O andebol nos Jogos Olímpicos 2020: Uma estreia histórica e… amarga

Bernardo GalanteAgosto 7, 20215min0

O andebol nos Jogos Olímpicos 2020: Uma estreia histórica e… amarga

Bernardo GalanteAgosto 7, 20215min0
Portugal não conseguiu passar da fase-de-grupos do andebol nos Jogos Olímpicos, mas o futuro poderá ser positivo, como explicamos nesta análise

Após uma qualificação histórica do andebol para os Jogos Olímpicos, o selecionador Paulo Jorge Pereira, carregado de muita ambição, apontava às medalhas. Porém, praticamente nada correu como planeado, culminando numa eliminação precoce na fase de grupos da competição.

O PRIMEIRO PERCALÇO CHEGOU EM… LISBOA

A caminhada da Seleção Portuguesa de Andebol começou a correr de forma indesejada, precisamente, em Lisboa – à partida para Tóquio. O voo da comitiva portuguesa foi cancelado, devido à greve da Groundforce, o que motivou desde cedo críticas do selecionador nacional, Paulo Jorge Pereira. “Ainda há pouco falei dos direitos humanos, acho que toda a gente tem direito a lutar pelos seus, mas a partir do momento em que toca nos direitos dos outros é preciso reflectir antes de tomar decisões”, salientou. “Isto não depende de nós, e estamos a tentar adaptar-nos àquilo que surja. Vamos tentar manter o nosso foco naquilo que nos levou a Tóquio”, concluiu em declarações à Antena3, no dia 17 de julho.

AS DIFICULDADES PROVENIENTES (TAMBÉM) DE UMA CONVOCATÓRIA ATÍPICA

As primeiras dificuldades, antes da competição, surgiram no momento da convocatória final. Depois de em janeiro deste mesmo ano civil, Paulo Jorge Pereira ter levado 20 jogadores até ao Egito para disputar o Mundial, aqui a situação seria bem diferente. Apenas poderiam ser convocados 15 atletas, sendo que 1 deles não poderia constar na ficha de jogo.

Belone Moreira seria, imediatamente, a primeira baixa da Seleção Portuguesa devido a lesão, perspetivando a presença (quase certa) de João Ferraz em detrimento do atleta do FC Porto, Diogo Silva. Ferraz foi, portanto, o único lateral canhoto a viajar. A estratégia de Paulo Jorge Pereira estava, desde cedo, bem alinhavada – garantir a presença de quatro pivôs seria algo prioritário, de modo, a adotar o tão característico 7×6 português. Devido a essa estratégia delineada pelo selecionador, teriam de ser sacrificados jogadores de outras posições.

O guarda-redes Manuel Gaspar, o ponta-esquerdo Leonel Fernandes e os laterais Diogo Silva e Gilberto Duarte foram, inicialmente, os sacrificados do selecionador. Alexandre Cavalcanti num treino a anteceder um jogo amigável contra a Argentina, acabou por sofrer uma entorse, sendo substituído pelo atleta do Montpellier HB, Gilberto Duarte.

PRESTAÇÃO ABAIXO DAS EXPECTATIVAS TRAVA SONHO PORTUGUÊS

O sonho português de chegar a uma medalha olímpica, morreu cedo, devido à queda dos Heróis do Mar na fase mais precoce da competição. Num grupo, onde surgiam como obstáculos as seleções da Dinamarca (Campeã Olímpica e Mundial), Suécia (Vice-Campeã Mundial), Egito (campeão africano), Bahrein e Japão – o país organizador destes Jogos Olímpicos -, os guerreiros lusos não foram além de 1 vitória e 4 derrotas com apenas 2 pontos, culminando numa prematura eliminação.

Desde cedo, notou-se uma clara ansiedade por parte dos jogadores, visto que era uma estreia para todos eles. Este fator foi um alicerce de tantos outros que fomos referindo ao longo das jornadas, derivado à falta de experiência da nossa seleção, neste tipo de competições. O efeito do jet-lag, a lesão de Alexandre Cavalcanti, a vinda tardia de Gilberto Duarte, a preparação feita em contra-relógio, entre outros fatores – contribuíram para que estes Jogos Olímpicos fossem vistos como um ponto de partida.

Apesar disso, exibicionalmente, a Seleção Portuguesa esteve muito longe daquilo que era esperado – e, mesmo daquilo que apresentou em campo nas últimas competições em que participou. A inconsistência defensiva e ofensiva foi notória, as situações de 1×1 e 2×2 na defesa portuguesa foram uma dor de cabeça ao longo das jornadas e a baixa eficácia foi outro problema… tudo isto originou o efeito “bola de neve”, atirando Portugal para casa.

O ponto positivo destes Jogos Olímpicos foi o regresso de João Ferraz, tendo mesmo sido o melhor marcador português com um total de 18 golos, nesta competição. Não só o regresso à convocatória, mas também por ter sido o sinal mais que esteve apagado durante algum tempo, que acabou, na altura, a ficar de fora de algumas convocatórias recentes. Na baliza, Gustavo Capdeville sempre que foi chamado, mostrou que será o próximo dono das redes nacionais, a curto prazo.

TERÁ PAULO JORGE PEREIRA CONDIÇÕES PARA CONTINUAR?

Sim. Paulo Jorge Pereira tem condições para continuar a liderar um projeto que tem todas as condições para ser vencedor, a médio prazo. A continuidade, deverá mesmo ser o que impera nas instalações da Federação de Andebol de Portugal.

No desporto, vive-se do presente e não do passado, mas é necessário relembrar que uma seleção como a portuguesa terá de ser encarada como um projeto de médio ou longo prazo. Desde a sua chegada ao comando técnico luso, em 2019, que Portugal voltou a marcar presença nas grandes provas de seleções a nível europeu e mundial – acabando também por terem sido batidos recordes, a nível classificativo. A exigência tem vindo a aumentar e isso faz com que o seu lugar esteja em constante avaliação.

O andebol português vive um momento de ouro. Após o 6º lugar conquistado no Europeu de 2020 – a melhor prestação de sempre do andebol português – , realizado na Noruega e na Suécia, os heróis do mar têm vindo a trilhar um percurso ascendente com perspetivas bastante positivas para o futuro. Ao Europeu, junta-se a participação no Mundial de 2021 e ainda uma histórica presença nos Jogos Olímpicos. Feitos extraordinários para um país que esteve 16 anos sem marcar presença entre a elite do andebol europeu e mundial.


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