A época do andebol do Sporting CP: lições, surpresas e os MVP’s

Tiago BotelhoJunho 6, 202211min0

A época do andebol do Sporting CP: lições, surpresas e os MVP’s

Tiago BotelhoJunho 6, 202211min0
Um 2º lugar no Campeonato Andebol 1, e uma boa época europeia, contam alguns momentos deste "novo" Sporting CP analisado por Tiago Botelho

O campeonato terminou. O FC Porto acabou de se sagrar tri-campeão (com um ano de interregno pelo meio, onde o campeonato não terminou devido à pandemia), o Benfica fez história ao vencer a EHF European League e o Sporting assegurou o 2º lugar do campeonato, mas a época ainda não acabou e ainda existe uma final four da Taça de Portugal por disputar.

Apesar de tudo, parece ser já possível fazer uma breve análise ao que se passou no andebol do Sporting, independentemente daquilo que ainda possa acontecer. Até porque as análises devem sempre ser feitas, sem ter “só” em consideração, o nº de títulos que se ganham, ou deixam de ganhar. Nunca devemos esquecer a velha máxima: “Nem sempre está tudo bem quando se ganha!” e “Nem sempre quando se perde está tudo mal!”.

Esta foi uma época de renovação no andebol do Sporting. Já o seria sem a saída de Pedro Valdés, mas a súbita mudança do cubano para o FC Porto, acelerou esse processo.
Desde à troca do director, troca do treinador e ao “roubo” de dois dos mais promissores andebolistas nacionais, quase tudo aconteceu ao Sporting ainda antes da época começar.
Inicialmente, o próprio director, Carlos Carneiro, disse que, o Sporting não seria candidato assumido ao título e sim, candidato a ganhar todos os jogos. No final, far-se-iam as contas – É a velha máxima do futebol, “pensar jogo a jogo”, aplicada neste caso, ao andebol.

O pensamento não poderia ser o mais acertado. O Porto acabou por fazer uma renovação maior do que o esperado, embora continuasse muito forte, o Benfica investiu como nunca, trazendo jogadores de elevada valia e tornando-se, quiçá, a equipa mais cara de sempre do andebol nacional e o Sporting surgia como uma equipa jovem, mas com muito potencial de crescimento.

Aquilo que vimos na fase inicial da época foi isso mesmo. Um Sporting que foi quase sempre ganhando os seus jogos internamente, salvo a derrota na Final da Supertaça, ante o FC Porto (logo no início da temporada) e as derrotas europeias, que iam demonstrando algumas fragilidades da equipa e sobretudo, a sua inconsistência devido às dores de crescimento. A derrota no Dragão Arena, por um golo, deixou um amargo de boca aos leões que, já haviam conseguido surpreender o Benfica em pleno pavilhão da Luz.

Com a qualificação para a fase seguinte da EHF European League, conquistada na última jornada, o Sporting parte para a 2ª metade da época, com uma equipa mais adulta e consistente, já com Martim Costa a jogar em pleno e com o seu irmão, Francisco Costa como dono e senhor da lateral direita. O resultado? Vitórias em quase todos os jogos internos, incluindo sobre o Benfica no Pavilhão João Rocha e uma grande eliminatória (decidida nos momentos finais, na Alemanha) frente a uma das melhores equipas da actualidade – O Magdeburgo.

O único revés? A derrota no jogo do título, em pleno Pavilhão João Rocha, frente ao FC Porto. Uma época positiva, face aquilo que se poderia esperar no início da temporada e que deixa curiosidade para perceber o patamar aonde esta equipa pode chegar.

Os Destaques:

Martim Costa – Sem qualquer surpresa. Só regressou da grave lesão em Outubro de 2021, mas foi fundamental para o crescimento da equipa na segunda metade da época, conseguindo suplantar Salvador Salvador e Edmilson Araújo, na lateral esquerda. O anterior super goleador do campeonato nacional, terá agora que dividir o protagonismo na equipa, com o mano mais novo. Na próxima época, se não for contratado um novo lateral esquerdo, deverá ter um papel de maior destaque.

Jonas Tidemand – Meio desconhecido para o público português, trazia consigo a reputação de ser bom defensor e de estar às portas da selecção dinamarquesa. Embora esta segunda afirmação possa ser algo exagerada, confirmou a primeira na sua plenitude. Um dos melhores da época no Sporting, sobretudo em termos defensivos. Vai acabar como um dos mais utilizados, quer em termos de jogos, quer em termos de minutos.

Nathan Suaréz – O Sporting precisava da sua dinâmica e de um central que imprimisse maior velocidade e imprevisibilidade, e o espanhol trouxe tudo isso. Um dos mais influentes na manobra e um dos imprescindíveis para Ricardo Costa. Vai terminar a época como um dos mais utilizados, quer em número de jogos, quer em minutos. Necessita de ser mais regular na próxima época.

Francisco Costa – Já todos sabiam e falavam sobre o seu potencial. Francisco mostrou, não só em Portugal, mas também na Europa, o craque que já é e aquilo que pode vir a ser. Fantástico é a palavra que melhor o define. Desiquilíbrio individual, leitura de jogo, tomada de decisão, capacidade de finalização – Francisco Costa tem tudo isso! E ainda só tem 17 anos…

A chave de ouro para esta época, teria sido o título nacional, caso os seus 19 golos frente ao FC Porto tivessem feito a diferença, mas acho que Francisco e a restante equipa vão querer vingar-se na Final Four da Taça de Portugal.

Francisco Tavares e Mamadou Gassama – Para Francisco acho que foi a sua época de afirmação, pois até agora tem sido totalista em todos os jogos. O único no plantel com este estatuto! E mesmo com os irmãos Costa, vai terminar novamente como um dos melhores marcadores da equipa (top 3). Creio que a época só não foi melhor, porque muitas vezes Gassama tem que jogar, pois com Kiko Costa em campo, é necessário que o espanhol, defenda na posição 2.

Já Mamadou Gassama, fez uma boa 1ª época em Portugal. Defensor bastante competente, mesmo quando o faz na posição de lateral, é no campo aberto que faz a sua diferença. Muito atlético é capaz de abrir ângulos quando solicitado da ponta, conseguindo finalizar mesmo em situações mais apertadas (ele que não é um jogador com muitos recursos técnicos).

Jens Schongarth – O alemão assumiu um papel de maior destaque ofensivo na 1ª metade desta época. A mudança de treinador e consequentemente do estilo de jogo, bem como a entrada de um central mais dinâmico (Nathan Suaréz), fez maravilhas ao seu jogo. Acabou por perder destaque, com a subida de influência de Francisco Costa, mas continuou a mostrar a sua competência no lado defensivo. É uma boa opção para dar minutos de descanso ao Kiko.

Manuel Gaspar – Para mim não foi a sua melhor época em termos exibicionais, mas foi muitas vezes obrigado a assumir a baliza como principal opção e demorou até surgir em melhor forma. O futuro passa por aqui e nada me tira da cabeça que quanto maior a competitividade pelo lugar nos treinos, melhor será a performance nos jogos.

Ricardo Costa – Trouxe maior rigor físico, liderança e sobretudo outra vivacidade ao andebol do Sporting. A equipa foi crescendo ao longo da época, mostrando evolução e boa presença nas alturas das decisões (jogos frente a Porto, Benfica e eliminatória da EHF). É isso que se quer. Só faltam os títulos.

As supresas:

Yassine Belkaid – Foi contratado para ser 3º guarda-redes da formação verde e branca e embora muitos lhe reconhecessem o potencial, acabou muitas vezes por justificar ser a 2ª opção e não a 3ª. Acaba a época a participar em mais de 37 jogos (à data da escrita deste artigo)! A confirmar-se a vinda de Leo Maciel, poderá perder tempo de jogo, pois o Argentino (ex-Barça) é um guarda-redes muito seguro e consistente. E ainda há Manuel Gaspar…

Hanser Rodríguez – Um de três cubanos que chegou para o andebol do Sporting, ao abrigo de um protocolo com a federação cubana. Dos três era aquele que vinha mais preparado para jogar e confirmou isso mesmo na ponta esquerda do Sporting. Vai terminar a época com cerca de 20 jogos nas pernas e a reclamar mais minutos na próxima época, sobretudo em jogos do campeonato nacional.

Próxima época

Este plantel do Sporting que, carece de correcções e reforços pontuais de ano para ano, foi pensado para dentro de 2/3 anos estar no seu pico. Estamos a entrar no 2º ano e se, o Sporting quiser lutar de forma mais efectiva pelo título, necessita de reforçar a sua baliza, a posição de pivô, a lateral esquerda e provavelmente a posição de central, devido à grave lesão de André José, que o vai afastar da primeira metade da próxima época.

Correm rumores de que já estarão assegurados Leo Maciel, guarda-redes argentino do Barcelona e Patryk Walczak, pivô polaco do Vardar, da Macedónia. Se o primeiro apresenta-se como um guarda redes experiente, seguro e bastante consistente, o segundo apresenta-se como sendo principalmente um bom defensor, embora também ataque.

Se é verdade que, que a posição defensiva de pivô, era uma lacuna no Sporting, algo que os adeptos já pedem há muito tempo, também é verdade que desde a saída de Luís Frade o Sporting deixou de ter um bom pivô ofensivo que, consiga abrir espaços não só para os colegas, mas para também ele receber, rodar e finalizar aos 6 metros. Foi visível a falta de jogo de 2×2, entre central e pivô, esta época. E isto é fundamental para a manobra ofensiva de qualquer equipa que tenha pretenções a lutar por títulos! Basta ver aquilo que Rogério Moraes e Alexis Borges, contra o Magdeburgo na Final da EHF European League.

A contratação dum pivô bom em ambos os lados do campo, será fundamental para a próxima época.

A lesão grave de André José, deixará o Sporting CP órfão de um central pelo menos na primeira metade da época. A ida ao mercado, ou a manutenção por mais um ano de Carlos Ruesga, podem estar em cima da mesa.

Na minha opinião, o Sporting necessita também de um lateral esquerdo, experiente, com uma maior capacidade rematadora aos 9 metros, algo que Edmilson e sobretudo, Salvador Salvador, só conseguiram trazer, a espaços, ao ataque.

Como sempre, não acho que o Sporting invista o suficiente para trazer os 2 jogadores, pelo que existem várias opções, sendo provável que seja o mercado a ditar a solução final:

  • O Sporting contrata apenas 1 jogador que faça ambas as posições;
  • O Sporting contrata um lateral esquerdo, passando Martim a ter uma dupla função sempre que necessário – lateral/central;
  • O Sporting contata um central, mantendo o lote de 3 laterais esquerdos que tem;
  • O Sporting não contrata ninguém, acabando por manter os 3 laterais que tem e renovando por mais um ano com Carlos Ruesga;
  • O Sporting assume que, sobretudo, Salvador Salvador é esse lateral e não contrata ninguém nem para lateral, nem para central, nem mantém Ruesga por mais um ano.

Veremos qual a solução encontrada, mas aceitam-se apostas!

A manutenção de todos os outros jogadores do plantel deverá estar assegurada (com excepção de Skok e eventualmente, Ruesga), e considerando uma situação ideal de haver orçamento suficiente, eu trocaria Josep Folqués por um ponta com outros recursos técnicos em termos ofensivos, mas que também defenda.

Os rivais vão continuar igualmente fortes – o Porto já anunciou vários reforços de qualidade e o Benfica deverá repor as saídas com qualidade e vai tentar apostar novamente na europa – por isso, a próxima época continuará a ser, mais uma, onde o Sporting poderá partir no último lugar do pódio, embora possa ser também uma época de afirmação desta equipa.

Com a chegada cada vez mais de atletas com muita qualidade, a época 2022/2023 tem tudo para ser tremenda!


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