Internacionais de Verão 2021: Maori encantam e Springboks estão de volta

Francisco IsaacJulho 4, 20219min0

Internacionais de Verão 2021: Maori encantam e Springboks estão de volta

Francisco IsaacJulho 4, 20219min0
Os Test Matches de rugby deste Verão já começaram e contamos o que se passou em três deles! Da magia dos Maori ao regresso dos Boks, qual o melhor?

1º fim-de-semana da janela internacional de Verão e já tivemos direito a um jogo de elevada emoção, que foi o Irlanda-Japão (39-31), enquanto os All Blacks obliteraram uma Tonga com vários laivos de amadorismo (enquanto os Maori e Samoa ofereceram um jogo mais interessante), entre vários outros resultados que marcaram esta primeira vaga de jogos. Mas o que houve de especial? Oferecemos uma análise a três dos vários encontros destes dia 3 e 4 de Julho de 2021.

MAORI E SAMOA OFERECEM ESPECTÁCULO

No 1º fim-de-semana de jogos entre as duas principais selecções séniores da federação neozelandesa, All Blacks e Maori All Blacks, e as selecções do Tonga, Samoa e Fiji, tivemos direito a um excelente espectáculo no jogo de abertura, mas nem por isso no 2º, apesar da avalanche de ensaios oferecidos. Os Maori All Blacks, que na semana passada já tinham derrotado a Samoa por 35-10, voltaram a ganhar frente ao mesmo adversário, desta feita por 38-21, num encontro com tudo aquilo que os adeptos do rugby da oval gostam: ensaios, jogadas mirabolantes, fases constantes que depois eram quebradas fruto de uma intercepção, boas placagens e um respeito comum e intenso entre ambas equipas.

Do lado neozelandês três jogadores estiveram em alta evidência: Alex Nankivell (Chiefs), Whetu Douglas (Crusaders) e Jonah Lowe (Hurricanes). O primeiro, centro dos Waikato Chiefs, assumiu o papel de principal aríete no ataque dos Maori, forçando 7 erros defensivos aos Manu Samoa, resultando 3 quebras-de-linha, mais quatro assistências para penetrações dos seus parceiros, para além de 8 defesas batidos, 7 tackle busts e 4 offloads, continuando a excelente forma demonstrada durante a temporada do Super Rugby Aotearoa e Trans-Tasman.

Do lado samoano, destaque para dois jogadores em particular: Neria Fomai (Hawke’s Bay) e Rodney Iona (Gordon). Se o primeiro, que jogou a ponta, foi um problema no poder de aceleração e aquela dança endiabrada com os pés, já Rodney Iona surpreendeu novamente tudo e todos pela espetacularidade técnica, a inteligência no setup de uma série de jogadas (veja-se o 1º ensaio da Samoa, a rapidez em que leu a defesa e como a explorou) e a abordagem ao “caos” organizado dos seus adversários, sendo uma das revelações actuais do rugby samoano, especialmente quando joga numa divisão secundária australiana (em Nova Gales do Sul).

9 ensaios, 1 km em que a oval foi carregada, 27 offloads, 17 quebras-de-linha, 52 defesas batidos e, para os apaixonados pela defesa, 275 placagens efectivas (40 falhadas) e 7 turnovers neste super-jogo entre Maori All Blacks e Samoa. Contudo, entre All Blacks e Tonga, o encontro foi extremamente desnivelado, terminando num 108-00 que não faz justiça em relação à qualidade desta selecção do Pacífico, sendo que temos de referir a existência de dado a ter em atenção que faz a diferença na leitura deste encontro: 13 jogadores do Tonga estiveram impedidos de participar, pois encontram-se em isolamento forçado pelo protocolo de viagem para a Nova Zelândia. Esta situação exigiu que a federação do Tonga recrutasse jogadores elegíveis a jogar pela selecção, independentemente se eram amadores, semiprofissionais ou profissionais, montando uma equipa não só inexperiente como pouco preparada para jogar frente a uma das melhores nações mundiais.

Relembramos, que a Nova Zelândia será “casa” das selecções das Ilhas do Pacífico até ao dia 17 de Julho (os Maori já terminaram a época), seguindo-se agora um Nova Zelândia-Fiji (10 de Julho), enquanto Samoa e Tonga vão disputar o acesso ao Mundial de Rugby 2021 a partir do próximo sábado, numa series a dois jogos.

OS CAMPEÕES DO MUNDO ESTÃO DE VOLTA

Depois de quase dois anos sem entrarem em campo, os Springboks finalmente jogaram o seu primeiro jogo como campeões do Mundo de Rugby e, naturalmente, derrotaram a Geórgia num encontro fisicamente duro e importante para preparar os homens de Jacques Nienaber e Rassie Erasmus para o duelo contra os British and Irish Lions. Os 40-09 só ganharam esta dimensão a partir dos últimos minutos da 1ª parte, pois até lá os lelos estiveram na frente do resultado por 09-05, lançando alguma surpresa, que rapidamente foi desfeita. A equipa técnica da selecção sul-africana lançou um par de novidades interessantes e destacamos três: Damian Willemse como 13; Kwagga Smith como 8; e a estreia de Aphelele Fassi.

O primeiro jogador falado, que foi assunto de discórdia por causa do contrato nos Stormers, é um polivalente natural que acabou por ser convocado para o Mundial de Rugby em 2019 devido à lesão de Jesse Kriel, tendo sido utilizado a defesa, abertura e ponta, com este elemento a funcionar a seu favor na hora de ser convocado ou não por Nienaber e Erasmus. Contra a Geórgia, Damian Willemse entrou em campo aos 55′ e em 25 minutos foi responsável por duas jogadas que levaram os Springboks até aos 22 metros adversários, somando duas quebras-de-linha, 3 tackle-busts, 4 passes de rotura e 6 placagens (nenhuma falhada), quatro elementos que determinam se tem qualidade ou não para vingar como centro. Foi a primeira surpresa da equipa técnica dos campeões do Mundo em título, mas não a única, pois para o “trabalho” de terceira-linha centro optaram por Kwagga, erguendo esta decisão umas quantas sobrancelhas e perguntas.

Fez diferença? Os números dizem-nos o seguinte: 7 placagens, 1 turnover e 2 alinhamentos roubados, isto no que toca ao aspecto defensivo; em relação ao ataque, realizou uma prestação “modesta” com 30 metros conquistados, 0 quebras-de-linha, 2 tackle-busts, 4 defesas batidos e 1 ensaio, acabando como o 2º avançado com melhores números. Contudo, e no que toca às obrigações enquanto 8? Se compararmos com Duane Vermeulen, Kwagga Smith foi quase o oposto na maneira como se mexeu em campo ou nalgumas das decisões tomadas, o que não significa ter estado mal, pelo contrário, pois Jacques Nienaber pode estar à procura de alguém que complemente táctica e tecnicamente Siya Kolisi e Pieter Steph du Toit, ou seja, um 3ª linha mais rápida, dedicado aos turnovers e a desmontar o processo ofensivo adversário, que pode rapidamente aparecer e jogar com as linhas-atrasadas, sem deixar de ter aquela agressividade na saída a partir da formação-ordenada, como aconteceu no seu ensaio. Kwagga Smith pode e deve ser visto como solução para a posição de nº8, caso Duane Vermeulen não esteja em forma, e se Jasper Wiese ou Jean-Luc du Preez não recebam a oportunidade para jogar frente aos Lions.

Para finalizar, Aphelele Fassi, um dos principais nomes actuais dos Sharks e um dos jovens de maior qualidade na África do Sul, fez questão de marcar presença com um ensaio veloz e uma assistência ao pé para Cobus Reinach (vale a pena ver essa jogada do 3º ensaio dos Springboks), sem esquecer a segurança que ofereceu nos pontapés altos ou no manter a sua zona de defesa impenetrável. A África do Sul, apesar de ter passado ao lado de todas as janelas internacionais de 2020, conseguiu mostrar que os elementos e qualidades que lhe valeram o título em 2019 continuam sólidos, entrando em grande em 2021.

RANDALL-SMITH, RESULTOU PELA ROSA?

A Inglaterra foi a última selecção do topo mundial a entrar em campo neste 1º fim-de-semana de jogos internacionais, com uma série de novidades a reunirem uma profunda curiosidade em relação ao que Eddie Jones queria testar ou procurar de novo, depois de umas Seis Nações que foram bem perdidas para o País de Gales. A maior curiosidade passava pela dupla Harry Randall e Marcus Smith, um combo completamente novo e que nunca antes tinha sido sequer testado (jogaram juntos nos sub-21 em uma ocasião) a este nível, abrindo assim a possibilidade da Inglaterra ter uma solução para a combinação 9-10 não só para o futuro, mas também para o presente. E resultou esta parelha?

No que toca aos processos ofensivos, ambos conseguiram dar outra largura, oferecendo Marcus Smith não só uma bola rápida para o 2º centro ou defesa, como também a possibilidade de ele próprio “assaltar” a linha de defesa dos Eagles, apresentando no final 2 quebras-de-linha, 70 metros conquistados, 1 assistência, 4 defesas batidos e 3 passes para roturas defensivas (Joe Cokanaskiga apareceu sempre bem junto do abertura), para além de ter criado constantes problemas a partir do jogo ao pé. Já Harry Randall marcou posição, podendo ser uma solução mais que credível a Ben Youngs ou Dan Robson (Danny Care não deverá voltar a ser solução de facto para Eddie Jones), pois a qualidade do passe a partir do chão, o acompanhamento rápido e compacto ao portador da bola e a inteligência no como incomodar a defesa adversário, foram essenciais para ganhar vantagem sobre os EUA e garantir uma estrutura de jogo sempre ameaçadora aos ingleses.

Os Estados Unidos da América, por sua vez, surpreenderam quem estava a assistir ao encontro, demonstrando que a aposta na MLR e no rugby profissional resultou num desenvolvimento da qualidade de jogo, seja pela forma mais célere como lêem os processos, a procura de soluções de handling diferentes ou a vontade de impor uma pressão inteligente na defesa, sem expor em demasia as “costas”. O 43-29 final dá uma ligeira ideia do quão disputado foi o encontro, faltando só aos Eagles melhorar a gestão da oval dentro dos últimos 30 metros (perderam o controlo da bola por quatro ocasiões, possibilitando uma rápida reacção da Inglaterra que criou dano sempre que pôde) e equilibrar a defesa quando surge um turnover ou perda de bola inesperado.

Com 12 estreias nos convocados, Eddie Jones volta à fórmula original que em 2016 pavimentou um caminho de sucesso para a Inglaterra, promovendo novas soluções, oferecendo “promoções” e garantindo uma pool de soluções quase inesgotável, isto a dois anos do Mundial.

NÚMEROS E DADOS DA 1ª RONDA

Maior marcador de pontos (jogador): Will Jordan (Nova Zelândia) – 25 pontos
Maior marcador de pontos (equipa): Nova Zelândia – 108 vs Tonga
Maior marcador de ensaios (jogador): Will Jordan (Nova Zelândia) – 5 ensaios
Maior marcador de ensaios (equipa): Nova Zelândia – 17 ensaios
Jogador com melhores números ofensivos: Will Jordan (Nova Zelândia) – 5 ensaios, 170 metros conquistados, 8 quebras-de-linha, 8 defesas batidos, 5 offloads e 2 tackle-busts


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter