Por dois pontos se ganha, por dois pontos se perde – Rugby Championship 2018

Francisco IsaacOutubro 7, 20189min0

Por dois pontos se ganha, por dois pontos se perde – Rugby Championship 2018

Francisco IsaacOutubro 7, 20189min0
Os All Blacks devolveram o resultado do jogo em Wellington e ganharam nos segundos finais do encontro. O fim do Rugby Championship 2018 no Fair Play

10 MINUTOS À ALL BLACKS SALVAM A HONRA NA ÁFRICA DO SUL

Injustos foram os “Deuses do Rugby” com a África do Sul, ao possibilitarem que os All Blacks conseguissem dar a volta ao resultado nos últimos dez minutos, quando estes perdiam por 12 pontos. Mas como é que os ‘boks perderam o controlo do jogo ao ponto de abrirem a porta da sua área de validação? Existem alguns elementos que ajudam a explicar o descarrilamento final a começar pela saída de Faf de Klerk.

O formação não fez um jogo genial, mas realizou uma exibição de qualidade com vários pontapés para trás das costas da defesa neozelandesa, o que forçou-os a recuar consecutivamente. Para além disso, deu forma aos rucks, forçando os seus colegas a trabalharem o dobro, sem virarem as costas ao espírito de sacrifício, pautando bem as saídas das formações-ordenadas (excelente numa placagem que tirou a oval das mãos de Aaron Smith na primeira parte) e sempre com aquele espírito eléctrico.

Com o passar do tempo, Faf de Klerk foi perdendo vigor e pulmão, o que expôs alguns problemas dos Springboks no que toca ao desenvolvimento ofensivo e no gameplay, com a equipa da casa a realizar um jogo pouco “bonito” com a bola nas mãos. Só houve um vislumbre de algumas acções extraordinárias a partir de recuperações de pontapés, com destaque para Willie Le Roux, Jesse Kriel ou Damian de Allende.

Este foi outro problema dos Springboks, conseguirem dar outra dimensão ao domínio que tiveram no final dos 80 minutos. Vejam-se os números oficiais recolhidos pela OPTA:

384 metros contra 214
155 corridas contra 68
60% de posse de bola e 61% de território para a África do Sul
25 defesas batidos contra 14
7 quebras de linha contra 4
80% de placagens eficazes contra 79%

Os neozelandeses não precisaram de metade das oportunidades dos Springboks para marcarem o mesmo número (aliás superior, pois terminou 3-4 no final do encontro) de ensaios, mas ficam só por aí. Curioso foram o número de defesas batidos e quebras-de-linha, com Allende a tirar cinco adversários do caminho, atacando bem a linha de vantagem, superando-a.

Mais metros, mais placagens efectivas, mais posse de bola e mais território no final não deram a vitória (justa) à formação liderada por Rassie Erasmus, que falhou na defesa dos últimos metros e na postura defensiva. Só nos últimos 15 minutos, a África do Sul consentiu cinco penalidades, três das quais acabariam por ser mortíferas, uma vez que levaram os neozelandeses para alinhamentos nos últimos metros e, por fim, ensaios.

Faltou que Handré Pollard tivesse jogado mais ou pelo menos decidido melhor, registando-se vários passes mal medidos ou direccionados que facilitaram e muito a defesa ao largo da Nova Zelândia. Kolbe e Dyantiy andaram praticamente desaparecidos (excesso de pontapés de Faf de Klerk retirou-lhes a possibilidade de aproveitarem o seu virtuosismo e velocidade) e a avançada sul-africana não dominou nem nos mauls ou na formação-ordenada.

Malcolm Marx voltou a ser exímio no breakdown, mas pecou novamente na introdução de bola no alinhamento e em aparecer no jogo ao largo apoiado como tem acostumado o público nos últimos anos. Do outro lado, os All Blacks fizeram uma primeira parte cinzenta, abaixo das expectativas mas que mesmo assim possibilitou-os de chegar ao intervalo empatados a seis pontos, fruto de duas penalidades convertidas por Beauden Barrett (2º em que termina com 100% de eficácia, tal como Mo’unga quando entrou).

Depois nos primeiros 15 minutos da primeira-parte tremeram muito, num jogo em que Aaron Smith esteve francamente mal, sem conseguir pautar, dirigir ou ajudar os seus colegas das linhas atrasadas. Foi notória a falta de forma do nº9 neozelandês, não dando bolas boas tanto a Beauden Barrett, Ben Smith ou Sonny Bill Williams suficientemente boas para dar sequência ao ataque como precisavam.

Contudo, a entrada de TJ Perenara deu uma segunda vida aos kiwis, que passaram a ter rotinas mais dinâmicas e velozes, que desbloquearam a chegada à área de validação sul-africana. Richie Mo’unga e Beauden Barrett operaram bem em conjunto, mas não há dúvida que Perenara trouxe outra qualidade de passe e agilidade que até então não se tinham vislumbrado.

Os dois últimos ensaios foram similares… alinhamento, pique atrás de pique, passe curto atrás de passe curto até desbravar o caminho suficiente para chegar à área de ensaio, sem entrar em pânicos e riscos excessivos… acreditaram nos processos e fizeram os pontos suficientes para dar a volta. Se há umas semanas o Mundo bradou aos “céus” a vitória categórica da África do Sul, apesar de terem sido completamente dominados em todos os aspectos, não deverá o mesmo “Mundo” fazer vénia aos All Blacks?

REMONTADA AUSTRALIANA AO SOM DA JUSTIÇA DE BERNARD FOLEY

Inacreditável é o mínimo que se pode dizer de como a Argentina larga uma vantagem de 24 pontos para perder por uma diferença de 11 no final dos 80 minutos! Mais incrível é quando os Pumas chegaram com essa vantagem de 31-07 ao intervalo, para depois perderem o controlo total do jogo ante os Wallabies.

Foi num sentido de vingança, pelas “maldades” que os atletas da celeste fizeram em Queensland, que os Wallabies realizaram uma das melhores exibições dos últimos três anos, guardando esse show só para os segundos 40 minutos do encontro em Buenos Aires.

Mas como foi possível este jogo de extremos? A Argentina entrou francamente melhor, dominando a maioria dos processos que ia desde de boas formações-ordenadas (perderam algumas mas também conquistaram penalidades importantes neste sector), mauls altamente dinâmicos (Creevy foi um “leão” a guiar a sua equipa, delineando a estratégia correcta no avanço sistemático), jogo ao largo sempre bem executado com sucessivas quebras-de-linha (atingiram o seu máximo na competição este ano, com 15) e rucks bem explorados.

Para além disso, a Argentina conseguiu virar uma série de rucks a seu favor, mostrando-se incrivelmente ágeis e inteligentes no breakdown com destaque para Agustín Creevy e Marcus Kremer. Ambos foram sérios “cães” de ataque aos rucks australianos, incomodando a acção de Will Genia ao ponto que o formação não tinha espaço de manobra para meter a oval a rodar nas movimentações aplicadas pelas linhas atrasadas.

Uma recuperação rápida de bola permitiu quase sempre um contra-ataque móvel, ágil e repentino que deflagrava sérios problemas para uma defesa australiana atónita e pouco lúcida na hora de apagar “fogos” no jogo ao largo. A linha de vantagem foi várias vezes penetrada, tanto pela batuta de Emiliano Boffelli, Matías Orlando ou Nicolás Sanchez, dando garantias de sucesso de pontos à equipa da casa.

Foi excepcional a forma como a Argentina avançou de forma célere no terreno, com uma movimentação da oval alegre, bem feita, em que tanto passava de um offload bem venenoso, para um ruck rápido que concedia o espaço necessário para depois Betranou lançar rapidamente nova vaga de ataque. Infelizmente, a Argentina viu na saída de Sanchez um problema que se sentiu mais a médio-prazo do que no imediato. Iglesias entrou bem pelo 10, mexeu bem no ataque, contudo esfumou-se na segunda metade do encontro e já explicamos o porquê.

Por isso, a Argentina ganhou metros, fez quatro ensaios e atingiu os 31 pontos muito devido a um ataque sequencial e bem esboçado, a uma defesa aguerrida e de aposta na recuperação de bola no breakdown (7 turnovers) e na subida de pressão imediata aos pontapés, impedindo Koroibete ou Folau de ter a paz devida para agarrarem a oval em pleno voo.

Ponto final na primeira parte, baixou a cortina e… o show australiano começou. A Argentina pareceu dar-se por contente com o resultado e não impôs tanto fôlego e vivacidade como o tinha feito na primeira-parte, permitindo a Austrália crescer e começar a montar o tipo de jogo que tanto gosta de aplicar: dinamismo no centro do terreno, aposta na irreverência das suas principais quatro unidades, facilidade de movimentos e raça no contra-ruck.

David Pocock foi imenso, esteve em todos os ensaios dos Wallabies, com destaque para um dos melhores do fim-de-semana quando Bernard Foley atira um pontapé cruzado, Haylett-Petty salta, dá uma “tampinha” para o 8 e este faz um offload genial para o 15 de novo… ensaio.

A partir do momento em que a Austrália encontrou o caminho para a área de validação primeiro por Izack Rodda (jogo monumental do 2ª linha), depois por Folau, seguindo-se de Petty por duas vezes e Pocock por uma, o jogo desequilibrou-se de uma forma totalmente a favor dos visitantes. Sem Creevy e Sanchez em campo e com uma abrupta queda de forma de Kremer, os Pumas começaram a abrir espaços na defesa e não voltaram a ter o foco necessário para dar a volta ao jogo.

Para além disso, o médio-de-abertura Iglesias foi caçado constantemente por Hooper ou Pocock, silenciando-se assim a criatividade a partir do par de médios… sem um dez funcional e com Moroni muito longe do que sabe e pode fazer, foi impossível a Argentina recuperar da desvantagem e fechar o Rugby Championship da melhor forma.

A Austrália recuperou algum fôlego e acaba melhor, sem ter sido uma competição de qualidade para os comandados de Michael Cheika.

EQUIPA DA SEMANA: Ramiro Herrera, Malcolm Marx, Sekope Kepu, Scott Barrett, Adam Coleman, Shannon Frizell, Siya Kolisi, David Pocock, Faf de Klerk, Bernard Foley, Rieko Ioane, Sonny Bill Williams, Jesse Kriel, Israel Folau, Dane Haylett-Petty

JOGADOR DA SEMANA: David Pocock (Austrália)

PONTUADOR MÁXIMO: Bernardo Foley (Austrália) e Handré Pollard (África do Sul) com 15 pontos cada

MELHOR ENSAIO: Dane Haylett-Petty (Austrália) – o 2º ensaio do defesa


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