INDOOR: Poderá o futebol de praia jogar-se todo o ano?

André CoroadoFevereiro 2, 20207min0

INDOOR: Poderá o futebol de praia jogar-se todo o ano?

André CoroadoFevereiro 2, 20207min0
As competições indoor de futebol de praia já são uma realidade há 14 anos, mas a modalidade continua a ser vítima de uma certa sazonalidade que a impede de chegar ao estatuto profissionalizado que almeja. Até que ponto a difusão do futebol de praia indoor poderia dar uma ajuda nessa transformação?

Apesar do rápido e contínuo crescimento do futebol de praia nas últimas duas décadas, o rótulo de modalidade sazonal continua a ser difícil de destruir. As razões são fáceis de compreender, num desporto cujo habitat natural é a praia, estando a sua prática tradicionalmente envolta um ambiente balnear que se constitui como parte integrante do espectáculo colorido da modalidade. A atmosfera da praia ou, pelo menos, de um espaço aberto com bom tempo e muita animação, acaba por funcionar como um importante chamariz de público e atenção mediática, fundamental para a viabilidade económica de um desporto que obteve a chancela da FIFA.

Um desporto (ainda demasiado) sazonal

Porém, a sazonalidade é também uma inimiga no que concerne à transição da modalidade para um nível superior, inibindo a extensão dos quadros competitivos à globalidade do calendário anual e, consequentemente, dificultando a profissionalização de atletas. Com efeito, o futebol de praia europeu só começa verdadeiramente durante o mês de Maio, quando os dias longos e soalheiros do final da Primavera antecipam o Verão iminante, e termina por norma em finais de Setembro (se não terminar ainida um pouco antes…). É nesta faixa temporal que se disputam os eventos internacionais (Euro Winners Cup, Women’s Euro Cup, Liga Europeia, Mundialito, Qualificações para o Mundial ou o próprio campeonato do mundo caso seja realizado em solo europeu), mas também as mais variadas taças e ligas nacionais de cada país. Entre Outubro e Abril, salvo raras excepções, os campeonatos são interrompidos. O mesmo se passa na América do Norte e na Ásia.

Em sentido inverso, na América do Sul, as competições nacionais e internacionais têm tipicamente lugar entre Novembro e Março, sendo o calendário desproporcionalmente menos preenchido nos meses de Inverno no hemisfério Sul (apesar de em países como o Brasil e o Paraguai ser em geral possível a prática da modalidade ao ar livre mesmo durante tal faixa temporal).

As origens do indoor

Neste contexto, a realização de competiõçes indoor pode desempenhar um papel fundamental na expansão dos calendários da modalidade e consequente desenvolvimento do futebol de praia enquanto modalidade profissional. Na verdade, os torneios indoor não são uma novidade: terão começado em Dezembro de 2005, com a realização da primeira Taça da Europa de Futebol de Praia Indoor, em Moscovo, na Rússia. O torneio seria conquistado pela Suíça, vencedora da final contra a anfitriã Rússia, um resultado que surpreendeu o mundo do futebol de praia, dado que na época nenhuma das selecções apresentava os pergaminhos que hoje lhes reconhecemos. O certo é que as duas nações, países improváveis para a prática do futebol de praia, realizaram uma trajectória de crescimento muito interessante na modalidade, à qual não foi alheia a aposta na vertente indoor.

Com efeito, se em ambos os países as principais competições continuam a ser disputadas durante o Verão e ao ar livre, é também verdade que a existência de campos de futebol de praia indoor permite às equipas (e às selecções nacionais) realizar um programa de treinos em qualquer altura do ano, caso existam competições internacionais em perspectiva. No caso da Rússia, o pavilhaõ de desportos de areia de São Petersburgo serve mesmo de local de treinos a outras selecções do leste europeu (Polónia, Bielorrússia, Azerbeijão…) e acolhe todos os anos durante o inverno a Open Beach Soccer League. Naturalmente, o desenvolvimento do futebol de praia na Europa Oriental deve-se a todo um connjunto de factores, mas a aposta na componente indoor na Rússia e alguns outros países (como a Estónia ou a Hungria) tem também desempenhado um papel não desprezável.

A selecção suíça treina num campo indoor em Basileia [Foto: beachsoccer.ch]

A realização de outros torneios internacionais em Moscovo, durante o inverno (Taça da Europa 2012, Mundialito de Clubes 2019 e 2020) acaba por ser natural, tendo em conta o peso histórico do indoor na Rússia. No entanto, não deixa de ser paradoxal que, durante os meses de inverno no hemisfério norte, as escassas competições do calendário europeu de futebol de praia se realizem precisamente no país conhecido pelos seus invernos rigorosos, célebres pelas derrotas infligidas aos exércitos que ao longo da História tentaram derrotar a Rússia durante a estação das neves.

Porque não temos indoor em Portugal?

O certo é que, nas potências tradicionais do futebol de praia europeu (Portugal, Espanha, França e Itália), a aposta na vertente indoor nunca chegou a ser uma realidade, muito por “culpa” do clima ameno que agracia estes países do sul da Europa. De facto, a competição é possível durante a quase totalidade do ano, por vezes mesmo durante os meses de inverno (veja-se o torneio internacional da Copa Mar Menor, realizada anualmente em Dezembro desde 2015), o que acaba por desvalorizar a ideia de conceber pavilhões desportivos para a prática permanente do futebol de praia. No entanto, embora a meteorologia seja suficientemente benigna para permitir a prática da modalidade ao ar livre, não o é ao ponto de a incentivar de forma regular e consistente – é preciso uma rara dose de coragem e determinação para manter uma rotina balnear diária, como os treinos diaŕios do vice-capitão da selecção nacional Bruno Torres os os banhos de mar do Presidente da República Marcelo de Rebelo de Sousa.

Deste modo, a realização de competições de futebol de praia é inibida pela instabilidade da meteorologia ao ar livre e pela inexistência de campos indoor permanentes. Além disso, mesmo que se realizasse uma aposta forte nesta vertente, as baixas expectativas de adesão por parte dos clubes e do público poderiam desencorajar a iniciativa e torná-la economicamente pouco viável. Veja-se o caso do City Park Indoor, única tentativa até à data de conceber um campo de futebol de praia indoor levada a cabo por Madjer em 2011, que acabaria por ser descontinuado menos de um ano depois.

O indoor e o futuro

Parece-nos que a vertente indoor não deve ser descartada e pode funcionar como uma alavanca para projectar a modalidade para o próximo nível. No entanto, para que o crescimento ocorra de forma sustentável, é importante que as federações nacionais apostem cada vez mais numa expansão das competições oficiais para lá dos meses de Verão, eventualmente em articulação com a BSWW, por forma a criar a necessidade de criação de palcos alternativos para a prática da modalidade.

Por outras palavras, o indoor não é, em si mesmo, a solução, mas pode e deve ser encarada como uma parte fundamental da chave para a transição do futebol de praia para o estatuto de modalidade a tempo inteiro a que pode ascender. Enquanto isso não é uma realidade, seria interessante ver os países europeus investir na criação de, pelo menos, um campo indoor permanente destinado aos treinos da sua selecção (e outras equipas interessadas) caso o tempo não o permita no exterior. E certamente que, nascendo um parqe de desportos de praia, o interesse na modalidade também cresceria e novos projectos, novos talentos poderiam também emergir… são imprevisíveis as voltas que o mundo dá.


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