O Singular Cavalheiro da F1, Sir Frank Williams (2/2)

Francisco da SilvaMaio 3, 20207min0

O Singular Cavalheiro da F1, Sir Frank Williams (2/2)

Francisco da SilvaMaio 3, 20207min0
Sir Frank Williams é um dos nomes mais icónicos da F1. O Fair Play lança a segunda parte de um artigo que pretende revisitar a carreira desta lenda.

Os primeiros passos da Frank Williams Racing Cars foram dados na Fórmula 2 e na Fórmula 3 com relativo sucesso à boleia de pilotos velozes como Piers Courage, Tetsu Ikuzawa e Tony Trimmer. O êxito inicial em categorias secundárias aguçou avidamente o apetite de Frank Williams e de Piers Courage pela F1.

Em 1969, somente 3 anos após a sua fundação, a Frank Williams Racing Cars estreava-se finalmente na competição de automobilismo mais popular do Mundo com o inevitável Piers Courage ao volante do monolugar Brabham-Ford. A formação britânica participou em 10 das 11 provas do calendário e conquistou um total de 19 pontos, em especial graças aos 2º lugares conquistados no Mónaco e nos Estados Unidos da América por Piers Courage.

A temporada de 1970 foi particularmente difícil e marcante para a Frank Williams Racing Cars.
Depois de alterarem para um monolugar De Tomaso, as expectativas da equipa eram crescentes e anteviam uma segunda época de afirmação da Frank Williams Racing Cars na F1. Contudo, após 4 provas inaugurais dececionantes, o Grande Prémio dos Países Baixos ficaria irremediavelmente marcado pelo trágico acidente que vitimou o fiel amigo e financiador dos sonhos de Frank Williams, Piers Courage.

A partir desse momento, a formação de Frank Williams atravessou o período mais atribulado e desafiante da sua história. Durante vários anos, a Frank Williams Racing Cars trocou de monolugares e encontrou novos parceiros, mas nunca conseguiu definitivamente encontrar solução para os seus problemas financeiros e para a sua falta de competitividade. Em 1976, Frank Williams foi forçado a vender a sua equipa ao milionário Walter Wolf, que o manteve na estrutura como chefe de operações da equipa. Após um início de temporada muito aquém do esperado, Frank Williams foi despedido da equipa que o próprio fundara.

Mas a história não ficaria por aqui, até porque os sonhos são substâncias que se alimentam de impossíveis e não desvanecem absolutamente ao primeiro revés. É também neste hemisfério que o passado dá lugar ao presente e ao futuro de Frank Williams.

O ano de 1977 fica indubitavelmente ligado à criação da Williams Grand Prix Engineering, uma sociedade formada entre Frank Williams e Patrick Head, um talentoso engenheiro da extinta Frank Williams Racing Cars. A partir desse momento, todos os monolugares desenvolvidos pela equipa receberam o acrónimo de “FW” e foram constantemente aprimorados pelo génio de Patrick Head, que tornou os “FW” em lendas da F1. A relação simbiótica entre Williams e Head será fundamental para o sucesso da equipa recentemente criada, se Head é o cérebro mecânico que catapulta o rendimento dentro da pista, Williams é o embaixador da equipa que se multiplica em reuniões e contactos para ampliar os rendimentos financeiros.

A temporada de 1980 acaba por ser o pináculo desportivo da longa e fértil carreira de Frank Williams. Se em 1979 o australiano Alan Jones e o helvético Clay Regazzoni tinham sido capazes de conquistar o vice-campeonato para a escuderia britânica no mundial de construtores, um ano depois, a chegada de Carlos Reutemann foi fundamental para aumentar a competitividade do FW07/FW07B. Assim, em 1980 a Williams Grand Prix Engineering não só conquistou inequivocamente o mundial de construtores como também o seu principal piloto, Alan Jones, se sagrou campeão mundial à frente de Nelson Piquet e Carlos Reutemann. O próprio Frank Williams descreveria este duplo triunfo como “a melhor sensação do mundo”.

Alan Jones, Frank Williams e Patrick Head | Fonte: devianart

A década de 80 na F1 está intimamente ligada ao crescimento e consolidação da Williams Grand Prix Engineering que permitiu ao finlandês Keke Rosberg conquistar o seu único título mundial na modalidade em 1982, bem como, oferecer o tricampeonato ao brasileiro Nelson Piquet em 1987. Para a posterioridade, somam-se ainda 4 triunfos no mundial de construtores (1980, 1981, 1986 e 1987).

O génio de Frank Williams era bem visível não só no dom de escolher as pessoas certas para os lugares certos, como também na arte de estabelecer pontes e negociar acordos com os parceiros mais inusitados. Ao longo dos anos, Frank Williams foi trazendo novas caras, novos parceiros e novos patrocínios para o mundo da F1 que viriam a ser fundamentais para o sucesso da Williams Grand Prix Engineering. Aliás, a visão estratégica e a capacidade negocial de Frank Williams foram vitais para firmar acordos com a Honda, a Renault ou a BMW que mantiveram a formação britânica como uma das mais temidas e respeitadas do circo da F1.

Alain Prost e Frank Williams | Fonte: Getty Images

Antes de Frank Williams experienciar a melhor década profissional de sempre, o destino quis jogar aos dados e colocou-o perante o maior desafio da sua vida. Em Março de 1986, quando seguia rumo ao Aeroporto de Nice, Frank Williams perdeu o controlo do Ford Sierra que conduzia e sofreu um violentíssimo acidente que o colocou para sempre agarrado a uma cadeira de rodas. A partir daqui, emergiu da sombra uma das personagens mais importantes desta história, Virginia Berry, com quem Frank Williams se casara em 1974. Virginia foi fundamental para a recuperação de Frank que demorou 9 meses, mas também para que o patriarca da família Williams nunca perdesse a motivação, o foco e o amor pelo seu grande sonho, a F1.

A década de 90 é dominada pela parceira entre a Williams e a Renault que fabrica 4 campeões mundiais, Nigel Mansell (1992), Alain Prost (1993), Damon Hill (1996) e Jacques Villeneuve (1997), permitindo à Williams Grand Prix Engineering conquistar mais 5 mundiais de construtores para a sua coleção (1992, 1993, 1994, 1996 e 1997). Nesta fase, as evoluções constantes ao nível da aerodinâmica, da direção e da suspensão são pilares basilares do sucesso da equipa, cujos principais rostos técnicos são Patrick Head e Adrian Newey.

O final da década de 90 e as primeiras duas décadas do século XXI conduziram a profundas transformações no seio da Williams Grand Prix Engineering, porém, a escuderia britânica jamais voltaria ao topo da hierarquia da F1. A paixão e a lucidez de Frank Williams estiveram constantemente presentes em todos os circuitos e paddocks ao longo de todos estes anos, contudo, a F1 mudou a uma velocidade estonteante que relegou para segundo plano formações tradicionais e frugais como a Williams Grand Prix Engineering. Nos dias de hoje, já não chega ser o mais apaixonado, o mais lúcido ou o mais culto da F1, é necessário também ter os bolsos mais fundos.

Francis Owen Garbett Williams está há mais de 50 anos ligado ao mundo da F1, nesse sentido, o seu nome e o seu legado são parte umbilical do património histórico da modalidade. Ao longo desta viagem alucinante, Frank Williams perdeu vários amigos, ganhou inúmeras batalhas, foi condecorado pela Rainha Isabel II do Reino Unido, reconhecido com a Legião de Honra pelo Estado Francês e mostrou ao destino que, para além de ser o tetraplégico com maior longevidade no planeta, é possível triunfar numa cadeira de rodas no mundo vertiginoso da F1.

Frank e Virginia Williams | Fonte: Motorsports images

Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter