Torneios Interassociações e a importância para o futebol feminino luso

Margarida BartolomeuJaneiro 6, 20226min0

Torneios Interassociações e a importância para o futebol feminino luso

Margarida BartolomeuJaneiro 6, 20226min0
Margarida Bartolomeu conta-os da importância dos torneios interassociações para o crescimento do futebol feminino neste artigo para o Fair Play

Como é, certamente, do conhecimento geral do adepto de Futebol na sua vertente feminina, a rede de observação nacional de jogadoras não é a mais desenvolvida. Faltam, acima de tudo, recursos humanos em quantidade suficiente que permita abranger, de uma forma mais uniforme, todo o território nacional, e possibilitar que todas as jogadoras disponham da mesma visibilidade (impossível, está claro, mas pode melhorar-se, e muito), ou do mesmo tipo de oportunidade.

De forma a contrariar a “invisibilidade” das jogadoras que integram Associações de Futebol distantes dos principais centros populacionais (exemplo disso são a AF Beja, AF Évora, AF Castelo Branco e AF Portalegre, que me parecem os casos mais delicados – por exemplo, a AF Beja tem apenas 1 equipa feminina que integra jogadoras de escalões inferiores a sub-16, o que as obriga a competir num campeonato totalmente masculino), foram criados os Centros de Treino Distritais onde, através de regulares convocatórias, são observadas em contexto de treino, as várias jogadoras sub-14 e sub-16 existentes nas Associações Distritais (podem ser chamadas jogadoras do desporto escolar, não necessitam de estar inscritas e em competição).

Este espaço de Seleção Distrital é visitado, pelo menos uma vez por ano, por observadores/selecionadores nacionais, para que estes observem as jogadoras e identifiquem as que melhor pareçam encaixar nos “jogares” das equipas nacionais, cuja evolução será acompanhada de forma mais atenta. Posteriormente, é criada a Seleção Distrital de cada um dos escalões mencionados, para que esta compita no chamado “Torneio Interassociações de Futebol Feminino” (um pouco semelhante ao “Torneio Lopes da Silva”, no masculino), onde defrontará as suas congéneres das mais variadas associações de futebol do país.

O torneio é, atualmente, dividido em 2 fases: A fase Zonal, onde se defrontam as seleções distritais das associações mais próximas (ex.: Setúbal, Beja e Algarve), e a fase Final, dividida em 3 ligas distintas, de acordo com a pontuação obtida na fase Zonal – Liga de Ouro, Liga de Prata e Liga de Bronze, onde o número de jogos será superior, o que aumenta também a competitividade do torneio.

Durante estes torneios, estão presentes Selecionadores Nacionais ou membros das suas equipas técnicas, que têm como missão observar e identificar jovens jogadoras selecionáveis para as Seleções Nacionais do escalão em que se inserem. Assim, poderemos dizer que os Torneios Interassociações são importantíssimos para dar visibilidade à jovem jogadora portuguesa, que muitas vezes acabaria por passar despercebida, sem que o seu talento fosse detetado pelas equipas técnicas nacionais, perdendo-se assim um possível valor de futuro.

Nos passados dias 17 e 18 de dezembro, realizou-se, a nível nacional, a Fase Zonal do Torneio Interassociações Sub-16, sendo que, no presente fim de semana (7 a 9 de janeiro), decorre o Torneio Interassociações Sub-14.

A VISÃO DE QUEM ESTÁ POR DENTRO: ENTREVISTA A CAROLINA SILVA

Carolina Silva, ex-internacional sub-17 e sub-19 por Portugal, antiga jogadora do A-dos-Francos e Clube Atlético Ouriense, e atual Selecionadora Distrital da Seleção Feminina Sub-16 da AF Beja (e adjunta da Seleção sub-14), que teve também a oportunidade de competir, como jogadora, num dos torneios interassociações (no qual foi até considerada a Melhor Jogadora), partilha connosco um pouco da sua experiência.

Carolina, qual consideras ser a importância das Seleções Distritais, do ponto de vista de quem as integra como jogadora?

Quando se iniciaram as primeiras Seleções Distritais, o distrito de Beja estava muito enfraquecido quando comparado com as outras zonas do país. O único tipo futebol que se praticava era o de 7, apenas para equipas seniores, sem existir limite de idades, porque era muito difícil conseguir um número de atletas suficiente para formar um plantel de futebol 11.

Ser convocada para a Seleção Distrital deu-me, pela primeira vez, a oportunidade de integrar uma equipa e competir exclusivamente contra jogadoras do meu escalão. Considero que a integração na equipa e a participação no primeiro torneio foi um grande passo em termos pessoais. Deu-se o início de uma carreira desportiva que me levou a apaixonar pela modalidade, algo que poderá acontecer também a estas jovens que agora competem.

Do ponto de vista de Selecionadora Distrital, qual a importância desse espaço de seleção, não só para as jogadoras, mas para o Futebol Feminino em geral, mais particularmente no distrito em que te inseres?

Do ponto de vista de Selecionadora Distrital, considero que este espaço é bastante importante, uma vez que permite a observação de todas as jogadoras que praticam futebol no distrito. Com a observação, as jogadoras sentem-se motivadas e, como é óbvio, dedicam-se mais e evoluem. É um espaço de excelência, onde a dedicação e o foco prevalecem.

Nos últimos anos, o distrito de Beja tem sido marcado por um decréscimo no número de praticantes, o que influencia negativamente a qualidade da modalidade. Não há competitividade entre as equipas, o número de equipas não é suficiente para organizar um campeonato feminino logo não pode existir evolução. Existir uma seleção distrital que pode competir a nível nacional é mostrar às jogadoras do nosso distrito que todas, com trabalho e dedicação, podem fazer parte dela também.

O que achas que seria importante implementar ou melhorar relativamente aos Torneios Interassociações, e qual a maior diferença que identificas desde que participaste como jogadora?

Quando participei, o torneio era disputado com todas as Seleções Distritais, divididas em grupos. Agora, numa primeira fase, os torneios são divididos por séries, onde há apenas dois jogos. Numa segunda fase, participam todas as equipas distritais. Esta é a grande diferença que identifico.

Na minha opinião a divisão do torneio em duas fases traz mais vantagens, uma vez que nos dá a oportunidade de observar as jogadoras em dois momentos distintos, o que pode permitir convocar jogadoras, para a segunda fase, que não fizeram parte da primeira convocatória o que faz com que nenhuma se desmotive e todas trabalhem para poderem integrar a Seleção Distrital.

Se quiseres ficar a conhecer um pouco mais daquilo que é o Torneio Interassociações, aproveita e assiste a alguns jogos do Torneio Sub-14, que se realiza este fim de semana em várias zonas do país (Algarve, Coimbra, Santarém, Viana do Castelo, Braga e Leiria).

Foto: AF Beja

Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS