O Bronze dourado do judo português nos Jogos Olímpicos 2020

João CamachoAgosto 6, 202113min0

O Bronze dourado do judo português nos Jogos Olímpicos 2020

João CamachoAgosto 6, 202113min0
Portugal teve a sua melhor prestação de sempre no judo nos Jogos Olimpícos e João Camacho diz-nos o quão positivo foi para as Quinas no tatami

Portugal está de Parabéns! Os Jogos Olímpicos de Tóquio, adiados de 2020 para 2021 e que estiveram em risco de se não realizarem, ficaram marcados pela melhor prestação portuguesa de sempre (no judo e no geral), superando o número de medalhas alcançado nos Jogos de Los Angeles (1984) e nos de Atenas (2004).

A excelência dos resultados também está refletida no número de Diplomas Olímpicos, distinção para os 8 melhores classificados de cada evento, que é de longe o maior de sempre. Jorge Fonseca inaugurou as subidas ao Pódio, com mais uma épica prestação, muito emotiva e sofrida, conquistando a medalha de Bronze na emocionante categoria dos 100Kg. Estamos com ele: Venha Paris 2024!

Jorge Fonseca – Bronze na categoria 100Kg

Sem dúvida que o que agora escrevo poderá parecer uma cópia do meu último artigo, mas não! Os factos impõem a repetição do que tenho vindo a salientar. Jorge Fonseca é uma referência e continua a marcar a história do Judo e do Desporto Português. Na madrugada do dia 29 de Julho, pouco mais de um mês depois de conquistar o título de Bicampeão do Mundo, Jorge Fonseca entrou no tapete da Nippon Budokan, emblemática arena desportiva construída para receber a estreia do Judo no programa Olímpico, nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964, para voltar a fazer história. Foi aqui, em 2019, que Jorge conquistou o primeiro título Mundial do Judo Português.

O desempenho do Jorge esteve perto da perfeição, derrotou o atual Campeão da Europa, o belga Nikiforov, em 17 segundos. No combate dos quartos-de-final defrontou um velho conhecido, o russo Iliasov, sendo que se defrontaram, aqui, na final do campeonato do Mundo de 2019. Foi uma “maratona”, quase 8 minutos de combate que acabaram com a justa vitória do Português, mas que deixaram algumas mazelas, que acabaram por condicionar a sua prestação no combate da meia-final, onde defrontou o Sul Coreano Cho, campeão do Mundo em 2018.

Assistimos a um combate onde o cansaço, problemas físicos, alguma ansiedade acabaram condicionaram o combate, onde o Sul coreano apresentou sempre uma postura defensiva mas muito eficaz. Cho conseguiu levar o combate para o registo onde se sente confortável, muita luta de pegas, e as poucas, mas eficazes investidas, ditaram a derrota do Português, que sofreu um wazari a pouco mais de 20 segundos do final do combate. Jorge estava destroçado, ele trabalhou para o Ouro, ele trabalha sempre para o Ouro, como disse na conferência de impressa que se seguiu, e aqui foi a vez do seu treinador, a quem Jorge carinhosamente apelida de Pai, entrar em ação e mostrar o seu valor.

Pedro Soares, treinador do Jorge desde o primeiro dia em que este pisou um tapete (um exemplo do que é uma ligação de sucesso e da importância de ter alguém na cadeira de treinador com experiência e capacidade de liderança), em pouco mais de 20 minutos conseguiu recuperar Jorge da frustrante derrota, tendo perfeita consciência das capacidades do Jorge, mas de que “mudar o chip” era essencial, até porque o adversário que aguardava Jorge para a disputa da medalha de Bronze, o canadiano Elnahas, muito motivado com vitórias sobre adversários de peso e com um Judo imprevisível mas muito eficaz, prenunciava que a tarefa de Jorge seria muito complicada.

Com efeito, o combate pautou-se pelo equilíbrio, com os dois atletas muitos desgastados Só que a 40 segundos do final do combate, Jorge marcou um fantástico wazari. Os 40 segundos que separam Jorge da medalha pareceram uma eternidade, mas ele conseguiu gerir a vantagem com muito suor, emoção e sofrimento!

Jorge Fonseca conquista a 3.ª medalha de Bronze da história do Judo Português, depois de Nuno Delgado em Sidney 2000 e Telma Monteiro no Rio 2016.

Melhor prestação do Judo Português em Jogos Olímpicos

Catarina Costa 48Kg

A talentosa judoca de Coimbra, relembro, estudante de Medicina, vinha de duas prestações um pouco aquém das expectativas. Os campeonatos da Europa de Lisboa e os campeonatos do Mundo de Budapeste não foram de boa memória para esta fantástica Judoca, muito trabalhadora e focada, mas a razão ficou evidente: O objetivo eram os Jogos Olímpicos. Esta que foi a sua primeira, que esperamos se repita muitas vezes, participação nuns Jogos Olímpicos, terminou com o 5.º lugar na categoria dos 48Kg.

Depois de ser derrotada, no golden score, no combate dos quartos-de-final frente à atleta ucraniana Bilodid, velha conhecida e uma das candidatas ao Ouro, Catarina derrotou na repescagem a campeã Olímpica em título, a fantástica judoca argentina, colega de profissão, Paula Pareto.

No combate pela medalha de Bronze, Catarina acabou por ser derrotada pela mongol Munkhbat, experiente judoca e antiga campeã do Mundo, que conseguiu contrariar o judo da portuguesa, levando, sempre que tinha oportunidade, o combate para a situação de judo no solo (Ne-waza), registo onde faz a diferença e onde acabou por marcar a vantagem que a colocou no pódio.

Catarina esteve muito bem e atendendo a que tem apenas 24 anos de idade, ficamos com a certeza que temos aqui um judoca com muito potencial para altos voos. Uma grande prestação! Parabéns Catarina!

Joana Ramos 52Kg

Estas foram as terceiras e derradeiras Olimpíadas para esta fantástica Judoca, de 39 anos de idade, com um currículo imenso, e que é a prova viva que a idade pode ser apenas um número. Que classe e longevidade a desta fantástica atleta! Joana acabou derrotada, no combate da 1.ª ronda, frente a Angelica Delgado dos EUA.

Uma derrota no golden score que acabou por acontecer numa altura em que as duas judocas já estavam bastante desgastadas e vulneráveis a uma surpresa. Acabou por ser Joana a ser surpreendida e a ficar pelo caminho. Joana é uma das maiores referências do Judo Português e será recordada como tal! Obrigado Joana!

Telma Monteiro 57Kg

A expectativa era enorme relativamente à campeã da Europa em título e depois do 7.º lugar nos Mundiais de Budapeste., Fiquei convencido de que teríamos Telma num excelente momento de forma nestes Jogos e com possibilidades de chegar a uma medalha. Telma entrou com uma vitória fácil frente à judoca Dabonne, da Costa do Marfim.

Na segunda ronda, defrontou a polaca Kowalczyk, que fez o trabalho de casa e conseguiu anular o judo da Portuguesa. Os leitores sabem que, salvo raras exceções, não escrevo sobre arbitragem, não alimento polémicas, mas a arbitragem nestes Jogos Olímpicos ficou claramente aquém das expectativas do que é esperado numa competição com esta importância.

O que aconteceu neste combate foi simplesmente lamentável, e difícil de explicar. O critério na atribuição de castigos foi escandaloso, beneficiando a Polaca e, quando no golden score Telma contra ataca a Polaca, num movimento que claramente daria a vantagem e a passagem aos quartos-de-final, nada aconteceu. Telma acabaria derrotada, exausta, com um 3.º castigo.

Num desporto que foi líder na introdução do vídeo árbitro é difícil de explicar esta desastrosa ausência de decisão. A arbitragem foi claramente o elo mais fraco da competição de Judo nestes Jogos Olímpicos.

Mas nada apaga a marca de 5 Jogos Olímpicos! Fabulosa Atleta! Só temos a agradecer o que fez até ao presente, ficando a dúvida se Telma não irá fazer mais um forcing e lutar pela qualificação para Paris 2024! Estão já aí à porta… – Faltam menos de 3 anos!

Barbara Timo 70Kg

Barbara Timo teve um 2020 atribulado. Com a qualificação para os Jogos Olímpicos praticamente garantida, focou-se em recuperar das lesões que a condicionavam. Voltou em grande com o Bronze nos campeonatos da Europa de Lisboa, em Abril, mas a prestação nos campeonatos do Mundo de Budapeste foi um deceção.

A prestação nos Jogos Olímpicos foi inglória, mais uma vez um sorteio matreiro (a fatura que se paga por não ser um dos 8 cabeças de serie) que colocou no caminho da Portuguesa a atual campeã do Mundo, a croata Matic, logo na segunda ronda. Depois de derrotar a jamaicana Daley, na primeira ronda, confesso que tinha a esperança que Barbara pudesse, tal como fez nos campeonatos dos Mundo de Tóquio de 2019, em que se sagrou vice-campeã do Mundo, surpreender e derrotar esta fortíssima adversária. Infelizmente Matic foi claramente superior, com a Portuguesa a denotar algum desconforto e cansaço. Faltavam 2 minutos e um ippon colocou de fora da competição a Portuguesa. Fica a dúvida se Barbara irá tentar a qualificação para Paris 2024. Aos 30 anos, é evidente que tem condições e Judo para lutar por este objetivo.

Anri Egutidze 81Kg

Anri, Bronze nos últimos campeonatos do Mundo de Budapeste, ficou isento da primeira ronda, mas seria derrotado por uma das supressas da competição, o austríaco Borchashvili, que terminou a competição com a medalha de Bronze. O combate foi muito equilibrado, com Anri a apresentar um judo mais ofensivo e positivo.

No entanto, o combate decidiu-se no golden score, com o austríaco a marcar um wazari, com alguma sorte. Anri deixou excelentes indicações, é claramente um atleta que vai crescer e acredito que será um forte candidato a um lugar no pódio nos Jogos de Paris, em 2024.

Patrícia Sampaio 78Kg

As lágrimas, enquanto falava à reportagem da RTP, evidenciaram um enorme desalento, mas a lesão grave que sofreu no final do ano passado e que, irremediavelmente, condicionou a sua preparação, acabou por ser determinante nesta sua prestação.

Depois de derrotar, no primeiro combate, a adversária venezuelana Karen Leon, Patrícia teve na segunda ronda uma adversária de peso. A atual campeã do Mundo, a alemã Anna-Maria Wagner. O combate começou praticamente com a vantagem da Alemã, que condicionou muito a portuguesa, que não teve capacidade de responder e acabaria por sofrer o segundo wazari a meio do combate, acabando derrotada e eliminada da competição.

Destroçada, Patrícia salientou que treinou para muito mais e todos sabemos disso. A sua juventude, enorme currículo, dedicação e qualidade são garantias de que vamos ter em Paris uma Patricia muito mais madura e preparada para a sempre desafiante competição Olímpica.

Rochele Nunes +78Kg

Rochele, teve o capricho de encontrar logo no segundo combate a líder do Ranking Mundial, a cubana Ortiz, consequência, mais uma vez destaco, de não ser cabeça de serie. Depois de derrotar na primeira ronda a Porto-riquenha Mojica, assistimos na segunda ronda a um combate muito equilibrado onde, novamente, a arbitragem pecou pela ausência de um critério transparente na atribuição de castigos, penalizando a atitude mais positiva da Portuguesa em detrimento de uma atitude mais passiva e defensiva da Cubana.

A derrota surgiria já no golden score e o pedido de desculpas de Rochele, quando saía da área de competição, não faz qualquer sentido. Rochele deixou tudo no tapete da Nippon Budokan e esteve muito perto de ser feliz. Não deve pedidos de desculpas Rochele. Bem pelo contrário, merece a nossa admiração e agradecimento por mais um boa prestação!

O Balanço

Em termos gerais, para uns Jogos cuja realização esteve em suspenso e mesmo em risco de não acontecer, no que respeita ao Judo, tivemos 8 dias de Judo de altíssimo nível, com muita emoção, drama, lágrimas, mas onde o Japão esmagou a concorrência na competição individual, com 9 medalhas de Ouro, em 14 possíveis. Não podemos dizer que não era esperado um domínio do País do Sol Nascente. O Judo tem um grande peso e tradição no Japão e foi a modalidade onde observámos a maior aposta feita pelo País.

A título de exemplo, a Equipa Olímpica Japonesa foi poupada de participar dos Mundiais de Budapeste, que decorreram em Junho. Na competição individual destaco o Bronze do colosso Teddy Riner (+100Kg), que não conseguiu conquistar o seu terceiro ouro Olímpico, ao cair nos quartos-de-final frente ao Russo Bashaev, a consagração do Japonês Shoei Ono (73Kg), como um dos maiores da história deste desporto, conquistou o segundo titulo Olímpico, e a Francesa Clarisse Agbegnenou (63Kg) que juntou aos seus 5 títulos de campeã do Mundo o titulo de campeã Olímpica, numa final que foi a reedição da final Olímpica do Rio 2012, em que defrontou a eslovena Trstenjak, mas com um resultado diferente!

Para terminar, destaco as duas medalhas de Ouro do Kosovo, na competição feminina, nas categorias 48Kg e 57Kg. Notável para este pequeno país dos Balcãs que nos Jogos do Rio tinha feito história com a conquista da primeira medalha de Ouro Olímpica da sua história, precisamente no Judo, por Kelmendi nos 52Kg!

A surpresa acabou por acontecer na prova de equipas, com a França a bater na final o Japão por uns surpreendentes 4-1. A Equipa Olímpica de França foi recebida em Paris com honras de heróis nacionais, com cerimónia na Torre Eiffel, aplaudidos por uma multidão e pelos principais dirigentes da nação!

Nestes Jogos, mais uma vez, mas talvez com mais notoriedade, evidenciou-se a diferença entre o modo como alguns países tratam o desporto. E Portugal não está entre os melhores. Por cá, será importante não deixar cair na tentação de se pensar que tudo está bem com este fantástico resultado global.

Estes últimos 18 meses foram devastadores para o desporto de formação e se queremos continuar a marcar presença em Jogos Olímpicos e a ter prestações deste nível, é imperioso fazer uma reflexão e definir um plano sustentado de desenvolvimento do desporto e de captação de jovens talentos. Brisbane 2032 está já aí!

P.S.- São precisos apoios, muitos apoios, espero, sinceramente, que o recado que Jorge Fonseca, no calor da conquista da medalha de Bronze, deixou a duas “prestigiadas” marcas de equipamento desportivo, fique registado e marque o início de uma nova abordagem no que respeita aos apoios destas, e outras, grandes multinacionais ao desporto!


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