Judo: rescaldo dos Campeonatos da Europa Tbilisi 2026
Apesar de não ter uma bola de cristal, ou dominar a astrologia, não era difícil antever que a prestação da Equipa Portuguesa nos Campeonatos da Europa de Tbilisi não ficaria na história, como já aconteceu, por diversas vezes, no passado.
A comitiva portuguesa teve ausências de peso. Não contou com os melhores Judocas Portugueses da atualidade, que recuperam de lesões tendo em vista estar a 100%, ou lá próximo, no arranque da janela de qualificação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, que arranca já no próximo mês de Junho.
Campeonatos da Europa Tbilisi 2026
Como detalhei no último artigo, o sucesso da participação de Portugal nos Campeonatos da Europa de Tbilisi, estava muito condicionada devido à ausência de quatro nomes de peso, Patrícia Sampaio, Catarina Costa, Taís Pina e Jorge Fonseca, na verdade, os principais judocas Portugueses da atualidade.
No que respeita à prestação dos Judocas que estiveram presentes, começo por destacar Barbara Timo, que foi a judoca que esteve mais consistente e ao nível do que nos habituou num percurso que já valeu, uma prata e um bronze em Campeonatos do Mundo. Não tivesse um sorteio matreiro, que a colocou frente a uma das mais promissoras judocas da atualidade logo na 3.ª ronda desta disputadíssima categoria dos 70Kg, a jovem Suíça Campeã do Mundo de Juniores e atual número 6 do mundo, April Lynn FOHOUO, que viria a derrotar a Portuguesa pela vantagem mínima de Yuko, acredito que Bárbara teria condições de chegar à disputa das medalhas e, quem sabe, voltar a subir ao pódio de uns Campeonatos da Europa, como aconteceu em 2021 em Lisboa, onde conquistou a medalha de bronze.
De resto, nada de relevante a assinalar, saúdo o regresso de Rochele Nunes, a judoca portuguesa mais experiente em prova nesta competição, com duas medalhas de bronze conquistadas em 2020 e 2021, respetivamente em Praga e em Lisboa, mas que, apesar da vontade, ainda ficou evidente que está sem ritmo para uma categoria de peso cada vez mais exigente e com muitas jovens cheias de talento e compromisso de chegar ao pódio.
No que respeita às categorias masculinas, confesso que acreditava que tanto Miguel Gago, nos 60Kg, como Otari Kvantidze, nos 73Kg, reunissem condições para chegar longe nesta competição, tendo como referência as recentes prestações em etapas do circuito mundial. No entanto, se é verdade que Otari teve um combate para esquecer na segunda ronda frente ao jovem Francês Dayyan BOULEMTAFES, Miguel teve logo na segunda ronda um combate frente ao experiente judoca Russo Murad CHOPANOV, que viria a conquistar o ouro e o respetivo título de Campeão Europeu dos 66Kg. Não ter o estatuto de cabeça de serie no sorteio, lugar reservado para os 8 judocas melhor posicionados no ranking em prova, tem este resultado perverso, de poder colocar pela frente, logo na fase da prova a eliminar, um dos melhores judocas em prova, como aconteceu com o Miguel.
Globalmente, a Geórgia dominou o quadro de medalhas, com 4 medalhas de ouro (títulos), 2 de prata e 1 de bronze, apesar de ter tido algumas surpresas, não muito agradáveis, como foi o 5.º lugar do Bicampeão Olimpico do 90Kg, Lasha BEKAURI, que acabou surpreendido e derrotado na meia-final e na disputa do bronze de uma das mais disputadas categorias de peso destes campeonatos da Europa.
Para terminar, duas notas sobre estes Campeonatos da Europa:
- O festival de judo do Russo Timur Arbuzov na categoria dos 81Kg, atual Campeão do Mundo, que revalidou o título Europeu “atropelando” todos os adversários que se cruzaram no seu caminho, com especial destaque para a final, onde não deu qualquer hipótese ao judoca da casa, Vice-Campeão Olímpico em Paris 2024, Campeão Mundial por 3 vezes e Campeão Europeu por 5 vezes, Tato GRIGALASHVILI;
- A inesperada ausência do Campeão do Mundo de 2025 dos 100KG, o atleta Russo Matvey Kanikovskiy, considerado um dos judocas mais espetaculares e consistentes da atualidade, motivada por um alegado controlo positivo à substância Ligandrol, num teste efetuado internamente, pela equipa médica da seleção russa. No mínimo surpreendente e, que eu tenha conhecimento, inédito, ficando no ar que a narrativa ou explicação por detrás desta ausência de peso carece de mais detalhes e factos…. Mais estranho ainda, é a ausência, à data, de uma posição oficial da Federação Internacional de Judo…
Regresso do circuito mundial
Ainda na ressaca dos campeonatos continentais, recordo que para além dos Campeonatos da Europa tivemos os Campeonatos Asiáticos, Africanos, da Oceânia e Pan-americanos, tivemos o recomeço do circuito mundial, com as etapas de Dushanbe (Tajiquistão) e Cazaquistão. Duas etapas a meio gás, tendo como notas de destaque o número de jovens que começam a dar nas vistas e que aproveitaram estas etapas, e a oportunidade que as equipas técnicas dos respetivos países lhes proporcionaram, para se afirmarem e provarem que poderão ser uma opção válida para o futuro.
A partir de Junho, com o arranque da janela de qualificação Olímpica, o nível irá, irremediavelmente, subir exponencialmente, complicando, e de que maneira, a prestação de todos os judocas que não tenha estatuto de cabeças de série. Serão dois anos muito duros, com muita emoção e muitos nervos “à flor da pele”, ficando a dúvida se Portugal irá conseguir levar até Los Angeles o mesmo número de atletas que nas edições de Paris e Tóquio.
Por cá, a Federação Portuguesa de Judo (FPJ) está sob fogo cerrado, com as Associações Distritais a desesperarem pela regularização das tranches mensais, vitais para garantir a sobrevivência do Judo a nível associativo. As Associações de Santarém e Coimbra, pela voz de António Leal e Jorge Fernandes (sim, o antigo presidente da FPJ), respetivamente, reclamaram à FPJ o devido pagamento de duodécimos, atrasados em seis meses, pedindo mesmo a demissão de Sérgio Pina, presidente federativo, e com apelo à intervenção da Tutela.
A FPJ defende-se com o facto de a atual situação financeira ter sido herdade da anterior gestão, e, mais uma vez lembramos, da qual a quase totalidade dos atuais dirigentes federativos fazia parte, destacando o atual presidente que tinha o cargo de Vice-presidente…. Sem uma estratégia de proximidade robusta e devidamente apoiada (financeiramente e logisticamente)- e as associações distritais são, no modelo atual, peças chave para esse objetivo. será dificil manter o nível de excelência de resultados dos últimos anos.
Precisamos, desesperadamente, de novos talentos e de disponibilizar todo o apoio para crescerem e chegarem, com reais hipóteses de sucesso, ao patamar da excelência do Judo. Como está a situação, será dificil…



