O Mundo do Rugby em 2018 – Coluna de Pedro Sousa Ribeiro

Fair PlayJunho 10, 20186min0

O Mundo do Rugby em 2018 – Coluna de Pedro Sousa Ribeiro

Fair PlayJunho 10, 20186min0
O antigo presidente da Federação Portuguesa de Rugby, Pedro Sousa Ribeiro, explica o passado da World Rugby e os desafios para o futuro da entidade que lidera a modalidade

A entidade que gere o rugby a nível mundial , a World Rugby, tomou recentemente uma decisão estratégica para a adaptar parcialmente às novas realidades do rugby atual. Assim o “Council“, o órgão dirigente, passou a ser constituído por 49 membros dos quais 17 são obrigatoriamente mulheres

Um pouco de história.

A World Rugby é uma instituição centenária tendo sido fundada em 1886, pelas 4 nações britânicas, Escócia, Inglaterra, Irlanda e País de Gales. Originalmente Internacional Rugby Football Board (IRFB ), depois apenas International Rugby Board (IRB), tendo adotado já no sec. XXI a atual designação World Rugby. Em 1911 a África do Sul, Austrália e Nova Zelândia juntaram-se ao clube, que assim se manteve até 1958 quando a participação da França foi aceite. Até 1986, a então IRFB não tinha sede nem qualquer estrutura, apenas um secretário não remunerado.

1986 foi o ponto de viragem. Foi organizado o congresso do centenário para o qual foram convidados representantes de todas as federações nacionais existentes. Nesse congresso foi decidido aceitar a filiação de todas as federações nacionais, sujeitas a determinados critérios de admissão, e alargando o Council a representantes da Argentina, Canadá, Itália e Japão.

Foi também decidido eleger um Chairman por períodos de três anos enquanto até havia uma rotatividade anual, sendo eleito o galês Vernon Pugh que haveria de ter uma ação decisiva no futuro do rugby mundial. A realização, em 1987, do primeiro campeonato do mundo foi outro fator de alta relevância para o crescimento do rugby. Em 1996 a IRFB, sob a forte impulso de Vernon Pugh, numa histórica reunião em Paris, declarou o rugby modalidade “ open “ pondo assim fim a 100 anos de amadorismo.

O Council foi sucessivamente alargado a representantes das 6 regiões continentais e a mais três países: EUA, Geórgia e Roménia.

Esta última decisão é um passo de grande significância, com um aumento de 40% do número de membros da sua estrutura de topo. A entrada de mulheres tem também um forte significado, demonstrando que o rugby já é não só praticado por homens, o que acontecia até ao inicio do século XXI, mas tem tido um crescimento muito rápido na participação ativa de jovens do sexo feminino.

Isto mostra bem a capacidade dos homens, e agora também das mulheres do rugby, a adaptarem-se a novas realidades, sem abandonar os princípios fundamentais que sempre os nortearam, e perspetivando um futuro sempre em continuo crescimento.

Mas o que significará este alargamento? Se bem que o Council seja o órgão que aprova as grandes decisões estas são preparadas pela estrutura e principalmente pelos diversos “Committees” sendo os mais importantes o “Rugby Committee” e o “Regulations Committee”. Mas as decisões são fundamentalmente tomadas pelo “Executive Committee” constituído por 12 elementos, sendo muito relevantes o Chairman, o inglês Bill Beaumont, o Vice-Chairman, o argentino Agustin Pichot e o CEO Brett Gosper. E aqui os membros de raiz britânica estão em larga maioria e por isso os seus interesses estarão sempre bem representados.

O Council, que apenas reúne duas vezes por ano, normalmente em Maio e em Novembro, limita-se a aprovar as propostas que já passaram pelos vários níveis de decisão.

Mas esta abertura tem certamente significado. Pode-se esperar uma maior enfase na promoção do rugby feminino, começando desde já num maior número de torneios integrados na World Sevens series.

A liderança da World Rugby tem sido determinante na expansão que o jogo tem vindo a registar, apoiando financeiramente programas diversos como p.ex. o “Get into Rugby” que tem possibilitado que o jogo se afirme em novas áreas onde até há pouco era praticamente desconhecido alargando significativamente a massa de praticantes.

Quais são os desafios que o rugby vai enfrentar nos próximos dez anos?

Não se perspetivam alterações significativas na liderança do rugby mundial. As nações que têm dominado todas as competições deverão manter-se entre as dez primeiras posições do ranking mundial. Apenas se vislumbra a intromissão da Geórgia que tem vindo gradualmente a aproximar-se das posições cimeiras.

Face a esta situação, o atual sistema competitivo deverá manter-se sem alterações significativas baseado na realização de um campeonato do mundo com a atual periocidade, e nos jogos testes de junho e novembro. Enquanto a presença de espetadores se mantiver ao nível atual este sistema não será alterado pois constitui uma fonte fundamental de financiamento para as diversas federações que assim podem continuar a investir na sua capacidade competitiva e no progresso do jogo.

No que respeita às competições europeias não se antevêem alterações nas competições da Rugby Europe e muito menos no Torneio das 6 Nações pese embora a continua ascensão da Geórgia. Mas afastar a Itália não me parece que possa acontecer e passar a 7 é uma opção impraticável.

No que respeita ao hemisfério sul, o Super Rugby será certamente alterado, já que a fórmula atual não se tem revelado positiva havendo um decréscimo no número médio de espetadores aos seus jogos. O domínio das equipas da Nova Zelândia não tem contribuído para um maior interesse competitivo. A inclusão de uma equipa das ilhas do pacifico será certamente uma realidade, mais ano menos ano.

No capítulo dos regulamentos da World Rugby, vai certamente assistir-se a uma reformulação das normas de qualificação de jogadores para as equipas nacionais. As atuais, baseadas na naturalidade e residência e não na nacionalidade, sofrerão certamente algumas alterações, mas não creio que muito significativas. As federações britânicas e do hemisfério sul não aceitarão mudanças radicais.

Iremos ainda assistir a uma cada vez maior participação de entidade exteriores ao rugby a investir na gestão dos clubes europeus designadamente em França e Inglaterra e a uma maior movimentação de jogadores entre clubes.  É nestes países que os mercados são mais vastos e daí a apetência dos investidores.

A expansão do rugby feminino continuará a bom ritmo e aqui poderemos esperar que novas competições sejam lançadas. Mas tudo dependerá da disposição para aqui investir, já que as competições femininas não serão, a curto e a médio prazo, auto-suficientes financeiramente.

Mas não antevejo que em 2028 a realidade do rugby mundial seja muito diferente da atual.

Foto: Getty Images

Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter