Os 10 Mandamentos de um Sporting Campeão Europeu

Fair PlayMaio 12, 202110min0

Os 10 Mandamentos de um Sporting Campeão Europeu

Fair PlayMaio 12, 202110min0
Maria Pinto Jorge descreve os 10 mandamentos que guiaram esta equipa do Sporting CP ao título da UEFA Futsal Cup 2021. Qual deles o mais importante?

Quais os pontos-chave da equipa de Nuno Dias na final-eight da UEFA Futsal Champions League? Nada disso. É preferível apresentar alguns ‘mandamentos’ cuja modalidade pode começar a seguir após ter visto esta formação na quadra No início deste mês de maio, a equipa de futsal do Sporting sagrou-se campeão da Europa pela segunda vez. Por isso mesmo, e como há tanto para dizer e escrever sobre a caminhada até esta conquista, a opção mais prática parece enunciar os 10 Mandamentos da chegada dos leões ao Olimpo dos deuses da modalidade, em Zadar.

Artigo escrito por Maria Pinto Jorge do Modalidades com Voz

1.º – Respeitar o trabalho de Nuno Dias e compreender o que dá ao futsal acima de todas as coisas

A base de grande parte do sucesso conseguido por esta formação verde e branca advém dos métodos de Nuno Dias e a sua equipa técnica. Em conjunto com Paulo Luís e Raúl Oliveira, o leme do futsal leonino está de tal forma coeso que é pouco provável que alguma outra a nível europeu estude tão bem este jogo como os leões.

Não é por acaso que mais de metade dos títulos da secção de futsal do Sporting foram conquistados com o atual treinador ao comando, muito menos que esta formação se tenha tornado um dos grandes pontos de interesse da modalidade já além-fronteiras. Nuno Dias conseguiu, no clube de Alvalade, conciliar a disciplina, a novos processos métodos de treino da modalidade e, ainda, à união do grupo leonino, que acabaram por tornar mais fácil esta caminhada.

2.º – Não usar o guarda-redes subido em vão

Um dos pontos que tem vindo a melhorar em muito a qualidade do jogo ofensivo desta equipa é mesmo a importância de Guitta, não só na baliza, mas quando o mesmo sobe pela quadra. O guardião brasileiro tem vindo a demonstrar jogo após jogo o porquê de ser considerado um dos melhores do mundo na sua posição, mas nunca será apenas entre os postes que o internacional dará nas vistas ou fará a diferença.

Exemplo disso pode mesmo ser visto no primeiro no primeiro jogo dos leões, frente à turma do Partido Comunista russo, o KPRF, onde Guitta foi o ‘Rei’ do xadrez do Sporting, protegendo a sua equipa de um possível ‘xeque-mate’ dos homens de Moscovo. Tanto na defesa, como na progressão do ataque, o trabalho de pés demonstrado pelo guarda-redes se mostrou uma mais-valia. Nestas condições, o míster nunca sentiu necessidade de utilizar o 5 para 4, uma vez que ganha, no seu guardião, mais um homem de ataque e até com faro para golo.

3.º – Santificar o 5 para 4 defendido pelos leões

Se acima falámos do guarda-redes e da sua utilização no ataque, agora passamos para os momentos mais decisivos da defesa leonina: o 5 para 4. Ou seja, a equipa adversária com mais um jogador de quadra.

Nos três jogos da fase final da UEFA Futsal Champions League, os leões embelezaram a quadra croata com uma ação defensiva intransponível quando os seus adversários – KPRF, Inter Movistar e Barcelona – utilizaram a opção de guarda-redes avançado na tentativa de inverter o resultado em seu favor, mas a verdade é que o mesmo, em nenhum dos casos, acabou por sortir efeito. O motivo? O Sporting conta, atualmente, com o melhor 5 para estes processos de transição de ataque-defesa. Com Guitta (GR), João Matos, Erick Mendonça, Alex Merlim e Pany Varela em campo, o jogo torna-se mais cognitivo que técnico, mas igualmente tático.

Aliar a tática à experiência mental de um quinteto, nestes momentos, todo ele defensivo, é uma prova à capacidade de concentração da equipa que necessita de cargas concentradas de treino até atingirem este nível de perfeição nas mesmas. Como é fácil de perceber, estes fatores estão impressos de forma clara na mente e pés dos jogadores leoninos.

4.º – Honrar o espírito de grupo

Como já foi realçado no nosso ‘primeiro mandamento’, a união da equipa do Sporting acabou por ser um dos pontos fundamentais para este sucesso. Se, por vezes, o espírito de um grupo e os valores anímicos do mesmo são desvalorizados, nesta final-eight acabaram por ser a valorização certa do talento, juventude e amizade.

O mesmo pode ser visto na final, diante do Barcelona. Teoricamente, os catalães sempre foram favoritos, não só a vencer o Sporting, como a vencer a prova. No entanto, o nível de jogo dos ‘nuestros hermanos’ não passou da qualidade individual, enquanto o coletivo dos atletas de Alvalade levou a melhor. Talento, por si só, existe em ambas as equipas, mas foi mesmo esse nível de jogo que fez a diferença no momento mais decisivo da prova.

5.º – Não ‘matar’ a rotação de jogadores

Outro pormenor importante que não só marcou este triunfo, mas também a prestação dos leões até agora, passa mesmo pela versatilidade do banco do Sporting. O facto de o plantel de Nuno Dias ter muitas opções e ser totalmente completo, faz com que a possibilidade de rotação 5’s se torne maior, sem que a equipa perca consistência.

Opções de universais, como Erick – que podemos, como Guitta, quiçá comparar ao Cavalo no xadrez – trouxeram maior mobilidade nesta fase final. No exato caso do número 8 dos leões, Erick Mendonça, fez os mais variados papéis nestes três encontros, mostrando a sua versatilidade durante os mesmos.

6.º – Guardar a excelência nas bolas paradas

As (bem) trabalhadas e estudadas bolas paradas marcadas pelo Sporting foram, sem sombra de dúvidas, um dos maiores interesses de qualquer amante de futsal. Se são necessários exemplos, passamos novamente ao primeiro jogo, contra os russos, em que João Matos e Nuno Dias se tornam os protagonistas de um dos momentos mais interessantes alguma vez ‘apanhados’ num desconto tempo.

Neste vídeo, podemos ver o pedido de time-out da equipa técnica leonina que, prontamente, desenha a jogada de bola parada e concretiza, com João Matos a conseguir uma das finalizações mais relevantes dos encontros.

7.º – Não deixar de lado as duas opções de pivô

Já que tocámos no ponto da finalização no argumento anterior, passamos aos pivôs, os eternos marcadores. Pois bem, nesta fase final, pudemos ver como o míster leonino explorou duas hipóteses tremendamente antagónicas com dois atacantes: Rocha e Zicky.

Se, de um lado, conseguimos observar algumas entradas em quadra em 3-1, isto é, três atletas + pivô, sobretudo com Rocha, conseguimos compreender um estilo de jogo muito mais posicional, pois é exatamente esse o estilo do brasileiro. Por outro lado, com Zicky nas contas, o processo ofensivo do Sporting tornava-se muito mais móvel, dado exatamente à velocidade que o jovem internacional português coloca na quadra.

Estas foram duas opções que Nuno Dias utilizou, mas também o 4-0 (sem pivô), acabou por ser utilizado. Tanto numa como noutra situação, o rendimento com e sem pivô mostrou-se bastante elevado, possivelmente não tão ofensivo sem essa referência, mas de restabelecimento, na forma de se estabelecer rapidamente as mudanças dos sistemas – ofensivo e defensivo – com a preferência de que essa oscilação aconteça primeiro no ato mental e só depois no físico.

8.º – Não levantar falsos testemunhos sobre a mais-valia da juventude aliada à experiência

Uma das maiores diferenças entre esta conquista de 2021 em comparação com a de 2019 foi sobretudo a classe do plantel. Por sua vez, a primeira equipa campeã europeia pelo Sporting contava com nomes de larga experiência no futsal internacional, podemos lançar os nomes de Deo ou Léo como exemplos neste caso. No entanto, esta época, a média de idade dos jogadores que foram até Zadar era muito mais jovem.

Se, por um lado, a equipa perdeu uma pequena dose de experiência, também lhe juntou irreverência. O método que Nuno Dias utilizou para que a mesma funcionasse baseou-se, essencialmente, em lançar esses jovens – como Zicky ou Tomás Paçó – em simultâneo com algumas bases da formação leonina com muitos anos da modalidade, como João Matos e Alex Merlim.

Esta combinação mostrou ser uma das receitas de ingrediente secreto de campeão que melhor resultado deu. Porquê? Simples: a equipa técnica dos leões, com esse sistema concede confiança tanto aos mais experientes como aos mais novos, uma vez que a responsabilidade entre ensinar/orientar e aprender cria um laço diferente entre atletas.

9.º – Guardar o tesouro que é a leitura de jogo

Ainda agora referimos Alex Merlim como um dos jogadores que mais experiência oferece ao grupo, mas agora passamos a destaca-lo como a mente da equipa.

A leitura de jogo e essa mesma capacidade bem apurada é uma das qualidades essenciais de um ala que pretende controlar o jogo e ser a voz da tática na quadra, que se encontra em sintonia com o treinador. No caso do Sporting, essa voz é a do ítalo-brasileiro.

Por sua vez, Merlim tem um dos trabalhos de maior responsabilidade: além de ter de render como jogador, ainda é quem assume o papel de organizar as estruturas de transição, sobretudo no caso da temporização, sendo ele quem coloca o ritmo da sua equipa quando se encontra em campo.

Desta forma, a pressão orientada também acaba por estar no seu ‘pelouro’ e tornando-se, assim, um dos jogadores mais importantes deste plantel.

10.º – Não deixar que as adversidades levem a melhor

Para finalizar, o último mandamento vai de encontro exatamente à final da UEFA Futsal Champions League. Ao intervalo, os leões viam-se a perder por duas bolas diante do grande poderoso Barcelona e muitos achavam que, em apenas 20 minutos, o Sporting já tinha dito o ‘adeus’ à taça.

No entanto, a reviravolta mental durante o balneário – mais uma vez mérito ao treinador dos verdes e brancos por dar os meios para que todos saibam lidar com estes momentos de pressão – fez toda a diferença. O sucesso entre transições regressou, os duelos começaram a cair para o lado leonino e o resto é história.

Nesta resiliência do Sporting podemos destacar algumas etapas que foram vistas duranta a ação de jogo e que acabaram por levar esta equipa à vitória: equilíbrio defensivo, recuperação da posse, maior temporização, formação do ‘desenho’ desejado e abertura da defesa adversária que terminou em mais finalizações.


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