O caso ímpar do Campeonato Nacional Rugby 2 2018/2019

Francisco IsaacAgosto 29, 201814min0

O caso ímpar do Campeonato Nacional Rugby 2 2018/2019

Francisco IsaacAgosto 29, 201814min0
Um elemento une várias das equipas do Campeonato Nacional Rugby 2 e merece atenção especial. Qual? Descobre neste artigo o factor "não-futebol"

Quantos campeonatos nacionais portugueses têm uma maioria de clubes onde o futebol não é modalidade-rainha? É uma “preciosidade” quando isso acontece, aliás uma raridade que merece menção no caso do Campeonato Nacional Rugby 2 (CN2, nomenclatura atribuída pela Federação Portuguesa de Rugby). Não é um ataque ao Desporto-Rei, atenção… mas sim o facto de às vezes existirem alguns “ecossistemas” diferentes num país que muitas vezes é criticado por falta de cultura desportiva.

A verdade é que o rugby português é multi-facetado, com uma série de clubes fora da capital a marcarem presença nos diversos campeonatos nacionais que por vezes são alvo de um tratamento menos bom por parte das instituições públicas e privadas. O marginalizar no rugby português é um factor comum a alguns clubes nacionais, que ao estarem fora das zonas de maior pendor humano ficam também alienados do centro de atenções da imprensa, sponsors, entre outros.

É um problema de fundo preocupante, numa altura em que a oval lusa necessita de ter uma confluência de ideias e projectos una que possibilite caminhar na direcção de atingir mais público não-jogador/treinador/dirigente do que até hoje conseguiu. Se os números de atletas, que vão dos sub-8 aos veteranos e rugby touchers deverão andar nos 7 mil, o público restante, ou seja, não-envolvido deverá rondar os 4 mil (família, amigos, curiosos, ex-jogadores que já não treinam ou jogam), etc.

O FUTURO DO CN2 NUM MUNDO DIFERENTE?

Num país de 10 milhões de pessoas, o rugby é uma modalidade listada como das últimas no ranking das mais praticadas, em termos de desportos colectivos. Isto deve-se a vários factores, que não iremos mencionar na sua extensão neste artigo uma vez que a ideia é falar deste factor exótico do CN2. Contudo, relembrar que uma das questões mais complicadas passa, sem dúvida alguma, pela falta de visão em termos de fazer chegar o rugby ao público geral, sentindo-se uma ausência completa de activações dos clubes em diferentes frentes (alguns clubes fazem várias participações na comunidade bastante boas como o CDUL, ER Galiza, ST Julians, CR São Miguel, CRAV, entre outros).

A somar a isso, a parca transmissão da existência da actividade destes clubes ao público também cria um distanciamento constante dos olhos interessados. Isto é, não há transmissão dos mais de 400 jogos a nível anual (contando só a partir dos sub-16), ficando tudo reduzido à transmissão da final da Taça de Portugal e do CN1, sendo que o CN2 teve este ano direito a transmissão graças ao juntar de forças dos clubes e sponsors nesse sentido. Não fossem os fotógrafos nacionais, existia muito pouco para ficar na memória de quem passou pelo oval portuguesa.

Porém, o CN2 tem agora uma oportunidade única para aproveitar e ganhar outra forma e dimensão, apostando bem na via da larga maioria destes clubes não terem concorrência de modalidades com mais atletas nessas zonas. Então quem são os emblemas que compõe a segunda divisão de rugby portuguesa em 2018/2019? Por alinhamento territorial de norte a sul: CR Arcos de Valdevez, Guimarães Rugby UFC, RC Lousã, CR Caldas, RC Santarém, CR São Miguel, SL Benfica, RV Moita, RC Montemor e CR Évora.

Observando estes dez podemos notar que pelo menos em sete destes clubes têm total (ou perto disso) domínio nas suas zonas territoriais. O Caldas pode ser o mais discutível, uma vez que a equipa de futebol do Caldas disputa o Campeonato Portugal, com um impacto local bem curioso e que encheu as capas dos jornais no último ano, graças à Taça de Portugal.

SL Benfica e CR São Miguel estão em Lisboa/Sobreda da Caparica, mas têm uma base muito fiel de adeptos dentro e fora-do-campo. Os miguelistas jogam na zona de Alvalade, tendo conseguido conquistar o público adjacente dos bairros e zonas residenciais com uma total profundidade que estão no top-3 de clubes com mais número de atletas e pessoas envolvidas directamente em acções do clube em Portugal.

O Guimarães, outro clube que tem uns meros dez anos de existência, assumiu um papel dominador na sua zona do Norte e o ano passado por pouco não foi às meias-finais do CN2. Tem sabido activar a sua marca numa cidade que é dominada pelo Vitória SC, um dos emblemas de maior tradição no futebol português. Contudo, esse factor não assustou o GRUFC, muito pelo contrário, sendo agora um dos emblemas-coqueluche a Norte de Portugal (nota para o Braga Rugby que vai dando passos certos na mesma direcção).

Valter Jorge num duelo intenso com o Caldas (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

O VASTO ALENTEJO DIVIDO ENTRE MONTEMOR E ÉVORA

Posto estas excpeções, temos seis clubes que entram no padrão de não-futebol nas suas cidades/grandes vilas. RC Montemor e CR Évora são, neste momento, as grandes imagens de marca do Alentejo a nível desportivo. Tem sido uma zona regional pouco bafejada no futebol ou outras modalidades, sendo que no rugby têm tido a sorte destes emblemas operarem com eficiência.

Os mouflons por muito pouco não ficaram no CN1, sendo relegados no último jogo com um plantel muito jovem e que tem até dado vários nomes às selecções nacionais jovens. Não fosse o factor Universidade, teriam conseguido manter alguns dos seus formados mais conhecidos. Têm um campo de rugby próprio, um complexo desportivo de qualidade, para além de uma equipa técnica competente e apostada em garantir primeiro uma formação saudável e de qualidade, para depois rivalizar, no futuro, por lugares mais de topo do rugby nacional.

O CR Évora tem sofrido dos mesmos azares que o Montemor… perdeu nos últimos 10 anos alguns atletas de fino recorte como José Leal da Costa, José Lima, Manuel Murteira, entre outros. Este factor constante tirou matéria-prima de qualidade ao emblema eborense que durante largos anos usou um dos campos do Lusitano de Évora (clube sem expressão nos campeonatos nacionais de futebol), outro problema para o seu crescimento.

Actualmente, já teve direito ao seu próprio campo de rugby apesar de ter entrado numa “guerra” com a autarquia devido à sua utilização e gestão. Évora só tem de olhar para o CR Évora como um activo fundamental da sua população, uma vez que tem estado no directo desenvolvimento de alguns dos melhores atletas a nível Nacional. Ao todo, os dois clubes do Alentejo têm quase 400 jogadores federados, o que deverá implicar um milhar de pessoas envolvidas no funcionamento de ambos… em jogos “grandes” como no famoso clássico-derby alentejano, o estádio fica cheio com quase 2 mil pessoas.

Seria importante o rugby alentejano chegar à meta dos mil atletas federados no final de 2022, um número alcançável perante as condições que ambos os clubes têm. No caso do CN2 trazem uma vibração diferente, dotados na placagem, no ataque ao jogo no chão, na luta incansável nas formações-ordenadas e mauls, produzindo jogadores leais, duros e motivados no contacto.

A CALIFÓRNIA PORTUGUESA E O MOITA COMO UM POSSÍVEL NOVO MOTOR DO OUTRO LADO DA PONTE?

O Rugby Vila da Moita é um clube diferente, que habita, do outro lado da Ponte 25 de Abril. Na sua zona são raros os clubes de futebol próximos, sendo o Cova da Piedade o mais cerca de si. Contudo, só tinha em 2017/2018 91 atletas registados oficialmente, um número consideravelmente pobre no rugby português… este fraco crescimento advém talvez do seu campo de treinos/jogos ser algo longe das zonas habitacionais.

Os novos jogadores sentem desta forma uma falta de força na hora de ir treinar, assim como aos pais, só aguentando aqueles que realmente querem fazer parte da modalidade.

No CN2 já fizeram do melhor e do pior, procurando conquistar o seu caminho no rugby Nacional. Os resultados estão lá, mas será que vêm pelo facto da equipa sénior ter alguns internacionais portugueses e atletas de qualidade? Seria fundamental uma reformulação do clube em termos de conquista de jovens jogadores. Almada/Barreiro/Moita são zonas que têm uma dispersão habitacional humana grande, podendo explicar o problema do RV Moita.

Há forma de inverter a situação? Será que o problema também advém da parte de falta de compromisso dos atletas? Criar uma espécie de autocarros/carros pick and go poderia nutrir resultados, ou só estaria a disfarçar um problema mais profundo?

CAVALEIROS COMEÇAM A INCOMODAR O TOPO NACIONAL

Avançado para cima, chegamos a Santarém, outro clube que tem desenvolvido jogadores muito agressivos na defesa, dotados no ataque e com uma mentalidade vencedora, faltando-lhes mais massa humana, apoio credível e forte dos agentes económicos da região e de um crer maior dos seus atletas. Há também o factor estudantil, pois muitos dos seus jogadores aos 18 anos vão para Lisboa ou Coimbra, abrindo um vazio complicado de preencher nos séniores.

Durante largos anos, permitiam aos atletas jogarem com um só treino semanal, algo que a médio-prazo funciona contra o próprio clube. Agora, a reformulação iniciada há alguns anos atrás, que teve em George Stilwell o grande idealizador, tem começado a dar os primeiros sinais de crescimento. Os sub-8 ou sub-10/12 dos cavaleiros são dos mais interessantes de se ver jogar, com uma genica muito própria, uma paixão não só pela oval mas para tentar crescer em pontos do jogo que outros atletas não têm tanta atenção no início.

Há uma visão muito comum de todos os agentes do rugby escalabitano, de procurar conquistar os seus jovens atletas não só pelo jogar rugby mas pela mensagem que este desporto traz. Existe uma forma de estar muito própria do Santarém, de rugby duro mas leal, de entrar para uma guerra contra um adversário “amigo”, de respeitar os processos imputados pelo treinador.

Têm perto dos 200 atletas federados, participam em todas as actividades-extra do rugby Nacional de formação, possuem um campo novo com três/dois anos e têm apoio total da autarquia, numa cidade onde o futebol é uma actividade omissa. Falta talvez só reunir atenção de outras terras próximas e, porque não, iniciar clínicas de rugby em Almeirim, Cartaxo ou Almoster.

BEM-VINDOS À CIDADE DO RUGBY: LOUSÃ!

O Rugby Clube da Lousã é um dos emblemas mais conhecidos em Portugal, muito por virtude de quem o iniciou e ainda hoje ainda fomenta: José Redondo. O génio por detrás do Licor Beirão é também responsável por ter lançado as primeiras pedras de um clube que precisa de dar o passo seguinte. Tem atletas de qualidade, já foi responsável pelo melhor rugby no CN2, mas faltou-lhe sempre alguma coisa na Primeira Divisão do Campeonato Nacional.

Consistência? Maior fomentação de atletas? A verdade é que a Lousã padece dos mesmos problemas que Montemor ou Santarém: ausência de uma Universidade de renome que consiga fixar os seus jovens. Montemor tem a Universidade de Évora ao “lado”, assim como a Lousã tem Coimbra. Contudo, para o caso dos lousanenses existe um problema: a ida dos seus jogadores para a Académica de Coimbra.

A rivalidade é amistosa, mas é um facto de que se dá esta saída de atletas para Coimbra… é mais fácil jogar na cidade que se estuda do que fazer uma viagem diária para Lousã. Não há mal algum nesta ideia, pois nem sempre é fácil combinar estudos-aulas-viagens-treinos e família/vida pessoal e os atletas optam por garantir primeiro seu sucesso estudantil.

Contudo, o caso do Montemor ou Évora nisso é ímpar, uma vez que ambos possibilitaram aos seus jogadores que vivem em Lisboa fazer treinos colectivos, juntando-se às sextas para preparar o jogo de fim-de-semana. Ou seja, poderá ser um caminho a seguir para a Lousã.

Falta-lhes conseguir fixar a sua juventude na vila e acreditarem que é possível uma vida profissional nessa localização, tendo já algo que é muito difícil de adquirir: identidade. Na Lousã respira-se rugby, vivendo a modalidade com um carinho muito especial.

Numa vila onde habitam 17 mil pessoas, 213 atletas constam na listagem oficial, naquilo que tem um impacto social entre 4 a 5 mil pessoas. Para quando o “acordar”?

ARCOS DE VALDEVEZ… O FINISTERRA DE PORTUGAL

Por fim, o Clube de Rugby de Arcos de Valdevez, emblema tradicional que já deu ao rugby português o famoso Arcos 7’s e onde o Touch Rugby ganhou grande fama, tem crescido e descrescido nas últimas décadas, enfrentou sérios problemas na sua saúde financeira e agora está apostado em olhar para cima com força. Foi o campeão do CN2 de 2017/2018 e terá nesta época um desafio a altura.

22 mil pessoas vivem numa das vilas mais singulares de Portugal, que já serviu de zona tampão para os avanços castelhanos outrora. Neste momento, o CRAV é o clube mais a norte dos campeonatos nacionais e tem nas suas fileiras 125 atletas registados (se não contarmos com os Garranos formação secundária do CRAV), um número ainda muito aquém daquilo que os arcuenses devem ter.

As viagens são um ponto complicado na vida dos rugbistas locais, com vários a fazer autênticas jornadas de uma hora para chegar ao Complexo Desportivo do Arcos de Valdevez (três campos de treino) a partir da cidade do Porto por exemplo (caso de Luís Salvado, um dos melhores produtos do CRAV, podem ouvir toda a entrevista em: XXX). O seu crescimento a nível sénior está aliado a esse pormenor delicado e estende-se ao caso juvenil.

Todavia, há que arranjar soluções para o caso do CRAV, pois urge ter uma compilação de 8 clubes no Norte com uma “pegada” humana no rugby português intensa e impactante. O reorganizar do Arcos 7’s, inserido num Circuito português, poderia ser uma solução em termos de visibilidade do CRAV, mas continua a subsistir a falta de apoios na deslocação a sul, que se traduz numa verba “gorda” nas contas do clube.

Um rugby muito físico, intenso e propenso a fazer dos avançados a figura central do jogo, mas que os 3/4’s influenciam as fases de jogo com processos dinâmicos, têm sido elementos identitários na sua vida no rugby português.

Este dar a conhecer o CN2 aos leitores portugueses é, apenas, a ponta do icebergue, pois há muito mais para descobrir e perceber da interacção destes emblemas na oval em Portugal. Comparando com o CN1, o total de atletas federados em 2017/2018 dos actuais clubes que compõem o CN2 era de 1800 jogadores. Os oito clubes do actual CN1 possuem um total de 2315 atletas federados, contabilizando dos sub-8 aos seniores, sendo estes emblemas os mais “antigos” em Portugal. Não existe uma diferença substancial entre ambas as divisões, isto quando o CN2 tem mais dois clubes, mas que pelo menos três são formados muito recentemente.

Até que ponto estes clubes têm “voz” em matérias decisivas para o seu futuro e crescimento? Serão assim tão observados pelas equipas técnicas nacionais? Merecem o mesmo apoio que os clubes em zonas de maior densidade populacional? A verdade é que no CN2 o factor-futebol é quase uma inexistência e colocamos a questão final: será isto bom ou mau para o presente e futuro destas equipas que mencionámos?

Os campeões em título do CN2 (Foto: Beleza-Arcos)

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