Springboks campeões e Wallabies dão lição – Ronda 3 Rugby Championship 2019

Francisco IsaacAgosto 11, 20197min0

Springboks campeões e Wallabies dão lição – Ronda 3 Rugby Championship 2019

Francisco IsaacAgosto 11, 20197min0
Os Wallabies fizeram o impensável e deram um autêntico show contra os All Blacks e acabaram o The Rugby Championship em alta, competição que os Springboks conquistaram! Mereceram?

E ao fim de 10 anos de espera os Springboks voltam a levantar um troféu, com a conquista do seu primeiro The Rugby Championship… em ano de Mundial! Mas o resultado mais relevante do fim-de-semana foi como os Wallabies atropelaram os All Blacks, que voltam a perder o torneio mais importante do Hemisfério Sul… em ano de Mundial.

A análise à última ronda dete torneio que coloca Argentina, Austrália, África do Sul e Nova Zelândia frente-a-frente!

WALLABIES VOLTAM A SER WALLABIES EM VÉSPERA DE MUNDIAL

Longos dias têm cem anos, algo que os adeptos da Austrália podem facilmente afirmar depois de terem conquistado uma vitória histórica e vibrante aos seus arqui-rivais de sempre os All Blacks. 47-26, um resultado que nunca tinha sido antes obtido e que em 2019 foi alcançado depois de uma das melhores exibições de sempre dos australianos, invocando uma estabilidade total na conquista de fases e um equilíbrio total entre processos, valendo uma estupenda exibição do par de médios, Nic White e Christian Lealiifano, que deu a tarimba certa aos Wallabies.

Mas qual foi o princípio mais importante para a Austrália ter conseguido ter domínio de território e de posse de bola (e não, não estamos a falar do vermelho de Scott Barrett, que foi importante mas que não explica a exibição australiana)?

Simplicidade… ou seja, manter os processos simples, não inventar passes no contacto, não atirar passes sem estrutura ou sem noção da colocação correcta do receptor da oval, garantir um avanço no terreno sustentável mesclando não só uma “agressividade” física dura (veja-se a importância de Kerevi ou Koroibete neste aspecto) mas também uma inteligência de topo (James O’Connor, Reece Hodge e, sobretudo, Kurtley Beale foram extraordinários na utilização sábia da posse de bola) que apanharam os neozelandeses desprevenidos.

Quando os Wallabies estabilizaram o jogo e seguiram o plano de jogo sem perderem a cabeça em invenções conseguiram abrir a defesa kiwi, que sentiu especiais problemas no canal entre o abertura e o 1º centro (Richie Mo’unga não falhou na placagem, mas abriu espaços na linha suficientemente problemáticos que nem Kieran Read, Sam Cane ou Ardie Savea não conseguiram socorrer), algo bem aproveitado pelo par de centros e os pontas Hodge e Koroibete. As 22 quebras-de-linha e os impressionantes 703 metros conquistados contam uma história quase perfeita que deu uma força-extra em fase pré-mundial.

SPRINGBOKS VOLTAM A TER O CANECO MERECIDAMENTE NA MÃO!

A África do Sul foi até à Argentina mostrar que está de volta (quase) ao seu melhor, com um rugby “arrogante” no sentido que quando domina não dá hipótese ao adversário de sequer “sonhar” com uma reviravolta ou ter uma posse de bola “pacífica”, para além de possuir um Handré Pollard em super-forma tanto no pontapé (não foi perfeito na cobrança dos postes, mas foi de excelência nos pontapés tácticos, forçando a Argentina a recuar constantemente) ou na condução de jogo, impondo um ritmo exigente e que deu frutos no decorrer dos 80 minutos.

Com uma avançada sempre pronta a marchar, especialmente a primeira-linha que nunca virou as costas na defesa (Trevor Nyakane, Tendai Mtawarira e Bongi Mbonambi somaram 35 placagens e 5 turnovers, dando claras boas soluções de banco a Rassie Erasmus para este Mundial) e nas fases estáticas, e uma linha de 3/4’s a mostrar todo um equilíbrio estupendo na combinação de jogadas e de aproveitamento de oportunidades (4 ensaios), registando uns meros 10 erros ofensivos próprios, um detalhe de topo e que revela o actual alto nível dos boks, derrotando facilmente a Argentina.

Os números foram esclarecedores: 100% de sucesso quer nos alinhamentos ou formações-ordenadas, tendo ainda “roubado” alguns ao seu adversário; 382 metros conquistados em 113 oportunidades com a bola em sua posse, registando-se 5 ensaios; 88% de sucesso na placagem. A África do Sul é fisicamente inabalável, estrategicamente bem montada com um claro compromisso em garantir o básico e trabalhar no contacto sem procurar arriscar muito em detalhes e pormenores, pois não precisa quando garante um avanço sustentado no território.

Após 10 anos de espera, a África do Sul volta a ter o sabor a “ouro” e olha para o Mundial com o favoritismo em sua posse… será que vamos ter a nação do arco-íris como reis do Mundo?

Exemplo da fisicalidade renovada da África do Sul

BREAKDOWN IRREGULAR, PENALIDADES EM EXCESSO E FALHAS DE PLACAGEM… O FIM DOS ALL BLACKS?

Os All Blacks somaram o seu primeiro mas significativo desaire no The Rugby Championship 2019 e muito se deveu à forma desconcentrada com que a equipa entrou em campo, mostrando um paupérrimo esforço na placagem, onde por exemplo Kieran Read somou 6 falhas de placagem em 28 tentativas ou à ausência de estratégia do camisola nº6 Ardie Savea. E isto só no aspecto defensivo, que acabou por ser claramente o pormenor decisivo para permitir uma diferença pontual tão larga frente aos Wallabies.

Poderíamos pensar que a recepção ou transmissão de passe foi um problema, mas no final de contas só perderam o controlo da oval por 14 ocasiões as mesmas que a Austrália, por isso qual foi a grande questão no que toca ao ataque? Estratégia de jogo. Ter Ben Smith à ponta é um crime, pois o experiente três-de-trás desaparece quase por completo da responsabilidade em ditar os timings de jogo ou de ter outro campo de acção que à ponta não consegue ter, e este pormenor limitou e muito o jogo neozelandês.

Por melhor que Beauden Barrett seja como defesa, é impossível neste momento substituir a “cabeça” de Ben Smith na camisola nº15 e em dois jogos ficou comprovado que Richie Mo’unga não tem (ainda) a qualidade necessária para ser o manobrador titular de jogo da Nova Zelândia, ficando-lhe melhor o papel de impact player vindo do banco de suplentes (como aconteceu frente à África do Sul em 2018).

Mais, a saída de Jack Goodhue acabou por ser letal para os bicampeões do Mundo em título que se viram entregues à genialidade por vezes errática de Anton Lienert-Brown e à fisicalidade de Ngani Laumape, perdendo por completo a intensidade, fisicalidade e inteligência no contacto que o centro dos Crusaders oferece. Ardie Savea passou ao lado do encontro, mostrando novamente que não consegue usar a camisola nº6 (o maior problema dos neozelandeses para este Mundial) e Kieran Read transitou constantemente de excelentes pormenores para erros preocupantes. A adicionar ao problema de Savea, Steve Hansen criticou a postura do asa durante jogo, já que se perdeu em acções menos lícitas e em criar problemas disciplinares durante o jogo.

A defesa dos All Blacks com 15 foi quase sempre uma fortaleza e mal se apresentaram com 14 os níveis de cansaço subiram e acabaram por delicerar a Nova Zelândia a partir dos 60 minutos de jogo. Foram quase 200 placagens em 80 minutos, com uma percentagem de 81% de eficácia, algo que não é nada comum de acontecer com este grupo de trabalho de Steve Hansen, que agora só tem uma direcção para crescer a partir deste ponto: para cima.

OS JOGADORES-PORMENORES DA SEMANA

Melhor Chutador: Handré Pollard (África do Sul) – 21 pontos (5 penalidades e 3 conversões) 80% eficácia
Melhor Placador: Trevor Nyakane (África do Sul) – 15 placagens (100% eficácia);
Melhor Marcador de Ensaios: Handré Pollard (África do Sul) e Reece Hodge (Austrália) – 2
Melhor Marcador de Pontos: Handré Pollard (África do Sul) – 25 pontos (2 ensaios, 5 penalidades e 3 conversões);
O Rei das Quebras-de-Linha: Reece Hodge (Austrália) – 4
O Jogador-Segredo: Kurtely Beale (Austrália) – 122 metros conquistados, 3 quebras-de-linha, 6 defesas batidos e 1 ensaio;
Lesionado preocupante: Jack Goodhue (Nova Zelândia) – 2 a 3 semanas;
Melhor Ensaio: Santiago Cordero (Argentina) vs África do Sul: “magia” argentina que fez falta durante o resto do encontro


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter