As Eleições na FPR: A massificação e a luta pelos valores para o RC Montemor

Francisco IsaacMarço 20, 20198min0

As Eleições na FPR: A massificação e a luta pelos valores para o RC Montemor

Francisco IsaacMarço 20, 20198min0
António Pinto Xavier é um dos membros da direcção do RC Montemor e explica o que deve ser o futuro da modalidade com algumas ideias e propostas. Concordas?

O Fair Play durante as semanas que antecedem as eleições na Federação Portuguesa de Rugby propôs três perguntas a dirigentes, jogadores, técnicos e árbitros sobre o futuro da modalidade. As reflexões, propostas e desejos de cada um dos entrevistados. Hoje temos António Pinto Xavier do RC Montemor!

António, numa altura de indefinição para o rugby português o que achas que tem de ser o nosso foco no futuro próximo? E a longo-prazo o que precisamos de instituir?

A curto prazo é essencial organizar a FPR, “tirar a corda do pescoço” a nível financeiro e dar estabilidade ao rugby nacional para que se possa desenvolver internamente e, por consequência, dar resultados positivos na Selecção Nacional.

Organizar a FPR passa por ter uma instituição que trabalhe activamente em prol do rugby, que cumpra as suas obrigações (nomeadamente os acordos com as associações regionais) e que possa investir na modalidade. No caminho para a estabilidade, em primeiro lugar, é fundamental garantir um modelo competitivo a 4 anos! Só assim os clubes podem preparar as épocas com a antecedência que é necessária (sobre o modelo competitivo em causa não me vou alongar em explicações, mas defendo um campeonato disputado a 12 equipas em que todos possam ser campeões – há já quem o apresente e defenda muito melhor que eu).

Depois, é essencial captar novos sponsors, comunicar de forma activa e positiva com as empresas e entidades que financiam o desporto. No entanto, para que as empresas investam no rugby é preciso que este tenha algo para dar em troca. E o que é que o rugby (supostamente) tem que as outras modalidades não têm tanto? Os afamados valores do rugby! Os valores que educam miúdos a serem adultos responsáveis, leais, lutadores e respeitadores.

Limpar a imagem de alguns acontecimentos que vão aqui e ali acontecendo no rugby português é fundamental, sem isso não seremos nunca uma verdadeira nação de rugby. E como podemos trabalhar esta matéria? Trabalhando 3 pontos, que são: 1) acções de sensibilização de clubes, pais e atletas (com manuais de boa conduta e outras ferramentas do tipo); 2) penalizar severamente(!) quem viole os valores do rugby ou “suje” a imagem do rugby nacional! Não pode haver espaço para directores que não se sabem comportar, treinadores “futeboleiros”, pais invasores de campo e atletas indisciplinados e violentos.

Quem não quer aprender o que é Rugby não serve para o rugby. As sanções têm que ser mais gravosas (não falo só em mais jogos de suspensão, mas também em sanções pecuniárias mais gravosas para directores e treinadores, bem como sanção pecuniária para o clube do atleta que prevaricou gravemente) e deve haver, por parte da FPR, o controlo efectivo de que as sanções aplicadas são cumpridas com o pagamento dos valores em causa; 3) por último, para que isto aconteça é preciso garantir árbitros em todos os jogos e é essencial que existam formações obrigatórias e avaliações físicas para os árbitros (para que haja resposta destes agentes, também terão que ser melhor remunerados), bem como uma formação efectiva de jovens árbitros que podem e devem começar a ser árbitros de linha em jogos de sub-16, sub-18 e alguns seniores (devemos considerar a hipótese de os remunerar com valores meramente compensatórios, pois é mais um factor de atracção para os jovens a partir dos 14/15 anos que começam a sentir necessidade de maior independência.

A médio/longo prazo, devemos ter como principais objectivos a) massificar a modalidade, b) voltar ao circuito mundial de sevens e voltar ao Rugby Europe Championship, c) ir aos Olímpicos e ir ao Mundial. Como ou porquê?

  1. a) É essencial ter um maior número de atletas e em mais zonas do país por variadíssimas razões, mas sobretudo para aumentarmos a fonte de recrutamento para as selecções e para termos mais adeptos e mais gente a saber o que é o rugby. Este último ponto é extremamente importante e por vezes sinto que há muita gente que não o entende (digo isto por sentir que há muitos agentes no rugby português a tentarem fechar o rugby a um núcleo muito restrito)… Mas é muito simples de explicar (e espero que também simples de entender): são os adeptos quem “consome”, é deles que se originam as receitas! No futebol há mais dinheiro porque há mais adeptos a consumir (estádios, merchandising, transmissões televisas!)
  2. b) Voltar aos sevens é algo que toda a gente refere quando se fala em objectivos, no entanto a “solução” ultimamente apresentada é fazer um campeonato no final da época… Perdoar-me-ão, mas isto é absurdo… Um campeonato no final da época não revela interesse ou investimento, mas sim desprezo (está lá só para encher ou para dar lugar a quem jogou menos no campeonato de Union). Aqui, acredito que a solução passa por um campeonato que decorre ao mesmo tempo que o de rugby Union. Como? Haverá certamente quem pense numa melhor solução, mas acredito que um modelo em que se jogasse 1 jornada do campeonato de Sevens a cada 3 jornadas de Union, poderia funcionar. Assim trataríamos os sevens com respeito. Para além disso, se queremos ir a uns Jogos Olímpicos temos que nos preparar para tal e falar com quem está por dentro desse tipo de preparação. Voltar ao Rugby Europe Championship, passará por ter um rugby nacional competitivo, com espaço para os miúdos que hoje nos enchem de orgulho nos sub18/19/20 e, aqui vem a opinião “atrevida”, ter um responsável da equipa técnica nacional em França a acompanhar os luso-descendentes, bem como realizar estágios naquele país (a somar a isto devemos tratar com respeito os nossos atletas que jogam no estrangeiro e não representam Portugal porque a FPR os mal tratou ou não chegou a acordo com os seus clubes – aliás isto já acontece com jogadores que jogam no campeonato português).
  3. c) (Sobre os Olímpicos já comentei) Além disso, deveríamos explorar a abertura da World Rugby (doravante WR) para aumentar o Mundial para 24 equipas e tentar que isso acontecesse já em 2023. Aqui teremos sempre a França como nossa forte aliada pois tem todo o interesse que Portugal (e em especial os portugueses em França) estejam presentes. Para que isto possa ser possível precisamos de ter uma voz activa na WR e, naturalmente, apresentar uma selecção que seja forte.
Sentes que há possibilidade de harmonia e trabalho em grupo entre clubes, federação e agentes do rugby? Onde precisamos de nos “encontrar” mais?

Claro que sim! No entanto, penso que é tempo de desistirmos da ideia de “encontrar consensos”, pois essa conversa já “cheira” a conto de fadas. Entendamos que não é possível e que quem quer trabalhar em prol do rugby nacional deve fazê-lo e ponto!

Andamos quase há um ano em busca desse “mágico” consenso e até hoje só deu prejuízo (porque perdemos muito tempo). Ainda assim, e respondendo à tua pergunta, se há ponto que temos que trabalhar (mas em modo “doa a quem doer”!) é na valorização dos princípios que cantamos! Mais do que ensinar um miúdo a passar uma bola, é essencial que ele saiba o que é o rugby de verdade e que o vá ensinar os pais e amigos! Se fizermos isto, podemos não ter 20 em 20 jogadores brilhantes, mas teremos mais de “20” adeptos e pessoas do rugby.

O que é que o RC Montemor e toda a sua massa humana está disposta a ajudar na modalidade? Algumas ideias que podíamos colocar em prática?

Acredito que o RCM tem sido um exemplo para todos os clubes de centros populacionais pequenos ou para novos clubes que não acreditam que podem ser mais… O sucesso do RCM vem da carolice de alguns (como o meu pai e o João Baptista), do clubismo que foi crescendo no concelho e das adversidades que fomos e vamos, diariamente, vencendo!

O RCM esforça-se como poucos para fazer chegar o rugby a todas as casas do concelho de Montemor-o-Novo e dos concelhos limítrofes não só porque os seus agentes acreditam que jogamos e “vivemos” o melhor desporto do mundo, mas também porque, na verdade, dependemos de trabalho árduo para sobreviver. Esta época “lavámos a cara” e imprimimos uma nova forma de comunicar com adeptos, sócios e sponsors (instagram, Facebook, site, newsletter, kit sócio, entre outras acções), por exemplo. Para além disso cooperamos com outras entidades em actividades para lá do rugby sempre com elevado espírito de comunidade.

Na minha opinião, a melhor “ideia” que o RCM tem para dar é: dar espaço a pessoas capazes que queiram trabalhar em prol do clube, dar espaço aos jovens, participar activamente na sociedade em que o clube está inserido e tentar colocar uma bola de rugby em todos miúdos que encontremos. Repara que disse “encontremos” e não só os que “apareçam”… Se não formos à procura dos miúdos eles dificilmente vêm ter connosco, pois mesmo com um excelente trabalho de clube existirão sempre pessoas que não entendem ou não conhecem o rugby (nunca é demais recordar que em Portugal temos menos de 7000 atletas federados). No fundo, é dar tudo em campo e fora dele!

Foto: RCM

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