23 Mai, 2018

Ombros de gigantes e as Histórias de Fundação do Rugby – Coluna Hélio Pires

Fair PlayOutubro 19, 20177min0

Ombros de gigantes e as Histórias de Fundação do Rugby – Coluna Hélio Pires

Fair PlayOutubro 19, 20177min0
O Rugby tem muitas histórias do seu começo... neste artigo fica a conhecer Webb Ellis à Primeira Guerra Mundial, descobre as raízes da modalidade

 

Reza a lenda que, em 1823, numa escola na povoação inglesa de Rugby, um rapaz chamado William Webb Ellis decidiu ignorar as regras de um jogo de “futebol” e correr com a bola nas mãos, dando forma à modalidade que tomou o nome da localidade. É uma lenda e pouco mais, ao que parece uma história apócrifa nascida décadas depois com base no ouvi-dizer de um ex-aluno da referida escola.

Apesar disso, Webb Ellis mantém-se como a figura fundadora do râguebi, honrado com uma placa comemorativa in loco, um museu, o nome da taça do mundo e um lugar entre os famosos consignados ao panteão da modalidade pela World Rugby.

Houve, porém, quem também contribuísse para o râguebi e de forma histórica, mas cujos nomes são menos celebrados. Não constam do salão da fama oficial, embora sejam, à sua maneira, gigantes aos ombros dos quais estão os que hoje jogam ou vibram com a modalidade.

Como é óbvio, não estou a falar de gigantes físicos, pelo menos não necessariamente, nem de um carregar aos ombros literal, mesmo que traga à memória o embate entre George North e Israel Folau.

Uso a expressão com um sentido semelhante ao que lhe foi atribuído no século XII: o que temos hoje é fruto do contributo de quem veio antes de nós. E no caso das origens, ele é fundacional, inovador, ousado.

A rebelde

O exemplo de Emily Valentine é singular. Tal como Webb Ellis, foi alguém cuja paixão pelo desporto levou-a a quebrar as regras numa escola britânica do século XIX, ainda por cima uma por onde passaram Oscar Wilde e Samuel Beckett. Mas ao contrário do feito rebelde de Webb Ellis, a história de Emily Valentine é verídica e ela foi uma das primeiras mulheres a jogar râguebi, estava-se em 1887.

Não foi coisa pequena naqueles dias. Seis anos antes, em Glasgow, um jogo de equipas femininas acabou numa invasão de campo e expulsão violenta das jogadoras, que foram obrigadas a fugir.

É certo que houve partidas mais bem-sucedidas, mas muitas foram mal acolhidas. Numa altura em que as mulheres não tinham o direito a votar e o pudor obrigava a regular até a indumentária dos homens, o desporto feminino tinha poucas hipóteses de sucesso.

Foi nesse contexto que Emily Valentine deu um passo em frente. Teve a sorte, é certo, de ser irmã dos rapazes que fundaram a equipa de râguebi da escola, que ao que parece não se opunham à companhia dela.

Tanto que, quando se viram com um jogador a menos durante uma partida, pediram a Emily para entrar em campo. E ela, que até estava equipada para a ocasião, fê-lo de bom grado e consta que marcou um ensaio.

Infelizmente, o exemplo não prosperou. Só na década de 1960 é que o râguebi feminino ganhou raízes e vinte anos depois surgiram federações nacionais. Mas é precisamente por ter sido tão difícil e estar ainda tanto por fazer que há que valorizar a memória de quem, ousando, lançou um pedra contra o telhado de vidro.

O engenhoso

Diz um provérbio inglês que a necessidade é mãe da invenção. E a prová-lo está a história de um talhante escocês chamado Edward Haig, que jogou no clube de râguebi de Melrose, o qual, à semelhança de tantas associações desportivas portuguesas actuais, sofria de falta de fundos.

Foi por esse motivo que, em 1883, ele quis organizar um torneio para angariar dinheiro para o clube, mas a falta de recursos não condiz com um evento prolongado. Vai daí, por força da necessidade, cortou-se nas regras e tempo de jogo e criou-se, ad hoc, uma versão compactada do râguebi com jogos de apenas 15 minutos e sete jogadores por equipa. Nascia o seven-a-side.

A popularidade do formato não terá tardado, mas só no período entre guerras mundiais é que o râguebi de sete saltou as fronteiras escocesas e expandiu-se em Inglaterra, principalmente nas zonas urbanas, onde começou a fazer caminho até ao fenómeno global que é hoje. Foi da Escócia rural de 1883 até aos Jogos Olímpicos de 2016 – nada mau para uma adaptação de um talhante.

O senhor das bexigas

Se Emily Valentine e Edward Haig tiveram experiência de jogo, o mesmo não será verdade para Richard Lindon, apesar de ter vivido na localidade de Rugby, mesmo em frente à escola onde o râguebi terá nascido. Trabalhava em curtumes e dedicava-se ao fabrico e venda de calçado antes de se dedicar à criação de outra coisa.

Viver no berço de uma modalidade tem disto: uma pessoa está muito bem a fazer o seu trabalho, um dia aparece alguém a querer uma bola e, quando se dá por isso, os pedidos por esferas rolantes não param de crescer.

Assim terá sido em 1849, quando Richard e a mulher passaram a fazer mais bolas do que calçado para responder à procura dos rapazes da escola de Rugby.

Note-se que, à época, as bolas eram feitas de bexigas de porco. Mesmo! E elas não são exactamente esféricas, mesmo quando cheias de ar, além de serem perigosas: afinal, tudo o que é orgânico acarreta o risco de infecções e encher à boca uma bexiga atrás da outra, dia após dia… é fazer as contas. Terá sido isso o que matou a mulher de Richard Lindon, pelo que ele procurou uma alternativa mais segura. E encontrou-a na borracha produzida a partir da seiva de uma árvore asiática.

Assim nasciam as bolas modernas. No material, na necessidade de uma bomba de ar para as encher – outra invenção de Richard Lindon – e na forma, que era uma exigência dos rapazes da escola, por óbvia facilidade em manusear algo mais parecido com um ovo do que uma esfera.

Um detalhe: nem o senhor nem o seu filho patentearem as suas invenções, que continuaram a produzir durante décadas. Perdeu-se um milionário.

Uma das tais “bexigas” (Foto: Getty Images)

Os dos campos de papoilas

Num curto artigo sobre figuras fundacionais do râguebi, há ainda um grupo de homens que merece menção, em parte pela data, já que estamos quase no 99º aniversário do final da Primeira Guerra Mundial, a 11 de Novembro de 1918. E foram muitos os jogadores que se juntaram aos exércitos dos seus países e participaram no suicídio colectivo da Europa.

O termo não é um exagero, pois o conflito começou no continente europeu, por acção de países europeus, e foi o princípio do fim da hegemonia europeia. Custou a vida a dez milhões de soldados, fora as incontáveis vítimas civis e feridos, físicos e psicológicos, e entre eles estavam homens como Ronald ­Palmer, capitão da selecção inglesa, morto em 1915. Ou Jasper Brett, asa irlandês que lutou em Gallipoli e suicidou-se devido ao trauma. Ou David Gallaher, primeiro capitão dos All Blacks, morto na Bélgica em 1917. Três casos de entre centenas de jogadores que perderam a vida.

O custo fez-se sentir no final do conflito, com federações inactivas ou extintas e torneios que só retomaram anos depois. Mas é por isso, de certa forma, que também estamos aos ombros deles, porque jogar ou apoiar é dar vida e continuidade a uma modalidade que eles ajudaram a construir. Apesar da guerra, apesar das mortes, o râguebi não se perdeu.

Dave Gallaher (Foto: Getty Images)


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