Panem et circenses no rugby português – Coluna Luís Supico

Fair PlayMaio 15, 20188min0

Panem et circenses no rugby português – Coluna Luís Supico

Fair PlayMaio 15, 20188min0
Luís Supico escreve uma crónica que fala não só de rugby, mas de mentalidades em Portugal. Panem et circenses na Oval nacional
“A definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”.

Não é o erro que me preocupa – é a repetição do mesmo. No desporto, como na vida, o erro é normal, faz parte, é o que nos faz evoluir, mais rapidamente aprender (quando estamos para aí virados…) e mesmo as más escolhas podem ser boas: quer dizer que não é por aí. Não aprender com o erro, fazer o mesmo e esperar resultados diferentes, isso é que me tira do sério.

Hoje não escrevo (só) sobre Rugby, escrevo sobre a sociedade. Porque me tiraram do sério.
Faz cerca de onze anos que uma entrevista ao ex-primeiro-ministro Santana Lopes sobre uma crise no PSD, envolvendo violação de regras do partido e pagamentos avulsos de quotas numas primárias foi interrompida pela chegada do avião de José Mourinho a Lisboa, depois de ter sido despedido pelo Chelsea uns dias antes. Quando voltou à entrevista, Santana Lopes recusou-se a continuar com a mesma. Obviamente.
Na passada quarta-feira, Manuela Moura Guedes finalmente conseguiu explicar, sem medos e, principalmente, sem ser atacada por uma máquina de propaganda Goebbeliana, o afastamento que sofreu na TVI em 2009 por investigar Sócrates – estranhamente, continua desempregada.
São várias as situações de enriquecimento ilícito: políticos, gestores, presidentes de (inserir título, é à escolha do freguês), uns mais vergonhosos e óbvios, outros entretanto condenados (e de volta em grande depois disso), muitos conseguindo passar por entre os pingos da chuva de uma sociedade sedenta de notícias novas, preferencialmente curtas, para esquecer as curtas notícias de ontem.
Uma das obrigações dos políticos da Roma Antiga era garantir trigo ao cidadão comum, direito adquirido por pagamento de taxas ao Império – trigo com que se fazia depois pão, um dos alimentos mais importantes da época. Garantindo a subsistência, o Império Romano controlava a população; com os jogos de gladiadores, a República e os seus Imperadores formavam as suas consciências (as lutas retratavam valores como virtude, coragem, disciplina), numa demonstração de força e importância política também da sua pessoa.
Passados mais de dois mil anos, a ideia continua actual e em uso.
Aceito que a paixão tolda as pessoas – estou longe de ser um exemplo de contenção no que toca a comentários ao árbitro durante um jogo de uma equipa por mim treinada. Repetidamente. Estou activamente a tentar melhorar.
Como treinador de adolescentes, é minha obrigação preparar os jogadores para mais do que o Rugby: temos o dever de os preparar para a vida. Complicado quando tudo o que vêm, por todo o lado, exulta e eleva um circo de histórias descartáveis, exacerbado pelas próprias pessoas nas redes sociais, afastando as notícias que verdadeiramente interessam para o lado.
Que fazemos então? Cingimo-nos ao treino do atleta, esquecendo a pessoa?
Li, no outro dia, um artigo muito interessante que dizia que as empresas procuram ter, cada vez mais, jogadores de rugby nos seus quadros: os CV’s ficam mais ricos se foram (ou ainda são) jogadores, abrindo mais facilmente portas. Pudera: o Rugby ainda é – como sempre ouvi dizer – uma escola de virtudes e os gestores sabem isso cada vez mais. Por muito que seja cansativo continuar a fazer esse bom trabalho e queiramos ser vencidos pelo cansaço, temos de preparar os nossos miúdos para serem exemplares na sociedade; e isso começa por serem exemplares dentro (e fora) de campo.
Vem isto tudo a propósito de duas coisas: o futebol e a futebolização do Rugby.
Em Portugal, o futebol é rei. Não no número de atletas (que é), não na profissionalização e expansão de nome (que é), mas na escolha (ir)racional das pessoas de porem o seu clube à frente de tudo o resto.
Aproveitando essa paixão avassaladora que assalta a quase totalidade da população portuguesa (tal e qual como na política, onde a maioria das pessoas vê os partidos como clubes de futebol, em que se questiona pouco os seus e se reprime tudo o que vem dos outros lados, independentemente da valência das suas ideias), uma mão-cheia de chico-espertos entrou de fininho e tomou conta do desporto (vide política…) para seu próprio benefício, criando uma rede de desinformação que tem só e unicamente um objectivo – criar uma cortina de fumo num sítio, para não se procurar no outro.
Como tal, a sociedade Portuguesa começa a desconfiar de tudo o que advém do futebol e começa a classificar tudo no mesmo saco, independentemente dos acontecimentos. Com o passar dos tempos, essa desconfiança passa para tudo o que há na sociedade.
No caso do Rugby, a sua futebolização vem deste último ponto: a desconfiança geral da população recai toda num acontecimento e, invariavelmente, classifica todo o desporto como tal – sendo assim, todo e qualquer acontecimento no jogo da meia-final entre Agronomia e Direito classificou o Rugby nacional como uma vergonha. Independentemente de tudo o resto.
Note-se: adoro futebol, tenho nojo dos dirigentes corruptos que existem nele; adoro Rugby, tenho vergonha dos acontecimentos do Agronomia-Direito. Mas tento distinguir o que é notícia e o que é desinformação.
O que aconteceu nunca devia ter acontecido. Haver mais casos (nesta ou noutras épocas) não é desculpa para o que houve na Tapada. Não devia ter acontecido, ponto. Que sejam punidos, de acordo com os regulamentos, ponto. Se tivermos de mudar regulamentos para acomodar novas situações então que aconteça isso mesmo, ponto.
Agora, do Rugby só se soube (e, consequentemente, se reprovou) porque foi gravado. Outros jogos este ano e outros anos houve que foram piores, dentro e fora de campo. Não deviam acontecer. Mas a futebolização do Rugby (facilidade de juízos de valor, desacreditação rápida e sem problemas para as consequências de quem não sabe do que fala, etc.) é pior que os próprios acontecimentos, porque demonstram falta de cabeça e de calma para avaliar o que está mal e mudar consoante.
Se, como verdadeiramente penso, o problema não é o errar, mas repetir o erro, então esta histeria toda (de uma situação muito grave) impede factos, pontos de vista saudáveis e aprendizagem para procurar só alimentar (e calar) as notícias, dando às vezes uma resposta demasiado populista e muitas vezes erradas.
Que eduquemos os nossos miúdos para serem excelentes dentro e fora de campo, evitando ao máximo estas situações… e quando elas existem, que as saibam resolver de forma rápida e razoável.
P.S. – porque também achamos que o Rugby é maior que nós, os sub16 de Direito e Agronomia tiveram o prazer de receber o Pedro Sarmento para o apito inicial e depois a sorte de ter a excelência de Nuno Fernandes Thomaz como árbitro num jogo que, por não ter tido nada senão desportivismo e agressividade natural do jogo, sem quezílias, passou ao lado das notícias…
Foto: GD Direito

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