Lelos vencem nos detalhes estáticos – O Breakdown do Europeu de sub-18 2018

Francisco IsaacMarço 28, 201811min0

Lelos vencem nos detalhes estáticos – O Breakdown do Europeu de sub-18 2018

Francisco IsaacMarço 28, 201811min0
Portugal placou mais mas não foi o suficiente para chegar à final do Campeonato da Europa de sub-18! A análise à exibição dos jovens Lobos no 2º jogo na Polónia

Portugal entrou melhor, mas não foi suficiente para levar de vencida a favorita Geórgia, caindo nas meias-finais do Europeu de sub-18 por 25-00. O resultado é aceitável, apesar dos Lelos não terem sido (muito) superiores no jogo jogado, tendo perdido várias bolas no breakdown ou no contacto.

A grande diferença esteve na excelência das fases estáticas, com os georgianos a conquistarem todas as suas formações ordenadas, conseguindo ainda roubar 5 ao conjunto português. Nos alinhamentos a diferença foi substancial, já que três dos ensaios da Geórgia foram a partir de maul ou usaram esse aspecto para ganhar os metros suficientes para atingirem a linha de ensaio.

Segue-se a luta pelo bronze com a Espanha, reservado para sábado às

A análise ao segundo jogo de Portugal no Campeonato da Europa de sub-18 na Polónia!

SCRUM TIME É FUNDAMENTAL PARA VICTORY TIME – 2 PONTOS

Portugal teve um dia muito complicado na formação ordenada e alinhamento, não há dúvidas disso. Mas o que se passou nos dois aspectos estáticos? Por partes para perceber o que esteve mal, o quanto isso influenciou no resultado final e o que tem de mudar para a luta pelo 3º/4º lugar.

Na luta pela FO, Portugal apresentou-se com pouca agressividade, “mole” e ficou sempre à espera que a Géorgia ditasse as regras do “jogo”. É verdade que os lelos tinham mais força e fisicamente estavam um ou dois degraus acima dos jovens Lobos, mas ao apresentar essa postura convidou-se ao adversário para fazer o que quis.

Por vezes a equipa de arbitragem leu mal os “ataques” dentro da FO, ficando mais preocupada ora com o recuo português indevido ou com a forma como os portugueses faziam o bind (três faltas nesse sentido, com o juiz de jogo a apontar para o facto de Portugal estar a esticar o braço invés de tê-lo na posição legal).

Este pormenor permitiu aos georgianos conquistarem faltas importantíssimas para escolherem outro departamento de jogo no qual Portugal pouco conseguiu fazer frente: o alinhamento. Nesta luta pelos ares, a Geórgia foi sempre dominadora, conseguindo conquistar as suas oportunidades e empurrar com força e estabilidade em direcção ao objectivo desejado.

15 dos 25 pontos vieram exactamente dessa plataforma, com os Lelos a “marcharem” e a saírem rapidamente para uma jogada de 2 para 1 ou para que algum jogador seu mergulhasse lá para dentro.

Portugal, pelo seu lado, teve duas oportunidades claras de marcar pontos a partir desta fase estática, mas falhou nesses dois momentos a introdução de bola, com a sinalética de bola torta. Como resolver este problema para além do óbvio” treinar mais”? Meter a oval no primeiro saltador logo à frente, de forma a reduzir a sua percentagem de erro. Para isto há que existir velocidade de salto e dos lifters, assim como do talonador.

Para o jogo com a Espanha os jovens Lobos vão decerto apresentar outra postura e lutar com mais raça na FO e com mais acutilância no alinhamento.

O maul foi uma arma georgiana (Foto: Szymon Gruchalski)

A GUERRA PODE TER SIDO PERDIDA, MAS A LUTA PELO BREAKDOWN FOI GANHA! – 7 PONTOS

Ora isto sim é uma imagem à Portugal: placagem mais dura e directa e uns autênticos cães de fila a atacar o breakdown para arrancar a bola dentro da legalidade do jogo. A Geórgia teve sérios problemas durante os primeiros 50 minutos, não conseguindo parar com os contínuos saques que os jogadores portugueses iam fazendo.

Martim Bello (passou de 2ª linha para o lugar de nº8, apresentando atributos diferentes dos que Francisco Condeço Silva), José Madeira, Tomás Cabral, Pedro Silva foram alguns dos jogadores que divertiram-se em auxiliar o seu colega placador para irem logo em direcção à oval, meterem as mãos nela e retirarem-na o mais rapidamente possível.

Os Lelos fizeram algumas faltas nesse aspecto, agarrando-se à bola no chão ou recorrendo à limpeza de ruck de forma ilegal. Pena que Portugal não aproveitou essas faltas da melhor forma (já falámos que perdemos pelo menos duas em alinhamentos) e só por uma vez saiu a jogar rápido pelo seu médio-de-formação que encontrou espaço para iniciar um ataque que não teve o resultado final desejado.

Mas houve outra reacção ao breakdown, houve outro espírito de combate e uma inteligência em ler como abordar o portador de bola georgiano que mostrou mais a bola do que devia.

A placagem a nível individual e colectivo foram bem melhores, apresentando outra postura e técnica, faltando alguma “malvadez” para conseguir meter os georgianos com menos à vontade para atacar a linha de defesa. Faltou, essencialmente, uma melhor comunicação entre jogadores de forma a chegarem mais rapidamente à fase seguinte de ataque, sendo que dois dos ensaios aconteceram à ponta e era necessário uma ajuda extra.

Mas no geral, contra uma selecção mais pesada, mais hábil e “poderosa”, Portugal esteve vários furos acima em comparação com o jogo contra a Rússia.

TENTAR MONTAR O ATAQUE AO PÉ: BOA OU MÁ SOLUÇÃO? – 4 PONTOS

Os atletas portugueses sabiam que a Geórgia ia apresentar os seus melhores argumentos em termos defensivos, com uma placagem sempre dominadora e que procura estancar logo as tentativas de ataque que possam dali existir. Como tentar contornar este problema? Tentar arrancar metros ao pé.

Por mais que uma ocasião, Portugal optou por pontapear a bola para trás das costas dos jogadores georgianos procurando um erro de colocação dos jogadores mais atrás ou uma recuperação rápida (que raramente aconteceu) por parte de algum dos seus jogadores, conseguindo assim desferir algum “pânico” na linha adversária.

Existiu um bom grubber de Tomás Cabral na primeira-parte que por muito pouco não deu uma ocasião soberana de ensaio (Raffaelle Storti e Francisco Thomaz ficaram a centímetros de apanhar a oval), assim como um pontapé inteligente de Gonçalo Barbosa que acabou por ficar mesmo à mão de semear de Storti.

Por vezes, usámos o pontapé em demasia não apostando na criatividade que os jovens lobos conseguem produzir… note-se uma fuga excelente de Barbosa, que depois Pedro Lucas também contribui com uns belos side steps, conquistando Portugal 40 metros à mão, algo raro neste jogo.

As linhas de ataque de Portugal pareciam no seu geral mais desorganizadas do que no jogo com a Rússia, com menos profundidade e mais “ao monte” do que se desejaria, não existindo o trabalho necessário para ler e perceber onde estavam as maiores fraquezas dos georgianos.

A Espanha será uma selecção mais ao nível de Portugal, mas não comete tantos erros como a Rússia, o que vai obrigar aos portugueses a uma maior paciência, trabalhar com outra eficácia e acreditar que conseguem quebrar a linha se apostarem num trabalho ideal no contacto (bater as pernas, mexer o torso, ter um apoio bem próximo, jogar rápido).

NOTA FINAL – 13 PONTOS

ASPECTOS POSITIVOS: breakdown esteve a um nível de qualidade elevada, com vários bolas recuperadas quer no chão ou contacto; placagem esteve presente, com a agressividade que se pede num torneio destas proporções; apoio satisfatório aos pontapés em jogo corrido, com boas segunda cortinas de jogadores a apoiar; primeiros 20 minutos com maior ascendente português, em que se conseguiu “amarrar” a Geórgia dentro dos seus últimos 30 metros;

ASPECTOS NEGATIVOS: oportunidades de ensaio desperdiçadas que poderiam ter alterado o rumo de jogo; comunicação na defesa e leitura defensiva tem de ser mais apurada; formação ordenada e alinhamento foram um constante problema para Portugal, com vários erros individuais;

PORTUGAL: 1 – Pedro Braga, 2- João Nobre, 3 – Max Falcão, 4 – António Andrade, 5 – José Madeira, 6 – Francisco Silva, 7 – Pedro Silva, 8 – Martim Bello, 9 – Joaquim Félix, 10 – Gonçalo Barbosa, 11 – Manuel Vacas, 12 – Tomás Cabral, 13 – Raffaele Storti, 14 – Francisco Thomaz, 15 – Francisco Nobre.Suplentes: 16 – Sebastião Castanheira, 17 – João Fernandes, 18 – Tiago Quitério, 19 – Alexandre Fonseca, 20 – João Sousa, 21 – José Ulrich, 22 – Pedro Lucas, 23 – Domingos Cabral, 24 – Simão Bento, 25 – António Cunha, 26 – Francisco Salgado.

EQUIPA TÉCNICA: Rui Carvoeira (seleccionador), Francisco Branco (co-seleccionador), Paulo Vital (fisioterapeuta), Pedro Rodrigues (Team Manager) e José Paixão (Video-analista)

Como sempre o Fair Play lançou algumas perguntas aos capitães, Pedro Lucas e Martim Bello, assim como à dupla de seleccionadores Nacionais, Rui Carvoeira e Francisco Branco.

PEDRO LUCAS E MARTIM BELLO

Jogo muito complicado com um relvado em más condições, uma Geórgia fisicamente forte e autoritária e um tempo molhado: isto contribuiu para termos algum azar no jogo corrido? O que é que faltou-nos fazer neste jogo?

PL. Sim, o tempo molhado não favoreceu o nosso jogo ao largo. Faltou pontuar. Tivemos as nossas hipóteses e não as soubemos aproveitar.

A formação ordenada e alinhamento não estiveram tão bem, mas fomos mais fortes no breakdown hoje. Como é que explicam que tenham conseguido roubar 8 bolas no chão durante o jogo e 4 faltas a vosso favor? E vamos voltar a ver isto contra a Espanha?

MB.

FRANCISCO BRANCO (CO-SELECCIONADOR NACIONAL)

A Geórgia apresentou-se muito compacta e dura nas fases estáticas. Poderíamos ter feito mais neste aspecto? Ou a nossa ideia de jogo passava por ganhar espaço no jogo corrido e na luta nos 3/4’s?

FB. Sim. Mesmo sendo a Geórgia uma potencia mundial nestas áreas, tínhamos a ambição de ter feito mais e, sem dúvida alguma, que esse é um dos pontos mais negativos deste jogo.

No rugby, é impossível ganharmos metros e atacarmos os espaços nas linhas atrasadas, se não assegurarmos bolas com alguma qualidade nos set pieces.
Para isso, não podemos falhar nos pormenores, como falhámos hoje sob pena de não conseguimos ter sucesso.

Este foi, talvez, o jogo mais exigente que estes jogadores fizeram na sua vida desportiva. Temos de nos habituar a jogar com estes níveis de pressão, pois é isso que nos exige o rugby internacional.

Fomos mais duros e intensos no breakdown, conseguindo 7 turnovers e 3 penalidades contra uma equipa forte fisicamente como a Geórgia… há explicação para este crescimento entre o jogo de Domingo e o de hoje? E a placagem já esteve mais aceitável no vosso ver?

FB. No jogo da Rússia a defesa foi um dos pontos que identificámos como abaixo do que consideramos aceitável para uma equipa portuguesa. Por isso foi um dos aspectos que mais trabalhámos durante o dia de ontem. Sabíamos que, sem uma defesa “à lobo” seria impossível jogar contra a Geórgia.

Também acho que hoje fomos muito mais consistentes no processo defensivo. Não só na placagem, que esteve muito melhor mas também, como dizes, no breakdown que se deve a uma melhor organização. Mas, contra a Espanha, vamos precisar de continuar a melhorar e não podemos baixar a guarda.

Qual esperam que seja a reacção de Portugal no sábado? A Espanha que vamos jogar é a mesma que a de Évora, ou está diferente?

FB. Sábado é mais um jogo no processo de desenvolvimento destes jogadores. E, um Portugal vs Espanha é sempre uma grande oportunidade que queremos aproveitar.

Esta equipa de Espanha – que hoje fez um excelente jogo contra a França – tem poucas diferenças relativamente à equipa que jogou contra nós em Evora, mas é uma excelente equipa.

No entanto, acho que os dois jogos, serão completamente diferentes. Teremos de conseguir continuar a evoluir o nosso jogo ao mesmo tempo que conseguimos recuperar de um jogo que, fisicamente, foi muito duro.

A luta pela bola Foto: Szymon Gruchalski

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