O futuro dos valores do desporto são também o futuro do râguebi português

Francisco IsaacNovembro 5, 201810min2

O futuro dos valores do desporto são também o futuro do râguebi português

Francisco IsaacNovembro 5, 201810min2
O rugby sempre se pautou por princípios inabaláveis que hoje em dia podem estar sob perigo. Qual será o futuro dos valores do desporto e do rugby português?

As consequências dos últimos anos de má gestão de todas as partes no rugby português dificultaram a sua expansão, colocando-se até a questão: a oval portuguesa tem valores? Uma leitura ao futuro dos princípios, deveres e consciência do rugby e desporto em Portugal

No século I a.c., mais precisamente no ano de 62, Pompeia, mulher do infame Júlio César, foi alvo de um profundo escrutínio devido ao facto de poder tido ou não relações com outro homem. A inocência de Pompeia foi confirmada, mas mesmo assim o seu cônjuge decidiu pôr fim à relação matrimonial, afirmando que “minha esposa não deve estar nem sob suspeita.”.

Esta frase desencadeou o nascimento de outra, na mesma sequência, “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Esta expressão sofreu constantes mutações, mas sempre assente no mesmo ponto: uma coisa não basta sê-lo, tem de parece-lo.

Posto este preâmbulo histórico, apliquemos ao desporto e aos seus intervenientes esta ideia de que os valores, princípios e deveres não podem ficar só pelas palavras, como também têm de ser demonstrados ao nível prático.

Nos últimos anos surgiram claros casos de falta desportivismo, ausência de fairplay e/ou de desrespeito crescente seja pelo adversário, adeptos ou própria equipa, no Mundo do Desporto. Estas tendências estão associadas não só ao facto de ser tudo um negócio (e uma campanha gigantesca de marketing), assim como do excessivo mediatismo, do jornalismo de “plástico” (mais preocupado com rumores e controvérsia que a análise e debate) ou descaracterização do que é a cultura desportiva.

Em modalidades onde estes valores eram e são, supostamente, “lei”, como no rugby já surgiram alguns casos minimamente preocupantes que lançaram as primeiras “sementes” do distanciamento entre adeptos e intervenientes.

Um exemplo claro disso, foi quando Lukhan Tui, internacional australiano, decidiu ir à bancada ver a família após o fim do jogo (derrota com a Argentina em casa) acabando por ser atacado verbalmente e fisicamente por um adepto.

O atleta recusou-se a apresentar queixas contra o agressor, optando pelo silêncio, sendo que abandonou também a selecção até ao final do ano. Para piorar a situação, o padrasto de Tui tinha falecido um dia antes do jogo, o que tornou toda a experiência ainda mais pesada.

A nível institucional, a Federação Australiana de Rugby (ARU) invocou uma suspensão desta mistura de adeptos e jogadores após o término de jogos, quebrando uma tradição quase “milenar” e que dava um sentido diferente, harmonioso e de comunhão da modalidade.

Consequências do profissionalismo na modalidade (que começou só no final dos anos 90) ou do crescendo intensificar de número de jogos, competição e da necessidade de resultados por parte dos fãs?

A exigência de chegar ao topo ou de garantir a “vitória” quebram com os valores e princípios do rugby? A pressão, o acumular das horas de treino, jogo e pós-jogo (ao contrário do que se pensa, os jogadores não desligam do jogo imediatamente mal este acaba) desencadeiam situações extremas?

E chegamos então ao centro nevrálgico deste artigo: terá o rugby português sofrido exactamente destes problemas? Terão sido os valores substituídos pela necessidade de ser o melhor? E há forma de demonstrar que os princípios e valores ainda são a parte mais importante da modalidade?

Caso prático de como os valores foram postos de lado: em Maio de 2018, na meia-final entre AEIS Agronomia e GD Direito, jogadores lançaram-se num frenesim de agressões (a maioria empurrões, mas existiu claramente uma parte mais agressiva) que escalou a um dos topos do recinto de jogo, onde estava alguma assistência.

Passado umas semanas a Federação Portuguesa de Rugby decidiu relegar os clubes, para depois ver essa decisão revogada (legalmente bem revogada, note-se) pelo Conselho de Justiça, sendo que os emblemas ficaram com os campos interditos e uma multa para pagar de alguns milhares de euros.

Contudo, nem “agrónomos” ou “advogados” tiveram a coragem de penalizar os adeptos que decidiram recorrer à violência, escondendo até esse claro delito de tudo e todos. Felizmente, nas horas e semanas que se seguiram houve um empenho de relacionamento positivo e comunhão por parte dos outros adeptos, que não se viam representados naqueles actos.

Curiosamente, esta situação de falta de desportivismo e de desrespeito nessa meia-final gerou uma situação consciente (ou inconsciente dependendo como cada um quer ler) de desportivismo: Agronomia e Direito cederam mutuamente os seus campos um ao outro, para que pudessem jogar rugby sem custos de aluguer durante os 8 jogos de suspensão.

Para os mais adultos esta troca mútua de campos pode passar como desprovida de um sentimento real de desportivismo, falseando-se o cumprimento do castigo. Todavia, para os mais pequenos, que não compreendem os conceitos de desonestidade, desconfiança e falsidade, este intercâmbio dos recintos de jogo pode ser interpretado como um sinal de amizade e de companheirismo que consegue de coexistência, mesmo sendo os clubes “rivais” desde sempre.

Uma situação extremamente negativa e depreciativa para a modalidade acabou por gerar uma ligação curiosa entre clubes e pessoas. Ironicamente, a imprensa nacional não fez questão de passar esta situação positiva em directo, não cobrindo da mesma forma aquando dos desacatos em Maio… “um copo, duas medidas”.

Mas existem mais situações práticas de que os valores da modalidade estão a ser velados por? Em Outubro deste ano, o GDS Cascais tem uma acção excepcional, depois de uma vitória com tons de espectacularidade num jogo fora de casa ante o CR São Miguel: os atletas designados como os melhores-em-campo (e capitão) ficaram a limpar o balneário. Não foi castigo, não foi por obrigação, foi sim por iniciativa própria.

A moldagem dos jogadores do amanhã passa sem dúvida pelo primar pelo exemplo, por ter atenção às pequenas “coisas”, de trabalhar todos os detalhes e pormenores, seja um passe de trinta metros ou de apanhar as fitas de ligamentos de fisioterapia do chão e colocá-los no lixo.

No Grupo Dramático de Cascais (a equipa sénior é treinada pelo Professor Tomaz Morais, o seleccionador nacional que ajudou a levar os Lobos ao Mundial em 2007) este comportamento foi introduzido pelo treinador-adjunto do escalão de sub-16, Nuno Meira e tem vindo a ser uma constante nos últimos tempos.

Os All Blacks (mítica selecção da Nova Zelândia) têm sido os grandes embaixadores desta acção de limpar o balneário (Sweeping the sheds) e Melhores do Mundo como Dan Carter, Richie McCaw, Conrad Smith, Jerome Kaino, Dane Coles, Beauden Barrett, entre outros, participaram neste ritual de honrar o espaço onde se equipam e comungam antes de entrar para o jogo.

É este comportamento irrepreensível de demonstração de valores que fazem qualquer individuo comum sentir-se incomodado, procurando no seu âmago fazer melhor e ter outra acção no dia-a-dia.

E o rugby português durante largos anos teve (ou pelo menos pareceu ter) este comportamento de fair play, de positivismo no desporto, de respeitar os adversários, de saber partilhar e comunicar, de dar uma imagem tão forte que “forçou” pais e mães a deixarem os seus protegidos brincarem e entreterem-se com o Mundo da bola oval.

O caso da meia-final de 2018 não foi o primeiro de sempre em Portugal, longe disso, tendo acontecido em outras raras situações. Por vezes, há uma falange de jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos que não conseguem “vestir” bem o espírito competitivo correcto, entrando numa falência emocional crítica para o rugby e desporto em geral.

Olhando para outros casos de bem e de demonstração total dos valores, é ver o trabalho exímio do projecto Rugby com Partilha por exemplo.

Projecto iniciado por um grupo de antigos atletas, visa envolver reclusos das várias instituições prisionais portuguesas no rugby, levando a modalidade para dentro desses locais, tocando-os com os seus valores, sacrifícios e métodos.

O projecto tem sido um sucesso de forma tal que mais instituições prisionais querem este envolver, desenvolvendo-se uma acção positiva para com pessoas que cumprem penas de prisão.

Por vezes, o público em geral confunde reclusos como seres ostracizados pela sociedade não merecedores de qualquer espécie de vínculo emocional e social com o Mundo que fica lá fora.

O Rugby com Partilha dá assim a outra face, com um desejo de envolvimento com quem está na prisão, preparando-os para reintegração na sociedade quer seja amanha ou depois. Nem todos são passíveis da tal reintegração, mas não é por isso que a sociedade deve colocar de parte os outros todos.

Mais uma vez, esta demonstração dos valores do desporto não é passada pela imprensa generalista, perdendo uma oportunidade para suscitar um sentimento positivo com o desporto em si.

Existem tantas outras actividades e acções do verdadeiro espírito do rugby, como o trabalho do Projecto Escolhas no Bairro do Cerco no Porto; a construção de uma unidade de rugby pela Escola de Rugby da Galiza, que tem motivado cada vez mais atletas de bairros mais carenciados a participar na modalidade; do espírito do Ubuntu pela equipa com o mesmo nome; etc.

Definitivamente existem mais casos práticos dos Valores do rugby no desporto português que devem servir de tábua de crescimento para o futuro da modalidade, sustentada não só pelos resultados a nível sénior, mas por toda a sua acção fora das quatro-linhas, de influência positiva no caracter e desenvolvimento humano dos seus intervenientes.

É com base nisto que o futuro do rugby em Portugal tem de caminhar para outra época de ouro, desta vez com foco num projecto de longo-prazo, de não só de conquistas, aumento de número de atletas, criação de mais clubes, mas sobretudo de se diferenciar de novo como uma modalidade especial e que procura a redenção em todos os capítulos.

Para fechar a discussão da colocação em prática dos valores no rugby, a comunidade da oval lusa abraçou um projecto de apoio ao rugby em Moçambique. 500 crianças, que estão a aprender a jogar a modalidade em Maputo, atravessam por uma crise de fome e a APOIAR lançou o projecto “Apoiar Campeões”. Do Algarve a Arcos de Valdevez, do campeão CF “Os Belenenses” Rugby até ao Ubuntu Rugby, todos estão a trabalhar para garantir um futuro risonho à comunidade moçambicana de rugby.

Podem saber mais em www.apoiar.org


2 comments

  • Francisco Silva

    Novembro 8, 2018 at 4:08 pm

    Caro Francisco,
    Como dizes, e bem, este é um problema global. Neste momento, o Rugby está a passar uma fase crítica em muitos dos países profissionalizados. Na Austrália, é o 6º desporto mais seguido e não tem qualquer impacto mediático, o que é estranho dada a força das suas selecções no panorama internacional e os 2 Campeonatos do Mundo já conquistados. Em Inglaterra, está a ser montado o negócio idêntico ao futebol. Os jogadores de rugby estão a começar a ser tratados como máquinas, mas quem controla o jogo não se lembra que um jogador de rugby não recupera de um jogo do mesmo modo que um jogador de futebol. Já há muitos jogadores a virem a público queixarem-se da quantidade de jogos (Clube + Selecção) e do pouco tempo de recuperação/descanso. As coisas estão mesmo muito feias, como comprova a decisão do Joe Marler que quando se aproxima do auge da carreira (e 1 ano antes de um Campeonato do Mundo) decide abdicar da Selecção para poder passar tempo com a família!
    O que conta hoje em dia é fazer dinheiro. E a RFU e os clubes ingleses sofrem essa pressão dos patrocinadores e a olhar para os seus saldos bancários.

    Quem passa ao lado de todos estes problemas, talvez seja só aparência mas acredito que não, é a Nova Zelândia. É conhecido o alto critério na decisão de quem pode representar este país ao mais alto nível Parece-me um filtro apropriado. Sabem que quem veste aquela camisola pode ser considerado um exemplo. E os bons exemplos deverão vir de cima.

    E aqui reside o NOSSO problema. E é um problema que é de todos. Não é só de Agronomia e Direito. O exemplo não vem de cima. Não vem dos jogadores seniores. Não vem dos treinadores. Não vem dos dirigentes.
    Há algumas boas acções de desportivismo por cá, mas, a meu ver, ainda não suficiente.
    Todas as semanas se repetem agressões em campo (umas mais escondidas que outras), insultos parte a parte, entre bancos e bancadas. Em todas as direcções. E não se passa nada. Considera-se tudo normal.
    Também aqui já se sente o peso dos patrocinadores e a necessidade de os aguentar. Mas a que custo queremos estes patrocinadores? Queremos que no nosso rugby a vitória esteja acima dos valores tão apregoados?

    É necessária uma análise de fundo ao estado do nosso rugby. E, talvez, relembrarmo-nos das razões porque andamos no rugby, olhando para a Competição e para a Formação e adequando o “programa” da modalidade.

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  • David Pereira

    Novembro 6, 2018 at 10:27 pm

    Boa noite, gostaria felicitar o autor deste texto, tão bem escrito, que considero exímio no tema que aborda e nas questões que suscita sobre os atuais valores do râguebi. Este texto espelha sem qualquer imprecisão o meu pensamento, mas não o saberia exprimir tão bem. Muito obrigado pelo seu contributo para o Râguebi nacional, e não só.

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