A evolução táctica no Rugby Union – Voz de Bancada

Fair PlayJulho 12, 20198min0

A evolução táctica no Rugby Union – Voz de Bancada

Fair PlayJulho 12, 20198min0
Na estreia desta nova rubrica no Fair Play, Carlos Bobone vem discutir a evolução táctica no rugby nos últimos anos. O que há para saber? E que mudanças estratégias ocorreram?

Qualquer espectador de râguebi já terá reparado que, nos últimos anos, houve uma grande mudança nas estruturas de ataque. A típica formação em diagonal é já muito rara no râguebi de alto nível. A substituí-la, apareceu uma variação, de certa maneira importada da formação em duas linhas típica de Rugby League, que passa pela formação em pequenos grupos.

Célula-base: o losango

Embora haja uma grande variação neste grupos, o sistema base da nova organização costuma ser o losango, formado, em geral, por três avançados e um três quartos: no topo do losango, como primeiro receptor, está um avançado, ladeado por outros dois avançados, e atrás, no vértice recuado, está o três-quartos. Esta formação tem vários objectivos: por um lado, a presença dos três avançados bastante juntos obriga a concentrar a defesa.

Se, logo à saída do ruck, há três jogadores com grande poder de choque prontos para o contacto, a defesa não pode deixar espaços. O antídoto defensivo passa por compactar o mais possível junto ao ruck e deixar mais espaço no lado mais distante do ruck, onde a bola, a chegar, será mais lenta (terá de passar por mais mãos), havendo mais tempo para deslizar.

O três quartos no vértice recuado do losango tem, assim, um duplo papel. Por um lado, é um factor de imprevisibilidade. Não se pode defender um losango homem a homem, porque o jogador do vértice recuado, para mais um jogador rápido, pode aparecer dos dois lados do losango. Assim, uma defesa que quer ser absolutamente segura e que quer ter, pelo menos, igualdade numérica em cada espaço, é obrigada a comprometer mais um homem na defesa do losango. Um homem para cada um dos três avançados, mais um de cada lado para prever a entrada do três quartos.

Por outro lado, o três quartos no vértice inferior, estando mais distante da linha defensiva, é também um escape à pressão da defesa. Quando a bola sai do ruck, a defesa tem de avançar rapidamente para conter a entrada dos avançados; mas se a bola em vez de entrar nos avançados entrar no três quartos, ele, por estar mais longe da linha defensiva, pode correr em direcção à zona menos povoada.

No minuto 1:22 – Beauden Barrett tem a bola. Ao seu lado os três primeiros do losango. É a posição de Jordi Barrett mais atrás que lhe vai permitir explorar a zona menos compacta da defesa e criar condições para o 2 para 1 que se vê a seguir.

1-3-3-1: o sistema

À organização mais geral e mais comum da equipa em torno destes losangos convencionou chamar-se 1-3-3-1 (o padrão é dado em função da disposição dos avançados, da mesma maneira que se chama 2-4-2 à organização típica dos Crusaders).

Numa situação típica de jogo, supondo que a equipa recebeu a bola no chuto de abertura e que, depois de um ruck, se prepara para disputar o box kicking do seu formação. Junto a si tem um ponta, que irá disputar o duelo aéreo, e um asa, para recolher uma segunda bola ou para disputar o ruck, caso o ponta ganhe a bola. Supondo que a equipa consegue manter a posse de bola, estão criadas as condições perfeitas para se discernir o padrão 1-3-3-1.

Temos 1 (o asa) no ruck, de seguida dois losangos, encabeçados por avançados com bom poder de choque, e ao fundo, junto ao ponta do lado contrário, mais um avançado, que permite manter um certo poder de choque caso a bola seja rapidamente jogada até à ponta, e uma certa efectividade no ruck. Nos vértices inferiores dos dois losangos, abertura e primeiro centro, prontos a explorar os espaços.

A dinâmica: o caso da Irlanda

A estrutura básica do 1-3-3-1 é esta. No entanto, como em qualquer táctica, as dinâmicas a partir das posições dos jogadores podem ser muito diferentes. O 1-3-3-1 da Irlanda, por exemplo, é muito diferente do 1-3-3-1 do País de Gales ou da Escócia. A Irlanda usa o seu esquema com muita paciência e como uma forma de encontrar espaços a longo prazo. Numa sequência típica, vemos o primeiro losango pouco profundo e muito compacto. A bola sai directa do formação Murray para o avançado no topo do losango (James Ryan, por exemplo, um ball-carrier seguríssimo), que vai directamente ao contacto.

Não há offloads, não há passes inesperados, e quase nunca há um segundo passe. O objectivo é comprometer os defesas que estão junto ao ruck e garantir um ruck seguro e sem sobressaltos. Mais do que ganhar metros, o portador – que também não os perderá, porque está pouco profundo – preocupa-se em deixar a bola jogável no ruck e os vértices laterais do losango vão imediatamente para o ruck. Também por isto, é habitual que na Irlanda os vértices do losango sejam terceiras linhas (O’Mahonny e Stander ou Conan, por exemplo), que noutras equipas costumam ser os “1” do 1-3-3-1. Este ruck do primeiro losango, se for feito com eficiência, permite acelerar a bola e, ao mesmo tempo, compromete a zona mais compacta da defesa.

Na segunda fase, já há uma pequena variação. Sexton, o vértice mais recuado do primeiro losango, aparece então como primeiro receptor, fazendo o segundo losango deslizar, e é dele o passe para este segundo losango.

Esta pequena manobra é importante porque permite que a entrada do segundo ball-carrier já seja feita no fim da zona mais compacta da defesa. Mais uma vez, a grande preocupação do portador é entrar com a bola no ombro de dentro, o que impossibilita o offload mas reduz o risco de perda no contacto, e os vértices laterais vão rapidamente ao ruck. Sexton contorna mais uma vez o ruck e a Irlanda está finalmente pronta para ferir o adversário. Se o ruck for rápido, o adversário não tem tempo para criar uma nova zona de defesa apertada e a Irlanda pode finalmente abrir o jogo.

Numa situação típica, temos Sexton como primeiro receptor, os três quartos Aki, Ringrose e Earls ou Stockdale prontos para o jogo aberto, e Furlong, um improvável pilar como “1” final do 1-3-3-1. O papel de Furlong é importante porque dá uma característica especial ao famoso “Sexton-loop”.

O loop, ou a dobra, normal tem o objectivo de ganhar vantagem numérica. O jogador que passa e vai receber do outro lado do jogador a quem passou é a forma de “criar” mais um jogador na linha de três quartos; mas no caso irlandês há mais um ponto importante: o “Sexton-loop”, além de criar superioridade, é concebido para impedir a defesa de deslizar. É uma manobra típica do rugby moderno: quando tem de defender muito espaço ou está em inferioridade numérica, a defesa desliza.

O ataque, para impedir a defesa de deslizar, cria uma linha de corrida na diagonal contrária ao sentido da bola, seja a partir de um cruzamento, seja através de um passo curto para um jogador que se aproxima do portador da bola. Isto obriga a defesa a travar e a concentrar-se neste jogador que contraria o movimento do deslize. Assim, quando há espaço, a diagonal atacante tem sempre estes movimentos: jogadores que alargam, para explorar o espaço, e jogadores que encurtam, para impedir o deslize e manter o espaço aberto.

A maioria das equipas usa os jogadores que encurtam como engodos, que não recebem de facto a bola; a Irlanda, porém, tira partido da ameaça Furlong; Sexton entrega-lhe de facto a bola e, se a defesa não para de deslizar, a entrada do pilar é perigosíssima; se a defesa trava para conter Furlong, ele devolve a bola a Sexton na dobra e os três quartos têm caminho livre para avançarem vários metros, com a particularidade de ter centros fortes no ruck, que podem acompanhar a corrida do ponta sem grande risco de turnovers em zonas isoladas. Como a Irlanda tem um jogo sobretudo territorial e só começa a jogar à mão em territórios muito avançados, este tipo de estratégia é muitas vezes letal.

Este não é, porém, a única dinâmica que o 1-3-3-1 permite. O caso Escocês tem interesse por ser quase oposto do Irlandês. A sua análise, porém, ficará para outro texto.

Veja-se, a partir dos 8 minutos e até ao ensaio de Connor Murray: nunca mais de 1-2 passes antes do contacto e quão pouco profundos estão os avançados junto ao ruck, antes do contacto. Tentativa, sempre, de estabilizar o jogo, sem offloads, procurando comprometer a defesa até esta conceder espaço.

Como impedir a defesa de deslizar


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