(Des)centralização e o caso do rugby português – Coluna Luís Supico

Fair PlayMarço 5, 20206min1

(Des)centralização e o caso do rugby português – Coluna Luís Supico

Fair PlayMarço 5, 20206min1
Luís Supico fala das vantagens e desvantagens da descentralização do rugby português, observando as selecções regionais em específico. Qual é o caminho a tomar para o rugby nacional?

Não acredito na regionalização, tentada no fim do século passado – ideia interessante e, se bem desenvolvida, um ponto fulcral do desenvolvimento de Portugal e do seu interior (se já necessário na altura, imprescindível hoje em dia) mas, convenhamos, apenas mais uma maneira de dar emprego e poder de influência aos mesmos de sempre. Razão porque o referendo teve pouco interesse para os Portugueses e, os que chegaram a votar, votaram fortemente contra.

Não acredito na descentralização, tentada desde o princípio do século presente e a entrar em vigor em 2021 de forma mais acentuada – uma forma dissimulada de regionalização que, não o sendo, é: controlo, por parte do estado central, com acréscimos financeiros (e muitas vezes sem poder local nenhum) para as localidades. Dito de outra maneira, uma maneira de dar emprego e poder de influência aos mesmos de sempre.

Sou completamente a favor da descentralização da FPR, diminuindo esta o seu poder local e passando-o para as Associações correspondentes.

Ambíguo? Contraditório? Nem pouco mais ou menos.

Convenhamos: o problema das ideias não são, muitas vezes, as ideias em si mas a sua efectiva aplicação. Regionalização e descentralização são excelentes ideias e, bem aplicadas, podem transformar o país pela positiva. O problema é o resto…

Vem isto a propósito das selecções regionais.

Foi ponto de honra desta direcção, aquando a votos, reactivar as selecções regionais. Não só uma boa ideia como, quando ganharam as eleições, a puseram prontamente em funcionamento, entrando no calendário dos clubes em Setembro e com datas marcadas para os meses de jogos internacionais (que estamos a ter agora) – maneira inteligente de dar ritmo de jogo aos jogadores não convocados para a selecção principal, dando ao mesmo tempo uma montra para estes se mostrarem, já que a selecção regional junta jogadores das equipas das três divisões nacionais.

Para quem não sabe, os calendários de jogos das equipas séniores nacionais são feitos a partir da selecção nacional. Há uma janela de jogos (normalmente cerca de dois meses, Fevereiro e Março) em que a selecção nacional joga com as cinco restantes selecções da divisão em que se encontra. Ou seja, apenas alguns jogadores estão convocados para jogar, parando entretanto o campeonato (e, consequentemente, todos os jogadores que não estão convocados). Isto apresenta vários problemas, com um maior à cabeça: como manter um plantel motivado e em forma, não havendo jogos oficiais durante dois meses? Num desporto tão amador como o nosso, duas semanas sem jogos já é difícil manter os jogadores interessados em aparecer nos treinos, quanto mais dois meses. Por isso a ideia é bem pensada. Mas começou logo mal.

Estando marcado no calendário desde o princípio da época, era conhecido de todos que “alguma coisa” iria acontecer nessa altura. Apesar dos esforços de muitas pessoas de vários clubes para se ter informação a tempo, o tempo foi passando sem ninguém saber nada: quem ia, quando, onde, treinados por quem, etc.. Em cima do acontecimento, lá se conseguiu montar tudo – mas começou com problemas, obviamente. Vários jogadores convocados que acabaram por não aparecer (recusa própria, coisas entretanto combinadas, etc.), jogos remarcados, menos treinos que o expectável… Seja porque foi tudo feito à última ou porque foi escolhido na altura da paragem (automaticamente os jogadores/família planeiam coisas nas folgas), os treinos tiveram menos presenças que o esperado.

Sou da opinião que a FPR deveria ter maior preocupação com apenas 2 vertentes: Selecções Nacionais e Campeonatos Nacionais. Tudo o resto deveria ser passado para as regiões (sempre com o acompanhamento e consentimento da FPR, naturalmente): isto é (e por exemplo), campeonato nacional de sub16 (Top 12, neste caso)? FPR. Selecção Nacional de sub20? FPR. Convívios de apoio à selecção? FPR. Selecção Regional? Qualificações para Campeonatos Nacionais? Acompanhamento às escolas? Convívios locais? Associações Regionais. Verdade – maioritariamente é assim que acontece, mas aprofundando um pouco, dou dois exemplos específicos:

O Campeonato Nacional de Sub16/18 tem, actualmente, uma fase regional. Quem se qualifica passa para o Top12; quem não se qualifica, continua até ao fim da época nas fases regionais (para descobrir quem é o campeão da Série B). Neste momento, a FPR trata de tudo, mas nas fases regionais deveriam ser as AR’s, seja na fase de qualificação como na fase para campeão da Série B;

Nas selecções regionais, deveriam ser os técnicos das AR’s a planear os treinos (com os clubes locais), com as datas e as convocatórias de forma autónoma havendo, quem sabe até, acompanhamento contínuo (isto é, treinos a época inteira, ao nível do que acontece nos sub18/20) havendo depois os jogos inter-regionais planeados pela AR que os recebe, bem como uma jornada de final de ano (organizado pela FPR, em Lisboa). Ao se manter um planeamento anual, é mais fácil combinar treinos periódicos com os jogadores convocados, mesmo que seja na época normal de jogos de clubes.

O que se faz então na altura dos jogos da selecção nacional? Poder-se-ia voltar a pensar nos jogos fortes vs fracos que se tentou há uns anos atrás (os melhores classificados do ano anterior jogam com os mais fracos, nunca entre si) ou implementar a ideia de grupos da taça de Portugal dos últimos anos de sub16/18 (quatro grupos de quatro equipas onde todos passavam, com meias-finais e finais para quatro taças, perfazendo quatro ou cinco jogos por equipa, consoante passagem ou não às finais). Ou até jogos das selecções, obviamente. Mas é possível continuar a jogar nos clubes nas paragens da selecção nacional, como é possível treinar na selecção regional durante jornadas de clubes: com a descentralização da FPR e a passagem de poderes para as AR’s, a Federação poder-se-ia preocupar (e preparar melhor) para os palcos internacionais e as Associações Regionais poderiam começar a ter mais influência e apoio aos clubes locais.

A optimização e recentralização de objectivos tornam melhores os recursos humanos disponíveis (e até, um aumento destes a nível local), que finalizam em melhores resultados locais e nacionais – logo, melhores resultados internacionais.

Trabalhemos todos para isso acontecer.

As Sel. Regionais do Sul e Norte (Foto: José António Fernandes Fotografia)

One comment

  • Pedro

    Março 11, 2020 at 7:45 am

    A última foto é ARS x ARN e não a do centro

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