Futuro negro para os All Blacks?

Fair PlayNovembro 21, 20196min0

Futuro negro para os All Blacks?

Fair PlayNovembro 21, 20196min0
A perda do título de campeão pode ser o início de um período menos bom para os All Blacks... ou pode pavimentar para nova época de ouro?

Os All Blacks já não possuem a Webb Ellis Cup depois de 8 longos anos de domínio absoluto, tanto no Torneio como no ranking da World Rugby.

A medalha de bronze sugere que os All Blacks já não estão na frente da corrida mas isso não significa que vão começar a perder jogos com regularidade no futuro próximo e as equipas que o acharem irão descobrir da pior maneira como estão erradas, pois avaliá-los com base num jogo de semifinal de um Mundial com toda a imprevisibilidade, sorte e timing que dela advém não é sensato.

No entanto, o que deve preocupar verdadeiramente a NZRU são os efeitos a longo prazo dos fracos resultados do seus sub-20 nos últimos anos, que indiciam a dificuldade futura de reconquistar a Webb Ellis Cup a curto prazo.

Estes resultados nas camadas jovens sugeriam que este desfecho no Mundial poderia ser esperado em 2023 ou 2027, mas em vez disso aconteceu mais cedo. A fábrica nacional falhou em manter o nível de domínio absoluto que foi mantido por tanto tempo a nível sénior.

Depois de vencerem as primeiras 4 edições anuais do Campeonato Mundial sub-20 até 2011 e de maneira avassaladora com vitórias nas finais por +20 pontos, a NZ apenas ganhou 2 títulos nos últimos 8 anos, sendo que em tempos mais recentes atingiram o abismo com 5 lugar (2016) e 7 lugar (2019), os piores resultados de sempre.

Podemos argumentar que o formato destes campeonatos são implacáveis pois uma derrota na Fase de Grupos acaba com qualquer esperança de podes sair vencedor. No entanto essa é exatamente a finalidade do Mundial de Rugby, um torneio que assenta no formato de vencer ou ir para casa.

Neste Mundial sub-20 não existem normalmente jogos fáceis na fase de Grupos contra equipas amadoras ou em desenvolvimento como Canadá ou Namíbia.

Os Baby Blacks são os atletas de elite de cada “colheita” anual e a “fonte de rendimento” dos All Blacks do amanha. Falhas pontuais não são indicativas de problemas sérios mas ao longo de 8 anos o cenário já se torna claro e problemático.

O sistema Neozelandês tem neste momento de apostar tudo em voltar a liderar as restantes Nações em termos de desenvolvimento de atletas, jogadores e equipas para conseguir ganhar Mundiais baseando-se nos resultados dos sub-20 desde 2012. Sucesso em 2023 no Mundial em França vai depender fortemente de como os jogadores sub-20 desta década se desenvolvem, sabendo que a maioria não são os melhores do Mundo na sua idade.

A geração de Ouro de 2011 com jogadores como Beauden Barrett, Brodie Retallick, Sam Cane e Codie Taylor vai necessitar de alguma ajuda.

Sem dúvida que possuem estrelas como Damian McKenzie (2014) e Richie Mo’unga (2014), mas existe um défice em termos de progressão a nível de camadas jovens que garantam a qualidade e profundidade que equipas Campeãs Mundiais necessitam.

A geração de 2012 apenas produziu 2 All Blacks em Ofa Tu’ungafasi e Nathan Harris, sendo este considerado 4a opção de talonador e tendo mesmo ficado de fora dos escolhidos para este Mundial. De realçar Jordan Taufua que nunca ganhou uma internacionalização e está de malas aviadas para os Leicester Tigers apesar de titular durante muitos anos dos multicampeões Crusaders. Em termos de ¾, apenas Bryn Hall e  Marty McKenzie permanecem em equipas Neozelandesas de Super Rugby.

A equipa de 2013 produziu grandes talentos como Ardie Savea, Scott Barrett, assim como os internacionais Jackson Hemopo (partiu para o Japão) e Patrick Tuipulotu, sendo de destacar Savea pelo seu talento mundial e absolutamente fundamental que seja retido pela NZR depois de expirar o seu contrato em 2021, assim como Barrett em 2020. Pela negative nenhum ¾ desta equipa se tornou All Black e apenas Michael Collins e Tei Walden permanecem atualmente em equipas NZ do Super Rugby.

De 2014, destaque para o muito forte e a seleção surpresa deste Mundial Atu Moli, e os prodígios Damian McKenzie, Richie Mo’unga e Anton Lienert-Brown.

Da selecção Campeã Mundial de 2015, liderada por Scott Robertson, apenas o já destacado Moli e o regular All Black Jack Goodhue permanecem, sendo muito escasso a retenção para o futuro da Seleção sénior.

Em 2016 descobriram Jordie Barrett, Asafo Aumua, Luke Jacobson e Dalton Papalii, que foram a base e fundamentais na equipa Campeã de 2017 que destruiu a Inglaterra.

Os recorrentes sinais dos traumatismos sofridos por Jacobson são preocupantes relativamente à sua disponibilidade e longevidade, e por outro lado o explosivo Aumua está com muitas dificuldades em garantir a titularidade na posição de talonador nos Hurricanes apesar do seu enorme potencial e talento.

Também da classe de Campeões de 2017, o único internacional até ao momento foi Braydon Ennor, sendo Will Jordan o maior talento desta fornada e muito perto de ser chamado aos All Blacks num futuro muito próximo.

Podemos argumentar que durante este período de títulos mundiais consecutivos entre 2011 e 2019, chegar a All Black foi extremamente difícil e com muito mérito. No entanto, muitas destas equipas sub-20 estão carregadas de jogadores que não progrediram o suficiente para deixar a sua marca em carreiras no Super Rugby.

Baseado nas fracas evidências a nível sub-20, será um dos maiores feitos de sempre para o rugby neozelandês conseguirem construir uma equipa All Black capaz de levantar Webb Ellis Cup já em 2023.  Claro que o podem conseguir, mas é necessário baixar as expectativas e construir do solo depois do reality check dado pelos ingleses.

Estes resultados a nível sub-20, juntamente com a falta de progresso e follow up irão fazer-se sentir muito em breve. Os All Blacks continuaram a ser fortes ao longo deste novo ciclo mas para ganhar o Mundial, tudo terá que se alinhar na perfeição. Ter profundidade em termos de jogadores de classe Mundial serve de seguro contra problemas não programados que podem fazer descambar 4 anos de trabalho.

O longo sucesso e legado de Hansen não dependeu apenas dele mas sim do resultado de anos de trabalho desde o nível escolar de muitos trabalhadores e treinadores incansáveis por toda a Nova Zelândia. Com o decréscimo de nível a sair da linha de produção, combinado com a pressão constante de reter os mais prodigiosos, juntamente com o êxodo constante dos treinadores nacionais mais talentosos, o nível internacional será cada vez mais competitivo entre o top-5 nos próximos anos e ganhar o título Mundial mais difícil que nunca em 2023.

A última geração vencedora dos All Blacks de 2017


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