Hemisfério Norte vs Hemisfério Sul: quem tem a hegemonia?

Francisco IsaacDezembro 23, 20208min0

Hemisfério Norte vs Hemisfério Sul: quem tem a hegemonia?

Francisco IsaacDezembro 23, 20208min0
Realmente o sul tem ascendente sobre o norte ou é um "mito" de outros tempos? Uma análise aos números, frente-a-frente e factos da "guerra" entre o Hemisfério Norte e Sul

É ou não uma falsa questão, esta de quem tem o domínio? Se o velhinho e “casa” original do rugby, o Hemisfério Norte? Ou se os rebeldes e enérgicas gentes do Hemisfério Sul? Se o Hemisfério Norte se circunscreve hoje em dia à Europa, numa lógica de calendário, e o sul pode se extender até ao Japão, EUA e Canadá, ultrapassando os limites estabelecidos pela geografia, a verdade é que o domínio a nível de resultados não é tão esclarecedora para qualquer um dos lados como alguns “pensadores” assumem com relativa rapidez, existindo até um equilíbrio bem curioso que pode ser analisado com base nos resultados entre selecções dos dois diferentes mundos. Mas será assim tão linear?

Há alguns pontos a considerar antes de partirmos para os números e dados analíticos: EUA e Canadá (Hemisfério Sul) ficaram de fora da equação, assim como a Roménia e Rússia (Hemisfério Norte), trazendo para o tabuleiro o Japão, Fiji, Tonga, Samoa (todos considerados como Sul) e Geórgia, devido ao seu estatuto de selecções que já estão entre as principais ou no caminho para esse patamar; 2016, 2017, 2018 e 2019 foram os anos analisados, especificamente os períodos de internacionais de Verão (Junho-Julho) e Outono (Outubro-Novembro), sendo que em 2019 só aconteceram cruzamentos de jogos no Mundial de Rugby; o tour dos British and Irish Lions não entra nas “contas”, nem jogos dos Barbarians ou selecções de convite.

Ou seja, só foram considerados jogos oficiais entre as selecções da Nova Zelândia, Austrália, África do Sul, Argentina, Fiji, Samoa, Tonga, Japão como as representantes do Sul, enquanto Inglaterra, Irlanda, Escócia, País de Gales, França, Itália e Geórgia ocupam o spot dos membros do Hemisfério Norte (se quisermos, Europa) para este cálculo.  Para via das dúvidas, fizemos duas fórmulas, uma como todas as nações seleccionadas e outra só com os membros das Seis Nações e Rugby Championship, de forma a mostrar que em nenhum dos dois mundos há um domínio completamente expressivo.

O QUE DIZEM OS ÚLTIMOS 4 ANOS?

Passemos ao que realmente interessa… aos dados propriamente ditos. Em 2016, tivemos cerca de 36 encontros que colocaram nações do Hemisfério Norte e Sul, com destaque para a estreia de Eddie Jones no comando da Inglaterra, tendo a Rosa derrotado a Austrália em três encontros numas Series realizadas no mês de Junho, mais a África do Sul, Fij e Austrália novamente mas agora em casa. Do frente-a-frente entre hemisférios, o Norte saiu vencedor em 22 encontros de um total de 36, enquanto que os do Sul somaram 13, registando-se um único empate, que aconteceu entre a Geórgia e Samoa (19-19). Se reduzirmos para jogos entre as Big-10 do rugby mundial, então há uma redução na diferença entre pólos com o Norte a ostentar 14 vitórias e o Sul 12 (foi o ano em que a Irlanda conseguiu superar a Nova Zelândia pela primeira vez na história, num jogo memorável em Chicago por 40-29).

Em 2017, o Sul conseguiu sair vencedor da batalha entre as Big-10, somando 11 vitórias, enquanto o Norte só ganhou por 9 ocasiões – destaca-se o atropelamento dado à África do Sul no Aviva Stadium por 39-03 -, mas se formos para o quadro geral já há uma inversão de cenário, em que os europeus arrebataram 18 encontros vitoriosos e os do outro lado do Mundo com 16 (registou-se novamente um empate, entre França e Japão por 23 pontos).

Já 2018 o Norte arrebatou o título de campeões tanto dos jogos em que se incluíam Fiji, Geórgia, Samoa, Tonga, como das Big-10, com um registo de 21-13 e 15-11 respectivamente, destacando-se a vitória da Irlanda ante os All Blacks em Dublin, que lhes possibilitou levantar o título de melhor selecção do Mundo, para além de seleccionador (Joe Schmidt) e jogador (Jonny Sexton). A África do Sul começou a reerguer-se nesse ano de pré-mundial, em que derrotaram a Inglaterra nas Series realizados em território do País do Arco-Íris. Outro dado importante a reter, é o facto da Argentina não ter registado qualquer vitória nos internacionais de Verão e Outono, nem no Rugby Championship, completando um dos piores anos de sempre da sua história enquanto selecção.

E no ano da 9ª edição do Mundial de Rugby, quem acabou na frente? No global? Foi o Norte que preservou o seu estatuto de vencedor com 13 vitórias, sendo que entre as 10 grandes acabou num tremendo empate, apesar dos Springboks terem levando o seu tricampeonato a 2 de Novembro.

No meio desta análise aos números, qual dos hemisférios no somatório destes quatros anos obteve um melhor registo? No que toca aos jogos entre as 15 selecções seleccionadas, o Hemisfério Norte assume uma liderança folgada com 74 vitórias frente a 51 para o Sul, o que mostra um pender de balanças a favor do bloco europeu. Mas será que o mesmo se passa se reduzirmos destas 15 para as Big-10? Bem, a Europa continua na frente mas com a vantagem a encurtar para uma diferença de apenas 4 vitórias, com um 43-39 respectivamente.

Isto são os números e dados, é matemática – e não é só estatística -, ou seja, é um facto real e adquirido, não havendo forma de distorcer ou fugir a esta realidade: o Norte não só tem conseguido estar em pé de igualdade com o Sul, como há até uma vantagem para os representantes das Seis Nações (mais a Geórgia) neste momento em termos de vitórias e derrotas.

O CRESCIMENTO DO NORTE OFUSCA O BOM RUGBY DO SUL?

A questão da qualidade a nível de jogo jogado é outra questão que está em pé de igualdade com os números entre ambos contingentes, em que o Sul continua a ser o cabeça-de-cartaz nessa frente, seja pelo brilhantismo imposto uma e outra vez pelos All Blacks (continuam a ser a melhor selecção em termos de pontos e ensaios marcados, destacando-se também nos prémios da World Rugby de forma constante) ou pela loucura desenfreada (e por vezes excessivamente arriscada) dos Wallabies, adicionando ainda aquela dose de fisicalidade letal dos Springboks que gosta de atormentar os seus adversários.

Mas é impossível não atribuir valor à qualidade do rugby da Inglaterra, que derrubou a Austrália de forma consecutiva nos últimos anos, para além de ter registado 3 vitórias frente à África do Sul (os Springboks conseguiram derrotar os homens de Eddie Jones também por três ocasiões) e uma frente aos All Blacks nas meias-finais do Mundial de Rugby, ou o crescimento sustentado do País de Gales (nunca conseguiu vergar a Nova Zelândia, mas coleccionou duas vitórias frente à Austrália, três ante à África do Sul e um sem número contra a Argentina), sem esquecermos o brilhantismo da Irlanda que registou nos últimos 4 anos vitórias-estreia na África do Sul (2016), Nova Zelândia (2016) e Austrália (nas Series de 2018), assumindo aqui um equilibrio total entre estas seis selecções do topo mundial.

É claro que uma parte dos críticos ou leitores pode apontar para a questão de que nas nove edições do Mundial de Rugby só por uma vez houve campeão do contingente do Norte/Europa, a Inglaterra em 2003, sendo que nas outras oito edições o dono do troféu foi uma nação do Sul. Nas 9 finais realizadas do Rugby World Cup, por sete vezes houve confronto entre H. Norte e H. Sul, com a Nova Zelândia, Austrália e Inglaterra a somarem 4 (os All Blacks conquistaram três, os Wallabies dois e a Rosa um troféu) e a África do Sul 3 finais, existindo um certo equilíbrio entre pólos.

Mas domínio total? Não existe nos dias de hoje. A Irlanda já mostrou que consegue ir até à Austrália e sair de lá com um troféu, a Inglaterra infligir dano quer seja na África do Sul ou Nova Zelândia, ou o País de Gales, que foi capaz de derrubar os Springboks e Wallabies em mais do que uma ocasião. Se ainda for postulado a ideia de que as selecções do sul vivem acorrentadas aos maus registos da Argentina, então o que dizer do recorde supra-negativo da Itália (que mesmo assim foi capaz de ganhar à África do Sul em 2017) nos últimos anos ou a inconsistência da Escócia, que tanto pode quase ganhar à Nova Zelândia como quase perder frente à Samoa (44-38 em 2017).

A diferença entre os dois hemisférios encurtou, já não é tão clara e só mesmo a Nova Zelândia manteve um registo de maior domínio, com 16 vitórias e 3 derrotas em jogos frente à Inglaterra, País de Gales, Irlanda, Escócia, Itália e França nos últimos quatro anos – Austrália apresenta números negativos com 7 derrotas e 14 vitórias e África do Sul com 14 vitórias e 10 derrotas.


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