total), quebras-de-linha e mais uma mão de cheia de grandes detalhes que fizeram a diferença em certos jogos.

David Pocock acabou o Rugby Championship com 9 turnovers, três ensaios, três assistências, o 2º melhor placador mas o melhor na eficácia no encaixe do ombro (95%), afirmando-se como o motor da Austrália no que toca aos avançados.

Por fim, Faf de Klerk… extraordinário no jogo ao pé jogado, colocando uma pressão sempre muito complicada nas costas dos seus adversários, o que levou a África do Sul a marcar alguns ensaios a partir após estes pontapés. Cinco assistências para ensaio, mexeu no ataque com um ritmo sempre constante e ao fim de muito jogar saiu esgotado do encontro com a Nova Zelândia, já carregado de caimbrãs.

Por isso, é quase impossível escolher o MVP no final de contas porque todos tiveram jogos de alto gabarito como se foram abaixo nos momentos mais inoportunos possíveis.

MELHOR ENSAIO

Foram 88 ensaios e é bastante complicado optar por um só. Depende muito do que cada um considera por melhor ensaio, ou seja, há para todos os gostos.

Há ensaios que decidem vitórias como foi o da Nova Zelândia em terras sul-africanas, quando Ardie Savea mergulhou para dentro da área de ensaio; há os ensaios que mudam tudo como foi o do Wille Le Roux em Wellington, naquela intercepção a um passe mal concebido de Jordie Barrett, incitando à revolta dos Springboks em terras neozelandesas; o ensaio que marca o recorde de ensaios num só encontro da Bledisloe como o de Beauden Barrett frente à Austrália; o ensaio da reviravolta de David Pocock em Buenos Aires, depois de estarem a perder por 24 pontos de diferença; o ensaio dos nervos como foi quando a Argentina pela mão de Ramiro Moyano ficou na frente do resultado por três minutos contra os All Blacks; o ensaio do virtuosismo desmedido de Israel Folau ante a Argentina, tirando seis adversários do caminho até chegar desimpedido à área de ensaio.

Depende do que gostam, escolham e digam-nos qual é o vosso favorito!

MELHOR ESTREANTE

Não há dúvidas da escolha: Aphiwe Dyantyi! O ponta sul-africano foi um “louco” à solta na ponta, conseguindo no seu primeiro Rugby Championship uma mão cheia de ensaios, 12 quebras-de-linha, ficando fora do top-10 de atletas com mais metros ou mais defesas batidos, o que não deixa de ser um ponto a favor do ponta. Conseguiu aproveitar todos os momentos para chegar à área de ensaio ou, pelo menos, perto dela, demonstrando-se um atleta fiável e credível tanto nas movimentações ofensivas e na comunicação defensiva.

Dyantyi está destinado ao sucesso e este seu primeiro Rugby Championship coincidiu com o ressurgimento dos Springboks na competição.

MELHOR SELECCIONADOR

Rassie Erasmus! Steve Hansen garantiu mais um troféu e é dos seleccionadores com mais troféus na cabine, tendo feito um bom trabalho neste Rugby Championship sem deslumbrar. Por isso, a nossa escolha vai para o seleccionador que conseguiu juntar os “cacos” dos Springboks do passado, criando novas sinergias na selecção do País do Arco Íris, algo que para muitos era impossível logo neste ano.

Houve uma melhoria extraordinária em relação a 2017, que só tinham conseguido fazer 12 ensaios. Agora, em 2018 completaram cerca de 21 um crescimento auspicioso e que dá outra dimensão ao sucesso dos ‘boks nesta edição. A coroar esta subida de forma foi a vitória em Wellington que apesar de não ter sido fenomenal ou totalmente justa, aconteceu e pôs fim a anos de derrotas em solo neozelandês.

As exibições não foram excelentes, mas para ganhar jogos não tem de se jogar bem, tem de se ser eficaz e coerente… e a África do Sul de Erasmus provou que a frieza, lógica e postura sérias na placagem voltaram a ser regras para o seu sucesso. Conseguirá Erasmus surpreender o Mundo em 2019?

MELHOR JOGO

Exactamente como os MVP’s ou ensaios, depende do que cada um gosta de ver. Os jogos entre All Blacks e Springboks foram excessivos em emoção crua, com ambos a decidirem-se no último segundo de cada encontro, sendo que em um foram os boks’ a conseguir defender com excelência e noutro os All Blacks lá arrastaram-se para dentro da área de ensaio. Mas foram jogos de muita fisicalidade, de por vezes excesso de erros de handling ou de falta de entendimento entre linhas tanto de um lado como do outro.

Curiosamente, o último dos jogos desta edição da prova e que teve mais pontos foi aquele que para nós acabou por ser o melhor: Argentina-Austrália. Duas partes completamente distintas, duas partes recheadas de emoção, jogadas fantásticas, individualidades espevitadas e de reviravoltas no resultado extraordinárias. Foi um jogo emotivo, com vislumbres do melhor do que cada uma das equipas consegue produzir (assim como o pior) mas teve sempre uma toada de velocidade bastante agradável que ajudou ao seu espectáculo.

Bledisloe foi interessante este ano, mas sem o factor emotivo no final de contas… houve momentos de emoção sim, mas não se prolongou por todo o encontro e acaba por não listado no topo dos melhores.

MELHOR XV

Só para explicar três escolhas rápidas:

Codie Taylor teve francamente um Rugby Championship acima de Malcolm Marx, denotando-se no super-avançado sul-africano um decréscimo de forma (várias introduções falhadas durante os jogos, formações-ordenadas muito “comuns” e pouco mexido no ataque, tudo o contrário dos dois anos anteriores);

– Não existiu um 1º centro que se destacasse por inteiro, escolhendo de Allende pela quantidade de placagens e aberturas de defesa que o sul-africano conseguiu;

– E Beauden Barrett e Ben Smith pela quantidade de jogos que decidiram e pelos destaques individuais no final de contas, superiores a Nicolas Sanchez e Emilliano Boffelli/Willie Le Roux respectivamente (a melhor concorrência por assim dizer).

XV Rugby Championship 2018 - XV Rugby Championship 2018 - Rugby lineups, formations and tactics


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