O judo está de luto

João CamachoMarço 31, 20218min0

O judo está de luto

João CamachoMarço 31, 20218min0
Portugal conquistou boas posições nos Grand Slams mas a notícia do judo mundial é o falecimento de Toshihiko Koga, que João Camacho recorda

O “louco” mês de Março chegou, imagine-se, com duas etapas do circuito Mundial. Portugal voltou a destacar-se, com um conjunto de resultados manifestamente positivo, mas o desaparecimento precoce, no dia 24 de Março de 2021, do lendário Toshihiko Koga, aos 53 anos de Idade, acabou por ofuscar um mês que parecia ser uma luz ao fundo do túnel, numa realidade altamente condicionada e com demasiadas restrições. O Judo perdeu o seu “Maradona”.

Toshihiko KOGA

Campeonatos do Mundo de Belgrado de 1989, os olhos estavam postos naquele pequeno japonês que, dois anos antes, tinha deslumbrado nos campeonatos do Mundo de Essen, onde, com apenas 20 anos, na categoria mais competitiva à época, os 71Kg, acabaria com o bronze ao peito. Em Belgrado, Koga conquista o seu primeiro título Mundial ao que se juntaram mais dois, Barcelona 1991 e Chiba 1995,este último já na categoria acima dos 78Kg. Contudo, o momento de glória seria o Título Olímpico em Barcelona 1992, obtido com um joelho lesionado, e onde foi o capitão da delegação Japonesa. O talento e virtuosismo de Koga é consensual e unânime para todos os que na altura assistiram, bem como por todas as gerações que se seguiram e que, em muitos casos, terão de recorrer às velhinhas cassetes e gravadores de VHS para reverem as suas épicas prestações.

Koga era o exemplo da superação, de como, mesmo lesionado, era possível chegar ao topo. Sacrifício, compromisso e dedicação, muita dedicação! Para as novas gerações, e tendo em conta o que oiço nos treinos e em conversas sobre Judo, cada vez são menos os jovens judocas que ouviram falar em Koga. Talvez uns estudiosos e curiosos, ou alunos de professores que fazem questão de mostrar as suas referências e os seus ídolos.

Muitos discutem qual o melhor judoca da história, Kosei Inoue? Teddy Riner? Shoei Ono? etc. Independentemente das preferências, por esta ou aquela razão, creio que o reconhecimento do talento de um nome é unânime, Koga. Outros houve que ganharam mais do que ele, mas Koga era um visionário, foi quem teve a capacidade de antever o futuro, que sempre via nas adversidades oportunidades de inovar e, ao adaptar o seu judo constantemente, tornava inglórias as tentativas dos seus adversários de o contrariarem, de se oporem com sucesso. Alguns, muito poucos, conseguiram atingir o nível dele.

Foi uma grande perda! Aos 53 anos tinha ainda muito para dar a este desporto e a esta enorme comunidade. A sua exemplar técnica, a sua explosão na execução. Enfim, era fantástico! Como treinador teve o seu grande momento nos Jogos Olímpicos de Atenas, quando a sua atleta Ayumi Tanimoto se sagrou campeã Olímpica na categoria dos 63Kg.

Para quem gosta de Judo, e não será difícil antever que muitos dos que leem estes artigos encaixam neste perfil, recomendo que procurem informação, porque há muito conteúdo deste fantástico Judoca que merece ser visto. Domo Arigato Koga!

Foto: French Press

Grand Slam Tashkent e Grand Slam Tbilisi

O Mês de Março começou com a visita do circuito Mundial à capital do Uzbequistão, Tachkent. O enorme investimento deste país no Judo é cada vez mais evidente. A contratação do “lendário” Ilias Iliadis como “head coach” da equipa Uzbeque está a ter um impacto manifestamente positivo.

Este Grego, de origem Georgiana, venceu a medalha de ouro Olímpica dos 81Kg nos Jogos de Atenas em 2004, foi Bronze nos jogos de Londres em 2012 e tem 3 títulos Mundiais, e muitos pódios e classificações de destaque durante a sua longa carreira. O Uzbequistão é hoje, sem margem para duvidas, um país em clara ascensão no panorama do Judo Mundial, com muitos pódios nas etapas já realizadas em 2021 e com muita qualidade nas suas prestações.

Em Tashkent Portugal apresentou uma equipa com muita juventude, complementada com alguma experiência. Se Rodrigo Lopes, nos 60Kg, tenta uma qualificação relâmpago para os Jogos Olímpicos de Tóquio, que acredito ainda é possível, apesar dos resultados tardarem em aparecer, outros tentam consolidar a sua posição no ranking, garantido uma posição de cabeça de série do sorteio, reservado aos 8 primeiros colocados de cada categoria de peso.

O estatuto de cabeça de série permite que os 8 primeiros classificados do ranking só se defrontem a partir dos quartos-de-final, o que poderá melhorar as probabilidades de uma boa classificação final. Esta competição também permitiu a alguns dos judocas da nova “fornada” de jovens talentos, ganharem ritmo e experiência a este nível. Foi o caso de Maria Siderot (48Kg), Wilsa Gomes (57Kg) e João Fernando (73g).

Os resultados ficaram um pouco abaixo das expectativas, no entanto destacamos o 7.º Lugar de Maria Siderot que aumenta a competitividade interna nesta categoria de peso, dominada por Catarina Costa. Tenho de destacar que o nível está elevadíssimo, com muitos atletas, de qualidade e com muita experiência, a tentarem a qualificação para os jogos olímpicos de Tóquio que, como sabemos, foram adiados para o verão deste ano. O circuito Mundial seguiu para a capital da Geórgia, Tbilissi. Aqui, Portugal apresentou uma equipa mais extensa, liderada pelo campeão do mundo Jorge Fonseca.

Se a competição não correu de feição a Jorge Fonseca, que caiu na 3.ª ronda, num combate eletrizante, frente ao Georgiano vice-campeão do mundo de Juniores de 2019, Ilia Sulamanidze, a equipa esteve globalmente muito bem. Catarina Costa repetiu o 5.º Lugar de Telavive (nos 48Kg), tal como a jovem, ainda do escalão júnior, Joana Crisóstomo, que, ao acabar em 5.º lugar (nos 70Kg), depois do 7.º lugar no europeu de séniores do ano passado e da prata nos Europeus de juniores, mostrou que é uma séria candidata a altos voos e a repetir pódios nos mundiais e europeus do escalão de juniores, que terão lugar no segundo semestre de 2021.

No que respeita à equipa masculina, Anri Egutidze terminou na 7.ª posição (nos 81Kg), sendo importante destacar que Anri vinha da recuperação de uma lesão, acabando esta participação por ser um bom teste de que está em forma para os Europeus de Lisboa. O destaque vai para Rochele Nunes, que repetiu a medalha de prata do Grand Slam de Telavive, nos +78Kg. O outro grande destaque foi a medalha de bronze conquistada por uma das atletas mais veteranas deste circuito, a fantástica Joana Ramos, que, com os seus de idade 39 anos de idade, disse (e passo a citar) “Esta medalha significa superação e nunca deixar de lutar pelos sonhos, (…), aos 39 impossível é para os outros, não para mim”. Notável! Acho que não há mais nada a acrescentar!

Rochele Nunes (Foto: FPJ)

Campeonatos da Europa de Judo, Lisboa 2021

A contagem decrescente para os campeonatos da Europa de Lisboa continua. Os campeonatos decorrerão entres os dias 16 e 18 de Abril e são claramente uma grande aposta da Federação Portuguesa de Judo-FPJ, especialmente no que respeita ao sucesso da organização, pois o cenário pandémico e as restrições associadas, exigem um conjunto adicional de protocolos e regras, que obrigarão a organização a superar-se, a ir além do planeado.

Acredito que este desafio adicional será, certamente, bem sucedido, pois desde 1994, quando organizou em Almada os campeonatos da Europa de Juniores, a FPJ tem sido uma referência, elogiada internacionalmente, sempre que está envolvida na organização de eventos internacionais desta dimensão.

A convocatória para os Europeus de Lisboa, à semelhança do que vem sendo adotado para anteriores competições recentes, é um misto de juventude e experiência. As expectativas são altas, com diversos atletas à procura de uma medalha e de valiosíssimos pontos, fundamentais para quem aspira em subir no ranking. Não irei individualizar a análise dos atletas convocados. Por agora, apenas abro uma exceção para o Rodrigo Lopes e para o João Crisóstomo, já que, através deles, esta será uma derradeira oportunidade de dar novo alento ao sonho de estar em Tóquio. Um mau resultado colocará, praticamente, estes dois atletas fora dos jogos.

Para concluir, tenho de realçar que acredito que, apesar de todos os constrangimentos e do facto de não estar autorizada a presença de público na Altice Arena o que sem dúvida empobrece o espetáculo e não permite usufruir da “vantagem” do maior calor no apoio aos atletas da “casa”, sempre fundamental para que estes se superem -, os resultados finais possam igualar os do Europeu de 2008.

Será uma justa recompensa para o extraordinário esforço de todos estes atletas, treinadores, clubes e da própria Federação, que, há mais de um ano, organiza concentrações semanais para todos estes atletas, disponibilizando todas as condições para que estes se mantenham em forma e prontos para estes desafios.


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