Chile no Mundial: uma ascensão que não foi por acaso do destino pt.1

Victor RamalhoAgosto 1, 20226min0

Chile no Mundial: uma ascensão que não foi por acaso do destino pt.1

Victor RamalhoAgosto 1, 20226min0
Victor Ramalho olha para o desenvolvimento do rugby nas nações Tier 2, e foca a atenção não só no Chile mas o que tem de mudar no futuro

Muito (ou pouco) se falou na imprensa internacional sobre a classificação do Chile ao Mundial de 2023. “Muito” porque, sim, o fato foi noticiado. Mas “pouco” porque, como é praxe quando o assunto são nações do Tier 2, pouco se sabia sobre o rugby chileno e a reação imediata à vitória dos Cóndores sobre os Eagles estadunidense foi a incredulidade.

Vamos passar a limpo o mês que acabou?

Julho provou que o Mundial deveria ter 24 equipas

Pela primeira vez desde 2003 teremos mais de uma seleção diferente no Mundial com relação à edição anterior. Surpreso? Vamos aos fatos: em 1999 tivemos o primeiro Mundial com 20 equipas. Em 2003, apenas uma seleção que esteve em 1999 não retornou. Foi a Espanha, que deu lugar à Geórgia, debutante em 2003. Em 2007, quem não retornou ao Mundial foi o Uruguai, que havia se classificado a duas edições seguidas, 1999 e 2003. Portugal, claro, foi o novato naquele ano na França. Entretanto, os Lobos não repetiram a façanha em 2011 e quem foi à Nova Zelândia foi a Rússia, debutante. Aliás, os russos foram os últimos estreantes num Mundial até o Chile conseguir a classificação neste mês. Em 2015, a Rússia falhou em retornar ao Mundial e quem foi à Inglaterra foi o Uruguai, retornando ao grande palco do rugby. Por fim, em 2019, a Roménia não foi ao Japão, dando lugar ao retorno dos russos.

Em 2023, teremos, no mínimo, duas equipas diferentes no Mundial com relação a 2019. Canadá e Rússia estão fora e darão lugar a Chile e Roménia. É bom ressaltar que a Roménia irá ao Mundial porque a Espanha foi punida pelo caso Van den Berg.

Se fosse a Espanha no Mundial, a matemática seria a mesma, mas mais notável uma vez que os Leões não jogam o Mundial desde 1999, ao passo que os romenos falharam apenas em 2019 (e igualmente por conta de punição por uso de atleta irregular). Porém, caso Portugal derrote os Estados Unidos no novembro próximo terem um feito incrível de três nações diferentes de um Mundial para o outro.

O que isso significa? Que está na hora de termos 24 equipas no Mundial. Se tivermos três novidades e ainda apontarmos a ausência espanhola como resultante de um detalhe, temos provado que o Mundial pode comportar mais quatro equipas (e o caso dos Leões é um “detalhe” no que toca ao assunto expansão do Mundial, pois Van den Berg jogou apenas contra os Países Baixos, em dois jogos nos quais a vitória bonificada era certa para os espanhóis. Portanto, é óbvio que a Espanha, em campo, se provou digna do Mundial).

O avanço do profissionalismo na América e na Europa é fato, mas é preciso realismo

O que ficou claro é que tanto a criação da SLAR na América do Sul como a criação da Super Cup na Europa são fatores que favorecem a evolução das selecções nacionais. O avanço do Chile é a maior prova disso. Os Cóndores têm como base a franquia do Selknam, que derrotou três vezes neste ano os Jaguares argentinos (enfraquecidos, é verdade, mas, mesmo assim, fortes). Com um time jogando junto por dois anos seguidos, o Chile mostrou muita força em seu conjunto e soube lidar com adversidades nos duelos contra os Eagles. Por sua vez, parte da ascensão de Portugal se deveu aos Lusitanos.

Por outro lado, quando a liga está totalmente desconectada da seleção, problemas aparecem. É o caso do que se viu com os Estados Unidos. Não se engane: há muita gente questionando a importância da Major League Rugby e isso jamais deveria ser posto em questão. A MLR é um dos ingredientes essenciais para o crescimento do rugby norte-americano, mas não o único.

E a completa desconexão do trabalho realizado nas franquias com o trabalho dos Eagles mostrou que ter profissionalismo não basta. É necessário um projeto sólido de alto rendimento e isso os Eagles claramente não têm. Ao menos pro XV masculino.

África e Ásia precisam ser tratadas com igualdade

Por outro lado, ficou evidente que os investimentos e evolução que se viu no rugby das Américas desde 2016 (desde a criação do Americas Rugby Championship e com ajuda do World Rugby) não se repetiu em outros continentes. Ásia e África são os casos gritantes.

Começando com a Ásia, o fim do projeto do Global Rapid Rugby, outrora encabeçado pelo Western Force, deixou um vácuo. Hong Kong, que caminhara na direção de profissional sua seleção nacional, recuou. Diante de Tonga, Hong Kong não perdeu por um placar humilhante. 44 a 22 soa um resultado bom para os asiáticos, ainda que os últimos dois tries de Hong Kong tenham ocorrido nos três minutos finais de jogo.

Todavia, Hong Kong carece de um novo projeto profissional e, com uma seleção maioritariamente ocidental, as dúvidas sobre o futuro da equipa são latentes. As esperanças na Ásia se voltam para a Coreia do Sul, que anunciou um projeto de profissionalização e flertou com vitória sobre Hong Kong em junho. E, mesmo com algum otimismo do lado coreano, o fato é que pouca evolução se viu nos últimos anos no continente asiático – Japão aparte.

Na África, por outro lado, há motivos para mais otimismo e, sobretudo, para exigirem um lugar ao sol nos investimentos estratégicos do World Rugby. É verdade que o sentimento de mesmice segue pelos lados africanos, já que a Namíbia, sem sofrimento, conquistou sua sétima classificação consecutiva ao Mundial. Independente apenas em 1990, a Namíbia só sucumbiu uma única vez no apuramento ao Mundial – em sua primeira participação, no apuramento para 1995, quando viu a Costa do Marfim se classificar.

Entretanto, a tardia inclusão de Zimbábue e Quénia na Currie Cup foi acompanhada de uma clara evolução dos dois países que leva ao questionamento: se zimbabuanos e quenianos tivessem investimento pelo ciclo inteiro de quatro ano e se tivessem nesses anos todos participado da Currie Cup, em qual nível estariam? Certamente a Namíbia teria sofrido mais no apuramento. Já a Argélia foi capaz de reunir uma legião de atletas radicados em França e, mesmo com poucos treinos juntos, foi capaz de ser competitiva também. O potencial em África em óbvio.

Na segunda parte vamos olhar, mais a fundo, sobre o sucesso do Chile e de como a evolução não veio do nada, explicando o que esteve por detrás do feito espectacular dos Condores!


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