Escalões ímpar em Portugal – mudança na continuidade?

Fair PlayMaio 23, 20205min0

Escalões ímpar em Portugal – mudança na continuidade?

Fair PlayMaio 23, 20205min0
Par ou impar, eis a questão? Qual será o melhor modelo para o rugby português em termos de conjugar faixas etárias? A proposta de Luís Supico em relação a este tema delicado

O último ano de Formação do jogador antes de entrar nos Séniores é, provavelmente, o mais difícil de se fazer para qualquer jogador, esteja ele bem preparado ou não. Com 17/18 anos, prestes a tirar a carta, a ter de estudar para entrar na Universidade, namoradas, viagens (de lazer ou para estudar fora), trabalhar uns tempos, não fazer nada, um mundo novo que se abre nesse último escalão… E quem sofre, por norma, é o Rugby. Não no escalão dos Sub18 em si que, afinal de contas é o ano “ Sénior” de aprendizagem – quem sofre é a equipa Sénior porque, volta meia-volta, nunca mais aparecem.

Não me lembro de outra maneira: desde que sou treinador, os escalões são pares. Tirando uma ou outra época de raras excepções temos, em Portugal, escalões pares até aos Sub18, subindo de seguida para os Séniores, seja para a equipa Challenge (uma espécie de equipa de reservas) ou a própria da equipa A.

Como já devem ter percebido, sou a favor de escalões ímpares.

Ora, se fossemos mudar os escalões para números impar, o que é que isso ajudava?

Começando pelo fim, o último ano dos Sub19 (o actual escalão de Sub18) já seria com a carta tirada, já na Universidade (esperamos nós!), já mais preparado para, depois, fazer a passagem para os Séniores sem grandes diferenças de horários, estudos, hábitos, porque esses seriam ganhos ainda nos Sub19 – além de que seria mais um ano de evolução física, técnica e mental para os jogadores, o que é a segunda razão para ser a favor de escalões ímpares.

Usando dados do (por estas alturas, muito badalado) World Health Organization e outros estudos comprovativos do mesmo, criei uma tabela com a altura e peso médios por ano, dos 5 aos 19 anos:

Fazendo uma avaliação por alto, podemos tirar algumas conclusões interessantes quando comparando os escalões par com os ímpar. Dando um exemplo muito concreto: Os sub6 e Sub8 têm uma diferença de 6 cm e 2 kg dos jogadores de 1º ano (5 e 7 anos) para os de 2º ano (6 e 8) – isto é, a diferença entre os mais novos e os mais velhos dentro do próprio escalão é igual em ambos. Fosse impar (neste caso, Sub7 e Sub9), a diferença é, também ela, igual em ambos os escalões mas de 5 cm e 3 kg… Ou seja, em escalões par são mais altos e menos pesados, em escalões ímpar mais baixos e mais pesados. Sim, um centímetro e um kilo de variação, mas ela existe. E o que é engraçado é que, até aos Sub14/Sub15 as diferenças existem mas são pequenas (1 cm e 1 kg para cima ou abaixo), sendo que só nos últimos dois escalões a coisa muda com alguma importância – escalões esses onde, por norma, se começa a desistir.

Usando um exemplo de um escalão par com, por baixo, o equivalente em impar, temos que:

Sub12
6 cm – 4 kilos de diferença entre jogadores de 1º e 2º ano do mesmo escalão

Sub13
7 cm – 5 kg

Sub14
7 cm – 6 kg

Sub15
6 cm – 6 kg

Sub16
4 cm – 4 kg
Sub17
2 cm – 3 kg

Sub18
1 cm – 4 kg

Sub19
0,5 cm – 1 kg

Vendo estes números a conclusão é, ainda mais, a favor dos escalões ímpar. Porquê? Porque se até aos escalões Sub14/15 a diferença existe mas é mínima, nos Sub16/17 e Sub18/19 entram outras variáveis: seja elas físicas (início de ginásio nos Sub16 também ajuda a aumentar essa diferença), autoconsciência no pico (idade do armário, adolescência, consequências destas fases), ambas exacerbadas nos escalões par. E sejamos honestos: sejam de 1º ou 2º ano, por norma quem joga é quem mais tem capacidades e para isso trabalha – sendo a diferença física menor nos escalões ímpares que nos pares, as hipóteses de jogarem mais jogadores de 1º ano é maior, aumentando assim a concorrência interna.

Vem isto à baila pela condição em que vivemos e, principalmente, a época em curso que ficou suspensa, uma época “perdida” para muitos jogadores e treinadores. É, a meu ver, a altura certa para passarmos de escalões par para escalões ímpar – uma espécie de “redenção”, uma segunda oportunidade para quem ficou a meio de objectivos; não só se mantém o crescimento físico e psicológico das equipas e jogadores (afinal de contas, as equipas até serão as mesmas se passarmos de par para impar…) como é uma maneira de minimizar desistências de jogadores, que serão em números importantes nos escalões mais altos, bem como melhorar e diminuir diferenças para gerações que hão-de vir.

Porque, afinal, escalões ímpar para a época que vem é mudança na continuidade, o presente do futuro aqui tão perto.


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