Chile no Mundial: uma ascensão que não foi por acaso do destino pt.2

Victor RamalhoAgosto 1, 20226min0

Chile no Mundial: uma ascensão que não foi por acaso do destino pt.2

Victor RamalhoAgosto 1, 20226min0
Victor Ramalho olha para o desenvolvimento do rugby nas nações Tier 2, e foca a atenção não só no Chile mas o que tem de mudar no futuro

A segunda parte do artigo de Victor Ramalho sobre o crescimento das nações de 2º plano do rugby mundial (denominadas por Tier 2), com o olhar agora colocado no Chile, o novo estreante em campeonatos do Mundo da bola oval. Como se deu o crescimento? E que lições importantes pode se tirar daqui?

E o Chile, é surpresa?

Com isso, passamos ao Chile. Quais os motivos reais para a qualificação dos andinos ao Mundial? Já mencionamos os benefícios da SLAR em contraste com os problemas gerados por uma desarticulada MLR. Porém, mesmo assim, quão surpreendente é a qualificação do Chile ao Mundial?
É verdade que no comando chileno está o uruguaio Pablo Lemoine, que levou o Uruguai ao Mundial de 2015 e que tem por trás um sistema poderoso de alto rendimento coordenado desde a Argentina sob a liderança de Daniel Hourcade.

Nicolás Bruzzone, treinador do Selknam, e Rodolfo Ambrosio, ex-treinador da seleção do Brasil e da franquia colombiana da SLAR, os Cafeteros, também fazem parte do sistema chileno, que, portanto, reuniu muitos nomes que tiveram sucesso evoluindo o rugby profissional na região recentemente. E aqui estão três pontos cruciais.

Primeiramente, os chilenos foram capazes de formar um sistema de alto rendimento profissional do qual careciam. Até 2019, o Chile parecia condenado à última colocação do velho Americas Rugby Championship, sendo seguidamente derrotado pelo Brasil. Naquela altura, os Cóndores eram essencialmente amadores – ou semiprofissionais –, o que contrastava com o profissionalismo vivido no Brasil e no Uruguai.

O Brasil obteve sua primeira vitória na história sobre o Chile apenas em 2014 e, desde então, a precocidade – a nível regional – dos Tupis catapultou o selecionado Brasil a uma condição de destaque. Sob o comando justamente de Ambrosio ao longo de cinco anos, o Brasil obteve vitórias sobre Estados Unidos, Canadá, Argentina XV, Geórgia XV, Portugal, Bélgica e, claro, Chile. Faltou aos Tupis apenas derrotar o Uruguai e, enquanto tamanho progresso acontecia do lado brasileiro, os chilenos pareciam esquecidos no cenário continental.

No entanto, a criação da SLAR e a reorganização na federação chilena permitiram o advento de um sistema de alto rendimento que tirou o Chile do atraso e o igualou ao Brasil em termos de condições de trabalho. Aqui, portanto, entra o segundo fator principal, que é a Argentina liderando o processo de construção do rugby profissional no continente.

Ao contrário de outras nações do Tier 1, a Argentina se coloca como protagonista e fomentadora de seus vizinhos. Algo que não se vê, por exemplo, nas atitudes britânicas com relação ao rumo do rugby mundial e ao destino das Tier 2. Tal liderança argentina – que traz consigo um know how muitas vezes ignorado pelos especialistas no rugby das Tier 1, que tendem a desconhecer a magnitude do rugby argentino de clubes a verdadeira dimensão do desporto da terra dos Pumas – não se fez por mero altruísmo. A Argentina é há décadas assolada por constantes crises económicas e a saída para o desporto argentino é sempre sua internacionalização. Os argentinos buscam nos vizinhos mercado e alternativas para seus profissionais e entendem que o crescimento regional lhes é essencial.

O crescimento da América do Sul enquanto potência

Com isso, assim que o profissionalismo chegou, o Chile foi capaz de saltar. E aqui, por fim, entra o terceiro ponto. O rugby doméstico chileno estava muito mais preparado para o salto do que estava, por exemplo, o rugby brasileiro. Quando o Brasil iniciou sua própria revolução oval, o rugby de clubes brasileiro e, sobretudo, o rugby juvenil brasileiro não estavam devidamente estruturados para um contínuo progresso no longo prazo.

O rugby brasileiro é composto de um misto de clubes jovens com clubes de meia idade que não contam com vasto patrimônio, como é o caso dos clubes sociais poliesportivos que lideram o rugby argentino, uruguaio e chileno.

O Brasil colheu muitos frutos rapidamente pelo excelente trabalho de alto rendimento que foi capaz de realizar, mas o teto não era alto. Uma hora, o sistema encontraria limitações e o que se vê hoje é um natural processo de renovação do rugby brasileiro que, como esperado, carrega consigo turbulências. A campanha cheia de derrotas dos Cobras (a franquia brasileira) na SLAR são consequência esperada do processo atual de renovação.

Por outro lado, as estruturas do rugby de clubes – e o rugby juvenil – do Chile são semelhantes às vistas na Argentina ou no Uruguai. Socialmente, o rugby dos três países se assemelha e o intercâmbio é histórico. São instituições com raízes profundas em segmentos mais abastados da sociedade desses países. Muito diferente da realidade dos clubes brasileiros, por exemplo. Nesse ponto, a surpresa com a rápida ascensão da seleção chilena deriva da sua condição recente de coadjuvante no cenário das Américas, o que, todavia, escondia o real potencial do rugby suficientemente maduro do país.

Para reforçar o argumento, é crucial relembrar um fato que parece ter sido obliterada pela maioria: não era a primeira vez que o Chile flertava com a classificação ao Mundial. No apuramento para 2003, os chilenos ficaram a 2 pontos de conseguirem a inédita vaga. Naquela oportunidade, em 2002, o apuramento nas Américas contou com um quadrangular final. O Canadá terminou as disputas no primeiro lugar com 16 pontos, seguido do Uruguai, com 12.

Os dois se classificaram ao Mundial. Em terceiro lugar ficaram os Estados Unidos, com 10 pontos. Os Eagles avançaram à repescagem e derrotaram a Espanha. Porém, a vaga dos estadunidenses na repescagem só foi obtida no saldo de pontos, uma vez que o Chile acabou com os mesmos 10 pontos. Na rodada final, Estados Unidos e Chile duelaram, com os Eagles vencendo por 35 a 22. No mesmo dia, o Canadá derrotara o Uruguai por 51 a 16. Um mero ponto bónus teria dados aos chilenos um lugar para enfrentar a Espanha. Isto é, não estamos falando de uma nação que nunca estivera perto do Mundial.

A lição que a classificação do Chile traz é que no mundo das Tier 2 não basta analisarmos pragmaticamente a evolução de uma seleção com base em seus resultados recentes ou meramente na análise fria tática e técnica de seus últimos compromissos. É o terreno do rugby doméstico e o contexto das influências regionais que pode ser mais útil ao entendimento de quais países serão capazes de crescerem mais rápida e decisivamente quando o profissionalismo se lhes viabiliza.

O contexto do rugby sul-americano sugeria que o Chile tinha potencial represado. Quando as condições se alinharam, o voo dos Cóndores foi alto, muito alto. Os chilenos sabem lidar com as montanhas e a que parecia separá-los do Mundial foi logo superada quando a névoa baixou e as condições foram clareadas. Que seja só o começo para que outros sigam os passos dos andinos.


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