Ajustes e mudanças no judo em Portugal e o Mundial de juniores

João CamachoOutubro 14, 20217min0

Ajustes e mudanças no judo em Portugal e o Mundial de juniores

João CamachoOutubro 14, 20217min0
Da saúde mental à mudança de papéis, sem esquecer o Mundial de juniores, João Camacho traz as novidades do judo nacional neste artigo

Com os calendários competitivos no judo a recomeçarem, finalmente, temos observado algumas mudanças. Alguns atletas retiraram-se, outros mudaram de categoria de peso, e outros ainda assumiram novas responsabilidades. É o caso de Joana Ramos, esta fantástica e experiente Judoca, com um vastíssimo currículo, que se retirou da alta competição após os jogos Olímpicos de Tóquio, e assumiu, há poucos dias, um relevante cargo na equipa técnica nacional. Por outro lado, o devastador impacto da pandemia na saúde mental dos atletas começa a ser noticia, infelizmente, pelas piores razões.

Saúde mental nos atletas

Com a pandemia, o mundo foi forçado a adaptar-se a uma nova lógica social. As medidas para evitar a disseminação da doença tiveram um impacto terrível na saúde mental. O Judo não foi exceção e a saúde mental de muitos atletas, a vários níveis, foi inevitavelmente afetada.

Este impacto reflete não só o medo instalado, alimentado pelos media e pelas redes sociais que, muitas vezes sem qualquer critério ou rigor, desinformaram mais do que informaram, mas sobretudo tem que ver com a quebra da rotina que os atletas, especialmente os de alta competição, enfrentaram durante todo este período. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos da América, confirmou que um em cada cinco atletas se sentiu desmotivado para treinar durante a quarentena e cerca de 22,5% apresentaram quadros depressivos em mais da metade dos dias da semana.

Os alarmes tocaram, e de que maneira, quando a super campeã norte americana, Simone Biles, desistiu em plenos jogos Olímpicos da maioria das provas da competição de Ginástica Artística. A ginasta, de 24 anos, considerada uma das melhores da história desta modalidade, justificou a sua decisão com fragilidade psicológica. Biles disse querer manter a sua sanidade e revelou ter menos confiança em si do que tinha anteriormente.

No Judo, há questão de dias, foi a vez da Vice-Campeã do Mundo de 2019, a Portuguesa Bárbara Timo, numa entrevista à Lusa, partilhar a sua história que igualmente faz pensar

Segundo referiu, os primeiros sinais de que algo não estava bem surgiram com a perda inexplicável de peso, mas Bárbara Timo reconhece que o seu desequilíbrio, sendo o resultado de um aglomerado de situações da sua história pessoal, foi fortemente agravado pela pandemia e tudo o que esta implicou – isolamentos, restrições de todo o tipo -, acabando por ter um enorme peso para a depressão que a viria a atingir ainda em 2020, que se prolongou e para a qual procurou ajudou médica já este ano:

“Foram vários fatores, momentos de stress que levaram a esse diagnóstico, mas o pico de stress foram mesmo os Jogos Olímpicos, e depois foi difícil, por tudo o que procurei, tudo o que troquei na minha vida”.

Com efeito, em 2018 a judoca deixou o Brasil apostando tudo numa carreira desportiva em Portugal, primeiro quando assinou pelo Benfica, e, depois, a partir de 2019, já ao serviço da seleção portuguesa.

Bárbara não é um caso isolado, cada vez mais a saúde mental dos atletas é uma preocupação e tema de debate. Jorge Fonseca e Telma Monteiro partilharam, publicamente, o papel decisivo que os psicólogos, que os acompanham, têm na sua prestação e estabilidade emocional.

Há que estar atento, muito atento, porque agora que, tudo indica, estamos prestes a sair desta crise pandémica, vamos ter de lidar com a ressaca de todas as medidas, e não vou entrar na apetitosa discussão da proporcionalidade e lógica das mesmas. Porque os danos estão lá, é fundamental o acompanhamento dos atletas e que existam condições, acima de tudo humanas, para uma pronta intervenção, e todos sabemos como a saúde mental, infelizmente, é tratada no nosso país… .

Campeonato do Mundo de Juniores

A cidade Italiana de Olbia recebeu, no início de Outubro, os campeonatos do Mundo de Juniores. A maior competição mundial do escalão contou com a presença de 490 Judocas (208 Femininas e 282 Masculinos) em representação de 72 Países, incluindo 8 Judocas Portugueses. Uma competição marcada por ausências de peso, das quais destaco a equipa do Japão, o que retirou alguma espetacularidade e grau de dificuldade.

A Seleção Nacional de Juniores presente em Itália foi composta por 4 Atletas Femininas e 4 Masculinos: Raquel Brito (48 kg), Teresa Santos (52 kg), Teresa Trindade (57 kg), Joana Crisóstomo (70 kg), Bernardo Tralhão (60 kg), André Diogo (66 kg), Miguel Gago (66 kg) e Rodrigo Boavida (90 kg), e pelo treinador Marco Morais.

A prestação portuguesa foi globalmente positiva, com vários atletas Lusos a vencerem combates. Pela negativa, destaco o insucesso de Joana Crisóstomo, que era uma das fortes candidatas à medalha na categoria dos 70Kg, depois da medalha de bronze brilhantemente conquistada nos campeonatos da Europa deste escalão, que decorreram em Setembro, no Luxemburgo. Joana foi surpreendida, logo no primeiro combate, pela atleta porto-riquenha Sairy Rodriguez, que não sendo oriunda de um país com muita tradição no Judo, é presença assídua nos tapetes de vários clubes espanhóis, país onde reside.

Circuito Mundial

O Circuito Mundial regressou no final de Setembro com o Grand Prix de Zagreb. Uma competição marcada pelas ausências dos principais atletas deste circuito. Uma etapa que marca o processo de renovação, típico de uma competição pós Jogos Olímpicos, com muitas caras novas, que entram agora na corrida por uma vaga nos Jogos Olímpicos de Paris, numa janela de qualificação olímpica que terá inicio já no próximo mês de Janeiro. Será uma qualificação muito intensa, mas, esperamos, sem os percalços e surpresas que caracterizaram o caminho até Tóquio.

Majlinda Kelmendi, atleta Kosovar Campeã do Mundo e Olímpica, que entrou para a história quando nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, conquistou a primeira medalha Olímpica (ouro) da “curta” história deste pequeno país dos Balcãs, aproveitou a ressaca pós Jogos Olímpicos para anunciar a sua retirada da alta-roda do Judo. Trata-se de uma atleta que marcou uma geração e um país, que no Judo continua a dar cartas. Relembro que em Tóquio tiveram duas atletas campeãs Olímpicas. Resta agradecer a esta fantástica atleta, exemplo de superação, com uma enorme capacidade de sacrifício e de trabalho! Que sirva de inspiração a todos os jovens Judocas!

Por cá tivemos algumas alterações de peso, no sentido literal da palavra, para além da saída de Joana Ramos e das novas responsabilidades assumidas com um lugar na equipa técnica Portuguesa. Anri Egutidze subiu para os 90Kg, João Crisóstomo subiu para os 73Kg e Bárbara Timo desceu para a categoria dos 63Kg, situação que, em abono da verdade, não é frequente, mas cujas razões já foram explicadas neste artigo.

Ou seja, um novo ciclo está a começar e, mais que nunca, não me canso de repetir, é imprescindível estar atento, especialmente alerta, pois só agora começamos a ter noção do impacto devastador desta epidemia que durante mais de um ano e meio nos isolou, nos separou dos nossos amigos, família, colegas e nos impediu de fazer aquilo de que mais gostamos.

É fundamental termos a consciência de que está na hora de recomeçar tudo o que nas nossas vidas ficou em suspenso, de ir à luta, de estabelecer objetivos, mas com realismo e bom senso porque, que fique claro, muito dificilmente tudo será como dantes…


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