O que fica para o futuro do rugby de 7 depois do Algarve 7’s?

Francisco IsaacJunho 6, 201810min0

O que fica para o futuro do rugby de 7 depois do Algarve 7’s?

Francisco IsaacJunho 6, 201810min0
De que vale fazer um evento como o Algarve 7's? Será que fica algo para o futuro da modalidade? E o que/quem beneficiou? Uma análise ao depois do Algarve 7's

Ponto de partida: uma empresa de turismo desportivo esboça um torneio internacional dividido em 3 categorias (4 se contarmos os veteranos) com olho para a presença entre 30 a 40 equipas num fim-de-semana já quase no Verão, após o final de todas as competições nacionais. Mais, um torneio que tem de se realizar num local onde o rugby está com dificuldades em ganhar “pernas” para começar não só a andar, mas a correr.

Foi esta a lógica que a Sports Ventures, empresa que tem como director José Diogo Trigo de Moraes (antigo jogador de rugby no CF “Os Belenenses” e que jogou fora de Portugal), aplicou na construção de um torneio de 7’s que trouxesse não só estrelas a Portugal, mas que conjugasse uma série de factores que mexessem com as sinergias da variante e modalidade no território Nacional.

Ao fim de dois dias, de quase uma centena de jogos, o cômputo final é de um grande sucesso em termos de participação, de envolvimento humano, ficando patenteado que há a qualidade organizacional em solo luso para montar este tipo de eventos. O Algarve 7’s abriu um capítulo novo na História do rugby português, que parecia ter ficado encerrado com o fim dos Lisbon 7’s.

Mas afinal, do que vale fazer um Algarve 7’s? Do que vale gastar uma série de patrocínios, apoios, esforço e atenção num evento que parece ser apenas um pormenor no calendário do rugby português? Não seria melhor aplicado nos jogos da Selecção Nacional ou nos campeonatos nacionais que não têm qualquer apoio por parte de ninguém (ter só a final transmitida na televisão não conta como boa exploração desta divisão)?

Respondendo pela sequência das perguntas:

– Vale muito, pois cria uma vontade de jovens atletas quererem jogar esta variante desde cedo para participarem em eventos deste género e/ou olharem para os 7’s como uma boa solução de carreira;

– não se pode chamar ao Algarve 7’s um “pormenor de calendário”, pois a força com que apareceu merece outra importância na hierarquia de torneios ou realizações desportivas do rugby português. Mas se insistirem no “pormenor”, então pensem que a soma desses detalhes (e há vários de qualidade em Portugal) pode levar a que exista algo de sensacional para a modalidade que até à 5 anos era pouco trabalhado: imagem, marketing e promoção da modalidade que extravasa a selecção nacional ou finais de competições seniores;

– Aplicar tudo no mesmo pote é um erro crasso de qualquer modalidade. A Sports Ventures realizou dois eventos em 2018 de grande magnitude e ambos foram um sucesso. Ter mais torneios deste género provoca um calendário mais “animado”, dinâmico, atractivo e que tem uma visibilidade que interessa aos mais “pequenos”;

Criar novos eventos, promover novos patrocinadores, abrir novas portas e fazer novos caminhos para o rugby português que estavam por explorar é esta a lógica que a Sports Ventures quis encetar por e, no final do Algarve 7’s parece tê-lo conseguido. O apoio firme da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António é uma prova que este é o “caminho”… como explica a própria Presidente Maria Conceição Cabrita,

Mas vamos ao evento e ficar a conhecer os resultados finais!

AND THE 2018 CHAMPIONS ARE: AGRONOMIA, HONG KONG E SUSIES

Rapidamente: no Men Open os campeões foram os “agrónomos” de Frederico Sousa; na Women Cup, Hong Kong fugiu com o título por 2 pontos; e os Susies não quiseram ficar atrás de Hong Kong e ganharam por apenas 1 ponto frente a Portugal.

Demoradamente, vamos dividir as competições.

Men Open

A participação de 8 equipas, a larga maioria portuguesas, foi de enorme sucesso apesar da pouca aderência a nível de clubes nacionais (motivos podem ser dos mais variados possíveis). A grande surpresa na fase-de-grupos foi a invencibilidade do Rugby Vila da Moita que somou só vitórias no primeiro dia, garantindo o 1º lugar na sua pool, ganhando inclusivé à Agronomia.

Do outro lado estava o GD Direito, que facilmente ultrapassou os seus adversários, à excepção do SL Benfica. As “águias” ainda deram luta e sonharam com o apuramento como 1º lugar da Cup. Porém, a formação dos “advogados” deu show na 2ª parte e levou de vencido o SL Benfica por 19-10.

Alguns clubes tiveram menos sorte, como a Universidade de Edimburgo ou o Edinburgh College, que não conquistaram qualquer vitória no 1º dia. No dia das finais, a Agronomia entrou a “matar” e só parou na final, com um rugby bem animado e surpreendente. Contudo, a maior surpresa de todas vai para o facto do Moita ter derrotado o GD Direito para garantir um lugar na final da divisão.

No último jogo, os “agrónomos” não cometeram os mesmos erros que na fase-de-grupos e arrebataram o troféu de campeões desta divisão por 36-07. José Rodrigues foi votado como o melhor jogador da competição e um dos destaques do torneio!

Classificação final: 1º AIS Agronomia; RC Vila da Moita; 3º GD Direito; 4º SL Benfica; 5º CR São Miguel; 6º Edinburgh College; 7º Universidade de Edinburgh; 8º Saltires;

Fiquem com algumas palavras do treinador da AIS Agronomia, Frederico Sousa

Women Open

Os três grandes candidatos à partida, SL Benfica, Hong Kong e a Portugal, assumiram esse favoritismo e garantiram um lugar nas meias-finais sem grande problema. Destaque para a vitória das encarnadas contra Portugal por 19-07, possibilitando-lhes o acesso aos quartos-de-final como 1º classificado. Todavia, as linces de João Mirra não deixaram que essa derrota as afectasse e recuperaram a forma para atingirem a final da competição.

E quem foi o outro finalista? Hong Kong. A formação asiática esteve imparável e só no 1º dia marcou 134 pontos e duas dezenas de ensaios, demonstrando o seu claro favoritismo. Mas o que explica esta diferença de resultados? Qualidade do jogo à mão que combinado com uma sempre boa intensidade e ritmo físico colocavam as asiáticas no topo dos seus confrontos.

Esse domínio foi claro, especialmente nas meias-finais, altura em que enfrentaram o SL Benfica. Quando se esperava um jogo equilibrado entre as duas formação, tivemos o oposto… pois, Hong Kong facilmente eliminou a equipa portuguesa por 35-00, confirmando o seu lugar na final do Women Open. Do outro lado, Portugal iria conseguir chegar à final de competição derrotando o GDS Cascais e Catalunya.

E na final? Bem, ao contrário do que a maioria poderia pensar, Hong Kong teve alguma “sorte” no resultado final, que terminou num 07-05. Portugal fez um jogo quase exemplar, com Maria Heitor e Inês Spinola em grande pela selecção nacional. A recuperação do 1º para o 2º dia da equipa de João Mirra prova que a selecção nacional está no bom caminho na variante.

Classificação final: 1º Hong Kong 7’s; 2º Portugal 7’s; 3º SL Benfica; 4º Catalunya; 5º Durham University; 6º Strathclyde; 7º GDS Cascais; 8º Dundee;

A divisão feminina poderá vir a sofrer alterações em 2019 e isso é fruto do interesse de mais selecções e clubes no rugby feminino. A GLS, por Victor Gonzalez, explica o porquê da aposta no Algarve 7’s no rugby de 7 quer seja masculino ou feminino.

Elite Open

A competição que reuniu 12 equipas de alto talento foi um super evento, exactamente o que os fãs da variante estavam à espera! As principais equipas tinham o seu jogador chamariz como os Samurai Rubgy com o Pedro Leal e Adérito Esteves, Portugal 7’s com Gonçalo Foro ou Duarte Moreira, New Zealand Metro com Todd Clever ou os Navigators com Diogo Miranda.

Contudo, a maior surpresa veio da parte de uma equipa “desconhecida” para a maioria dos adeptos do rugby português: os Susies. A formação holandesa só teve um leve percalço que se registou contra Portugal na fase-de-grupos, jogo esse em que se registou um empate a dois ensaios (não convertidos).

Os Navigators tiveram um primeiro dia intermitente, concedendo pontos ante Hong Kong, para conquistar duas importantes vitórias logo de seguida frente aos New Zealand Metro e Catalunya. Infelizmente, a boa forma dos portugueses terminou na fase-a-eliminar. Russia, Hong Kong e Alemanha impuseram as derrotas nos quartos da Cup, meias da Shield e final do 7º/8º lugar.

Das selecções presentes, a Rússia levantou a Shield, enquanto que a Catalunya festejou com a Bowl debaixo do braço. As meias-finais da Cup ficaram reservadas para as quatro melhores equipas da competição: Samurai Ruby, Susies, New Zealand Metro e Portugal 7’s. Os neozelandeses acompanhados de um fijiano e norte-americano, ficaram fora da final ao serem derrotados por Portugal; os Samurai, por outro lado, também saíram derrotados pela margem de um ensaio.

A final foi “inesperada”, uma vez que a maioria queria/esperava ver os Samurai ou New Zealand Metro na luta pela decisão da Elite. Contudo, a final foi um espectáculo que fez jus aos 7’s… o resultado de 22-21, a favor dos Susies, foi um show de ensaios, fugas e side-steps. A selecção comandada por António Aguilar ainda teve a vitória na ponta dos dedos, mas uma má gestão de bola retirou-lhes essa hipótese.

Os Susies levantaram o título de campeões da Elite do Algarve 7’s e ficou bem entregue!

Classificação final: 1º Susies; 2º Portugal 7’s; 3º Samurai; 4º New Zealand Metro; 5º Rússia 7’s; 6º Hong Kong 7’s; 7º Alemanha 7’s; 8º Navigators; 9º Catalunya; 10º Universidade de Edinburgh; 11º Worcester Warriors; 12º Durham University

O capitão e melhor jogador dos Susies, Apenisa Cakaubalavu ganhou o prémio de melhor jogador do Torneio de Elite. O Team-Manager dos Susies expressou o seu orgulho em ter participado no Algarve 7’s.

E assim foi o Algarve 7’s, competição que se realizou entre 2 e 3 de Junho em Vila Real de Santo António. Com algumas centenas de pessoas envolvidas na competição, a assistir aos jogos, a participar na festa e a garantir um lugar ao sol para a variante no rugby português.

A competição que foi apoiada pela CM de Vila Real de Santo António, GLS, Samurai, Hertz, Luso entre outras, foi um sucesso graças à organização da Sports Ventures, que teve pouco apoio das entidades nacionais desportivas, algo a ser revisto na 2ª edição da competição.

Num momento crítico do rugby português, o não apoio da entidade responsável pela gestão da modalidade em Portugal é um claro sinal negativo e que passa um exemplo completamente errado do que deve ser o investimento na promoção e marketing deste produto desportivo. Não se pode dar ao luxo de não existir interesse em apoiar um evento que traz cá equipas internacionais, que podem mudar o investimento no rugby português.

José Diogo Trigo de Moraes faz o balanço final de toda a competição como final da nossa cobertura do Algarve 7’s!

Podem consultar todas as fotos do torneio na página oficial do torneio: Algarve Sevens. Foto de Destaque: João Peleteiro Fotografia (fotógrafo oficial do Algarve 7’s)


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