A Caminho de Paris 2024: a qualificação do judo português para os JO

Francisco IsaacJunho 30, 20226min0

A Caminho de Paris 2024: a qualificação do judo português para os JO

Francisco IsaacJunho 30, 20226min0
João Camacho volta à sua coluna sobre o judo nacional, com os olhos já colocados na qualificação para os Jogos Olímpicos de 2024

A janela de qualificação para os Jogos Olímpicos de Paris – do judo e outras modalidades -, agendados para o verão 2024, arrancou em junho. O Grand Slam de Ulan-Bator, que decorreu este fim-de-semana, já atribui pontos para o ranking de qualificação e Jorge Fonseca arrancou com o pé direito, com a conquista da medalha de prata na categoria dos 100Kg.

Qualificação para Paris 2024

Foi difícil, esteve para não acontecer, mas os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 acabaram por se realizar com um ano de atraso. No judo, Portugal teve a sua melhor prestação de sempre, com o bronze de Jorge Fonseca e o 5.º lugar de Catarina Costa. A qualificação Olímpica para Paris 2024 arranca neste mês de junho e nos próximos dois anos, ficará definido quem estará presente no regresso da Olimpíadas ao continente europeu.

Existe muita expectativa, será a equipa portuguesa capaz de superar o que conquistou em Tóquio? É certo que a vasta maioria dos judocas portugueses que estiveram em Tóquio irá lutar pela qualificação., A exceção é Joana Ramos, que aos 39 anos se retirou, após uma carreira notável, com muitas conquistas e momentos marcantes para o judo português. Telma Monteiro irá lutar pela sexta presença consecutiva nuns jogos olímpicos. Não há muito mais para escrever sobre o contributo e a excelência desta fabulosa atleta, talvez agradecer, insistentemente, o privilégio que é acompanhar este percurso.

Jorge Fonseca sonha, com toda legitimidade, em melhorar o bronze de Tóquio, e pelo que temos observado do atual Bicampeão do Mundo, podemos acreditar que é possível, apesar da “imprevisível” competitividade desta categoria de peso. A prova deste compromisso foi a medalha de prata conquistada no dia 26 de Junho, na primeira prova a contar para a qualificação olímpica, o Grand Slam Ulan-Bator. Catarina Costa, depois de um brilhante 5.º lugar nos Jogos de Tóquio, vai apostar forte em melhorar esta notável classificação, e a fantástica prestação nos últimos campeonatos da Europa de Sofia, onde conquistou a medalha de prata, são a prova cabal deste plano.

Dos restantes aspirantes à presença olímpica, estou convicto que Barbara Timo, Rochele Nunes e Anri Egutidze irão carimbar a qualificação para Paris. As minhas dúvidas estão na categoria dos 60Kg, pois Francisco Mendes e Rodrigo Lopes, apesar da qualidade e evidente melhoria nas suas prestações, terão de ser mais consistentes e esta categoria está muito competitiva, com muitos judocas de qualidade.

Na categoria masculina dos 73Kg, com muita tradição no judo português, João Crisóstomo, depois de ter falhado a qualificação para Tóquio nos 66Kg, poderá ser uma aposta válida, mas se os 66Kg foram complicados, os 73Kg serão certamente ainda mais, pois trata-se de uma das categorias de peso mais concorridas e competitiva da atualidade.

Na categoria masculina dos 81 Kg, João Fernando, atleta com enorme potencial, irá tentar a qualificação, mas os resultados no circuito mundial (IJF World tour), que mais pontos atribuem para o ranking de qualificação, tardam em aparecer, e fica a ideia que existe um qualquer bloqueio que impede João de dar o salto, pois fisicamente e tecnicamente apresenta condições mais que suficientes.
A corrida começou, agora é trabalhar, trabalhar muito, ser resiliente e saber sofrer. Serão dois anos de muita emoção, certamente com momentos menos positivos, algumas desilusões, mas com muitas conquistas que culminarão com a presença na mais prestigiante competição da carreira de um judoca, Os Jogos Olímpicos.

Catarina Costa (Foto: IJF)

Judo além dos tapetes

Nos últimos 25 anos, o judo português tem acumulado um conjunto notável de resultados desportivos. Títulos mundiais e europeus, medalhas olímpicas. No entanto, só em 2004, em Atenas, tivemos um árbitro presente na competição olímpica de judo, o momento mais importante, a consagração da excelência da carreira de um árbitro. Carlos Duarte foi o árbitro português eleito.

O processo de seleção é muito rigoroso, no entanto, lamentavelmente, está envolvido em polémica pois, com frequência, temos observado uma politização do mesmo, com decisões, e critérios, que têm o intuito de satisfazer determinados interesses. Nuno Carvalho, um dos melhores árbitros que tive oportunidade de observar, a nível mundial, foi inexplicavelmente excluído dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Nuno Carvalho era um árbitro de elite mundial, arbitrou diversas finais em campeonatos do mundo, era presença assídua nas diversas etapas do circuito mundial e a sua qualidade e consistência eram evidentes ,sendo , inclusive pelos seus pares, considerado um dos melhores árbitros do mundo.

A arbitragem portuguesa voltou a ser notícia esta semana. Paula Saldanha, Atleta Olímpica, 7.º lugar nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 e Vice-Campeã da Europa em 1999, foi promovida a árbitra do quadro internacional da Federação Internacional de Judo. Paula Saldanha passa a ser elegível para arbitrar competições internacionais e a aspirar a uma presença nos Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles!

No trabalho de bastidores, onde Portugal tem brilhado, Catarina Rodrigues, antiga atleta da seleção nacional, com um vasto currículo onde se destaca um bronze nos Campeonatos do Mundo de Munique, em 2001, foi eleita Head Sport Director da União Europeia de Judo. É a 1.ª vez que uma mulher ocupa o cargo, para o qual desde 2012 não era designado ninguém.

O sucesso na organização dos Campeonatos da Europa de Lisboa, em 2021, das diversas etapas do Circuito Europeu de Cadetes e Juniores e, recentemente, o estrondoso sucesso da etapa do Circuito Mundial, que pela primeira vez visitou o nosso país no início do ano, são a prova inequívoca de que temos “gente” com uma fantástica capacidade de montar e coordenar a organização destes eventos e de como estamos empenhados em ser uma referência. E termino reafirmando a constatação que o momento atual evidencia: O judo português recomenda-se, destaca-se dentro e fora dos tapetes.

Contudo, não posso deixar de voltar a referir que há sinais preocupantes no que respeita ao desejável processo de renovação da experiente equipa de séniores, a principal montra do judo português. Os resultados dos jovens atletas que deveriam estar a subir e assumir um lugar na equipa principal, em que muitos judocas rondam, ou ultrapassam, os trinta anos de idade, teimam em não aparecer e corremos o sério risco, depois de praticamente duas décadas com um conjunto de resultados de excelência, de regredir para prestações medianas, com resultados pontuais ou fruto do acaso.

O que está a ser feito? Qual o plano estratégico para desenvolvimento do judo? Como se está a mitigar o brutal impacto dos dois anos de crise pandémica?

Jorge Fonseca (Foto: IJF)

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