Alguém viu Peter Sagan?

Diogo PiscoJulho 19, 20215min0

Alguém viu Peter Sagan?

Diogo PiscoJulho 19, 20215min0
Para além dos resultados, onde está o "one man show"? Carisma, mediatismo, protagonismo, vários sinónimos que davam vida a uma personagem que parece ter desaparecido com a falta de resultados! Ou será que os resultados não surgem porque a personagem já não é a mesma?

No ciclismo, como noutro desporto ou profissão, por norma, a fama provém de resultados de maior sucesso. No entanto, existem “personagens” que cedo se destacam mesmo sem alcançar resultados de maior dimensão. Falamos de pessoas que cedo conseguem captar as atenções e simpatia dos que os rodeiam, atingindo um grande nível de popularidade antes de justificarem, na prática, esse reconhecimento. Seja por graça, pelo potencial talento, pelas habilidades ou aparência, essas são as figuras que as equipas procuram para agradarem aos patrocinadores, funcionando como um isco de financiamento. Peter Sagan foi tudo isto desde muito cedo, por todas a razões enumeradas e mais algumas.

Desde os festejos das vitórias, às palhaçadas no pódio, cavalinhos, interação com os adeptos e colegas de profissão, cortes de cabelo, bigodes e barbas, tudo fez as câmaras adorarem Sagan e Sagan adorar as câmaras. Muito antes de alcançar mais de 100 vitórias, vencer a Volta à Flandres, o Paris-Roubaix, 3 Campeonatos do Mundo seguidos, 8 camisolas verdes no Tour de France, Peter Sagan já era uma das maiores figuras do pelotão internacional.

As piadas e partidas de Peter Sagan foram uma das alavancas da sua popularidade. Fonte: bikesnob.cc

Para um atleta que atinge o topo mundial um dos grandes desafios da sua carreira é manter o nível de forma, e por consequência os resultados. É completamente compreensível que se falhe nesse propósito e que quem ontem era o melhor do mundo hoje possa não ser. As razões podem ser várias, lesões, trocas de treinador, trocas de equipa, cansaço, ou a própria fisiologia do atleta que já não funciona da mesma forma, novos atletas com mais talento, são variantes que podem alterar os resultados.

Por outro lado, é menos compreensível que uma figura que concentrou em si todas as atenções, passe cada vez mais despercebida aos olhos de todo o mundo.

O Tour de France de 2021 terminou e Peter Sagan abandonou na etapa 12 devido a lesão. Se pensarmos que desde 2012, primeiro ano em que correu o Tour, esta é apenas a segunda vez que o eslovaco não termina a prova, sendo que a primeira, em 2017, foi alvo de uma controvérsia e cobertura gigante uma vez que derivou de um expulsão, é estranho que este abandono tenha passado despercebido. Quase como se não tivesse acontecido.

Para um atleta que se transformou numa figura pública debaixo da sigla “Why so serious?” (porquê tanta seriedade?), e que utilizada como símbolo uma personificação sua da imagem do Joker, da banda de desenhada de Batman, é mais que alarmante a falta de presença que se sente por parte de Sagan.

Numa era de grandes e vários talentos no pelotão internacional, seria de esperar que, mesmo sem as vitórias a aparecer, o show da irreverência de uma personagem que chegou a ser apelidado de “Saganator” conseguisse competir com os nomes que dia a dia conquistam os adeptos do ciclismos.

Mas, pelo contrário, o que presenciámos no Tour de 2021, foram os ciclistas que dominam a modalidade na vertente desportiva a assumirem uma carácter cada vez mais parecido com o que popularizou Peter Sagan. Desde as palhaçadas de Tadej Pogacar durante as entrevistas dos seus colegas, à autoridade dos festejos de Van der Poel, a dinâmica e interação com os colegas durante a prova de Julian Alaphilippe, aos festejos com a claques de Wout Van Aert houve toda uma ascensão no espetáculo que há em torno do ciclismo para além de quem corta a meta em primeiro lugar.

Mesmo não sendo o mentor deste tipo de festejos, poderá dizer-se que foi o esloveno que mais popularizou os festejos com alguma extravagância! Fonte: cycling.today

Peter Sagan não venceu no Tour de 2021 e praticamente não se ouve falar no seu nome. Mas esta não é uma situação nova. Para além do ano de 2020, onde já era um atleta consagrado, 2015 e 2014 também foram anos onde Sagan não conseguiu vencer no Tour. No entanto nesse ano o show era uma constante de um atleta que dia a dia consolidava uma carreira com capas e titulos de jornais, mesmo sem vencer na prova mais importante do mundo.

Numa altura em que vai mudar de equipa e parece já ter um futuro assegurado, investir em Peter Sagan parece ser um investimento de risco, onde a base retorno é comprovadamente cada vez mais diminuta. A dúvida está então em perceber se foi a falta de resultados deriva de uma personalidade mais apagada, ou, pelo contrário, se uma personalidade mais apagada deriva da falta de resultados, embora esta segunda hipótese não terá sido problema no início de carreira de tricampeão mundial. Seja como for, Sagan ainda faz falta ao ciclismo, vencendo ou não corridas.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter