Treinadores portugueses para dar e vender… e liderar projectos

Francisco IsaacJulho 28, 20208min0

Treinadores portugueses para dar e vender… e liderar projectos

Francisco IsaacJulho 28, 20208min0
Daniel Ramos, Vítor Oliveira ou Carlos Carvalhal não vão continuar à frente dos clubes que lideraram nesta época e a Liga NOS 2019/2020 vai sofrer uma roda-viva de treinadores portugueses a entrar e a sair. Quem vai assumir que projecto?

O fim da Liga NOS 2019/2020 proporcionou algo que foi pouco visto nos últimos anos, uma saída em debandada de vários dos técnicos que compunham o ramalhete nesta Primeira Liga. Com seis treinadores já na porta de saída, existem outros cinco que podem seguir pela mesma via após o fecho das contas do campeonato e será interessante não só perceber qual será a direcção tomada por cada um, mas quais os clubes que apreciariam a perícia de cada um à frente da equipa sénior – Nélson Veríssimo não entra nestas contas, uma vez que nunca iria permanecer como treinador-principal no SL Benfica.

VÍTOR OLIVEIRA

Um dos treinadores mais conceituados do futebol português e que tem garantido excelentes resultados em todas as equipas que assumiu nos últimos 10 anos, com a última campanha do Gil Vicente na Primeira Liga a merecer um destaque especial, pois lembrar que o emblema de Barcelos subiu administrativamente da Ledman Pro para a Liga NOS, reformulando profundamente um plantel que nunca se apresentou sempre grandes nomes. Depois de um brilhante 10º lugar conquistado, o treinador de 66 anos está sem clube e começam a surgir os vários rumores em redor do seu futuro, dependendo tudo das condições oferecidas pela direcção do possível novo clube.

Se voltar ao segundo escalão de futebol, o Feirense, GD Chaves ou Estoril-Praia são ambos emblemas com algum fundo de maneio, permitindo recrutar jogadores que encaixem no perfil pretendido, conseguindo assim estruturar qualquer um destes possíveis destinos como candidato à subida. É um treinador exigente tanto para o plantel como direcção, e pode sê-lo pelo número de conquistas alcançadas, as subidas garantidas e as boas classificações somadas numa carreira que começou em 1985 à frente do Portimonense – os algarvios podem ser outro clube com capacidade para convencer um 3º retorno do treinador a uma “casa” que conhece bem.

CARLOS CARVALHAL

O Rio Ave apurou-se para a Liga Europa na última jornada da Liga NOS 2019/2020 e grande parte do mérito vai para o trabalho apaixonante, sério e cerebral de Carlos Carvalhal, que merecia chegar novamente ao patamar mais elevado do futebol português ou de receber um convite de um emblema das Big-5. Carvalhal conquistou comentadores, antigos jogadores, adeptos e até treinadores adversários, pelo futebol que foi capaz de aplicar na formação vilacondense, insistindo numa estratégia de bola sempre em circulação e em velocidade, com uma afirmação total do querer forçar ao adversário tentar jogar em profundidade ou de tentar fugir o mais possível do centro do terreno de jogo, permitindo assim um controlo bem “agressivo” no tabuleiro de jogo, sem esquecer a facilidade em desdobrarem boas situações de ataque com triangulações de fino recorte. O Rio Ave não foi capaz de convencer Carlos Carvalhal a ficar e agora, como o próprio técnico diz,

“Claro que estou satisfeito, nunca na vida tive tantas oportunidades em mãos. Tenho várias, em Portugal, em Inglaterra e noutros países, é melhor não falar. Estou muito feliz com isso. É também, no fundo, a repercussão de uma época de grande qualidade.”

Para onde irá? Inglaterra? França? Brasil? Ou ficar em Portugal e rumar em direcção a terras do Minho ou, caso aconteça algo no FC Porto, poderá ser um candidato sério ao lugar?

DANIEL RAMOS

O Boavista garantiu a permanência cedo e Daniel Ramos merece ser ovacionado pelo trabalho realizado ao serviço da formação axadrezada, que acabou por rejeitar em renovar com o técnico, levantando-se críticas para com a direcção do emblema portuense.

O técnico que já passou por Marítimo, GD Chaves, Rio Ave, entre outros, tentou evitar uma queda do Boavista para lugares mais perigosos da tabela, tendo conseguido a certa altura dar o salto de 12º para 7º, isto à passagem da 20ª jornada, num momento em que aquela agressividade física e táctica tentou ser mais desperta e positiva na frente-de-ataque… contudo, a parte final da época foi tumultuosa com quatro derrotas somadas nos cinco últimos jogos, o que acabou por resultar no ponto final de relação entre direcção e treinador.

Merecia Daniel Ramos uma segunda oportunidade no Bessa? Merecia, até porque se assistiu a uma subida de qualidade de jogo da equipa, mesmo tendo o plantel problemas sérios de qualidade – especialmente no banco de suplentes, onde raramente tanto Lito Vidigal como Daniel Ramos tiveram problemas em retirar valor – e com uma crise de confiança larga quando o técnico assumiu o lugar em Dezembro de 2019, superando a situação para garantir a manutenção. É um treinador que gosta de pensar, de trabalhar no sentido de ter uma equipa com presença na defesa e meio-campo, de procura incessante por acalmar o jogo, assumindo-se como penetrante através do contra-ataque e bolas paradas.

JOÃO HENRIQUES

O Santa Clara atingiu recordes pessoais na Liga NOS com um honroso 9º lugar, 43 pontos somados e algumas vitórias sonantes, onde o futebol sólido e inteligente foi capaz de garantir uma manutenção pacífica e que acabou com um final agridoce… a saída de João Henriques do emblema açoriano. O treinador subiu a pulso desde 2015 e depois de passagens de sucesso pelo Leixões, de garantir a manutenção do Paços de Ferreira e de marcar uma era no Santa Clara, quer agora outros voos e de chegar a um nível mais alto do que até agora alcançado.

Mas terá as condições para tal? Olhando para o perfil técnico, táctico e psicológico, tem mais que capacidade para assumir um dos emblemas de maior dimensão em Portugal e basta ver as melhores exibições produzidas pelo Santa Clara nestas duas últimas épocas, em que a agressividade táctica combinada uma aceleração da passada pelos corredores e uma atitude resiliente procuram criar desequilíbrios constantes à equipa adversária.

Falta um pouco mais de sentido de risco, uma vez que João Henriques gosta de se apoiar numa estratégia mais pensada e de controlo, não deixando de ter o seu quê de apaixonante e estimulante. É um treinador com um perfil ganhador, motivado em melhorar o clube, postulando uma atitude séria e de procura por conhecimento de benefício total para o plantel às suas ordens.

IVO VIEIRA

O Vitória Sport Clube pode não ter chegado aos lugares europeus, mas o futebol dos vimaranenses foi de qualidade encontrando-se uma intensidade elevada e com mecanismos de jogo interessantes, que incomodaram os primeiros quatro classificados durante toda a temporada, e que teve dedo directo de Ivo Vieira.

Depois de uma época excepcional à frente do Moreirense, o treinador de 44 anos tentou garantir nova presença dos vitorianos na Liga Europa, mas acabou por ficar a 5 pontos desse objectivo, apesar de ter superado o registo de golos marcados da época passada, com uma subida de mais 7 tentos concretizados, tendo sofrido mais 4 em comparação com a época 2018/2019 e em parte isto pode ter acontecido pela saída de Edmond Tapsoba em Janeiro – reforçou os alemães do Leverkusen, onde realizou uma boa segunda volta.

Mas, e mesmo não tendo atingido o objectivo da Europa, foi notório que Ivo Vieira não abandonou os princípios aplicados em Moreira de Cónegos, tendo uma confiança total no futebol idealizado por si e que deu uma dimensão palpável ao Vitória SC durante a temporada, notada tanto em jogos da Liga Europa (em casa do Arsenal por exemplo) como em jogos para o campeonato nacional, faltando só ter conquistado pontos ao FC Porto, SL Benfica, SC Braga ou Sporting CP (tudo derrotas, menos um empate registado frente ao Sporting CP na retoma do campeonato), um pormenor que acabou por trair o emblema minhoto no fim de contas. Porém, o trabalho é sério, a competência de liderar também e a qualidade de jogo de franca qualidade, e por essas razões é altura de Ivo Vieira dar o salto para uma das Big-5 e arriscar num projecto mais ambicioso.

O PONTO DA SITUAÇÃO NA LIGA NOS 2020/2021

A temporada 2019/2020 foi madrasta para a profissão de treinador, já que 36 técnicos passaram pelos 18 emblemas da Liga NOS, com só o FC Porto, Rio Ave FC, FC Famalicão, Vitória SC, Santa Clara, Gil Vicente e CD Tondela a aguentarem os mesmos timoneiros do príncipio ao fim da época. Na transição para a nova época, já se registaram 8 novas entradas, em que o regresso de Jorge Jesus é o claro destaque, seguido do retorno de Carlos Carvalhal ao SC Braga.


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