22 Mai, 2018

Esta Sampdoria tem pernas para andar e voltar a contar bonitas histórias?

Pedro CouñagoNovembro 2, 201712min0

Esta Sampdoria tem pernas para andar e voltar a contar bonitas histórias?

Pedro CouñagoNovembro 2, 201712min0
Artigo do FairPlay a explorar aquilo que é a realidade corrente e o que é um passado glorioso e depois tenebroso de um dos clubes mais históricos em Itália. Esta é a nossa visão sobre uma Sampdoria que promete vir para ficar, que tem brilhado em 2017/2018 e que tem potencial para voltar a bons velhos tempos.

A história do clube

A Sampdoria, fundada em 1946, resultou da fusão de dois clubes depois da primeira Guerra Mundial, um período bastante complicado em que o campeonato italiano esteve em risco, não se tendo mesmo disputado durante dois anos. Nesse âmbito, era necessário garantir sustentabilidade para os diferentes clubes, com dois deles (Sampierdarenese e Andrea Doria) a fundirem-se e a formar o Unione Calcio Sampdoria, resumidamente UC Sampdoria.  Desde a sua fundação que o clube joga no mesmo estádio que o seu rival da cidade, o Genoa, criando aí logo uma das rivalidades mais intensas históricas do futebol italiano, nem sempre marcadas pelo bom futebol mas, por vezes, pela violência e pelo excesso de demonstração de emoções.

O clube chegou à primeira liga italiana vinte anos depois, em 1967. Até 1979, o clube nunca realmente conseguiu ter um nível alto, andando na mediania, não conseguindo subir o seu nível, isto até chegar Paolo Mantovani ao clube. Quando o empresário adquiriu o clube, teve como sua principal missão conseguir elevar o clube a um patamar mais alto, e a verdade é que o conseguiu, de uma forma absolutamente notável, com o clube, em 14 anos do seu reinado, tanto a nível nacional como internacional. Em Itália, a Sampdoria foi campeã (1991), conquistou três vezes a Taça de Itália (1985, 1988 e 1989) e ainda uma Supertaça de Itália (1992).

A nível internacional, conquistou uma Taça das Taças (1990) e esteve prestes a chegar ao pináculo do futebol europeu em 1992, mas acabou por perder na final da última Taça dos Campeões Europeus (última com esta designação) para o Barcelona de Ronald Koeman, bem conhecido dos portugueses e carrasco da equipa italiana, ao marcar o único golo do jogo no prolongamento. Na Sampdoria figuravam nomes como Gianluca Vialli na frente de ataque, Roberto Mancini e Lombardo como principais apoios ao ponta de lança, Cerezo como um ponto basilar do meio campo da equipa e Pagliuca na baliza, com uma magnífica elasticidade, tendo-se mesmo exibido a grande nível nessa mesma final.

Uma equipa que passou por anos de brilho, absolutamente brutal, principalmente entre 1986 e 1992 (Foto: Imortaisdofutebol.com)

Vujadin Buskov era o treinador na altura, e é, até aos dias de hoje, talvez o treinador que mais marcou o clube, ficando seis anos no comando técnico (1986 até 1992) e sendo um dos responsáveis pela esmagadora maioria dos troféus do clube.

O fim da era dourada do clube e a cronologia até aos tempos recentes

Quando o clube chegou à referida final, apenas uma das seis equipas italianas a chegar a uma final da principal competição de clubes europeus, e na fase em que se encontrava, constantemente a lutar por títulos, pensou-se que o clube pudesse continuar o seu caminho e crescer ainda mais no futebol italiano e europeu. Mas a verdade é que tal não mais aconteceu, com 1993 a marcar o início de um complicado período para o clube, com a morte de Paolo Mantovani. O seu filho, Enrico, assumiu o clube, e a verdade é que, em 1993, ainda resultou, com a conquista da Taça de Itália, mas não mais o clube se aproximou de títulos e quaisquer conquistas. Até 1993, foi o período mais bonito da história do clube, uma década e meia de grande glória e muitas histórias bonitas.

Não mais o clube conseguiu conquistar títulos. Inclusivamente, já passou vários anos na segunda divisão italiana (1999 até 2002, 2011/2012), com o estatuto de potência e ameaça aos grandes clubes italianos e europeus a mudar drasticamente. Os últimos anos têm sido um período de adaptação ao futebol moderno, com o clube a fixar-se essencialmente a meio da tabela, já conseguindo a ida às competições europeias em 14/15, beneficiando da exclusão do seu rival Genoa, algo que é apenas mais uma “acha na fogueira” na rivalidade. Por outro lado, a Samp passou por dificuldades em 15/16, mantendo-se na Série A por apenas dois pontos. Por aqui se percebe a inconsistência ainda existente.

Nem tem sido pela falta de jogadores de classe que o clube se pode queixar. Só na última década, alguns jogadores de nome têm passado pelo clube, como Antonio Cassano, Giampaolo Pazzini, Éder Martins e Angelo Palombo, jogadores que deixaram uma marca no clube, entre outros. No entanto, como dito, o clube parece estar claramente mais estável e mais maduro, mais sólido quanto às suas opções, algo que se reflete no desempenho que o clube está agora a ter.

Será 2017/2018 um regresso aos bons anos à moda da Samp?

Esta época promete ser absolutamente fantástica para o clube de Génova. Com um plantel a rondar os 104 Milhões de Euros, o décimo mais valioso em Itália, o clube está no sexto lugar do campeonato, e isto num campeonato que está a ser marcado pelo início fortíssimo das equipas mais fortes, com Nápoles, Juventus e Inter à cabeça e os clubes de Roma também em força. A Sampdoria encontra-se logo atrás, à frente de equipas mais apetrechadas como o AC Milan, Torino, Atalanta ou Fiorentina, com 23 pontos em 11 jogos. O clube conseguiu já abrir um fosso de 7 pontos para o sétimo lugar, o último fora das competições europeias, algo absolutamente espetacular no seio de uma Série A que parece estar em pleno renascimento, com uma competitividade absolutamente impressionante. É prematuro falar numa época brilhante da Sampdoria, mas não é prematuro falar no brilho que o clube está a ter nestes primeiros três meses de Série A.

Tem sido frequente, durante estes primeiros meses, as vitórias do conjunto da Samp (Foto: news4europe)

Um plantel dirigido por Marco Giampaolo, que antes andou por divisões secundárias e se destacou através de um décimo lugar em 15/16 no Empoli, treinador que, na passada época, garantiu o mesmo lugar à Sampdoria, uma época bastante tranquila, e que agora parece querer realmente desabrochar para a alta roda do futebol italiano. Tanto o treinador como os seus pupilos têm feito um excelente trabalho em entusiasmar os adeptos para aquilo que aí vêm, garantindo que, muito provavelmente, teremos alegrias até Maio.

Como se comporta a equipa dentro de campo e quem são os intérpretes?

A equipa marca-se por jogar num 4-3-1-2, focando-se na força do meio campo, com jogadores como Edgar Barreto, Dennis Praet e Karol Linetty, que complementam a força e raça do paraguaio Barreto, à inteligência e visão de jogo do belga Praet e a capacidade de desarme e golo do polaco Linetty. Além disso, há ainda Lucas Torreira, que tem sido uma das grandes surpresas na Série A, sendo totalista na equipa nos onze encontros disputados, já tendo dois golos marcados. Tem apenas vinte e um anos e o seu valor de mercado está a subir a pique, dada a sua extrema qualidade enquanto médio defensivo da equipa. Sendo bastante baixo (1.68m), o uruguaio destaca-se pelas suas aproximações à baliza, a sua criação de jogo acima da média, controlo de bola e boa capacidade de passe, dando-lhe faculdades que lhe permitem ser o patrão do meio campo. É, assim, um dos jogadores a observar com bastante atenção na Série A. A saída de Bruno Fernandes não tem sido, portanto, nada notada na equipa.

Que grande qualidade tem este jovem uruguaio. Pode vir a ser um caso sério na Série A e na sua seleção (Foto: GettyImages)

O médio ofensivo mais utilizado tem sido Gianluca Caprari, resgatado ao Inter depois de uma temporada de empréstimo ao Pescara, e a verdade é que tem sido um excelente apoio aos pontas de lança, destacando-se pela sua extrema mobilidade e pelos seus quatro golos marcados nesta primeira fase da época. Além de Caprari, há Gastón Ramirez, eterno craque que nunca se conseguiu afirmar fora de Itália, já inclusivamente associado ao Benfica. A Sampdoria decidiu resgatá-lo ao Middlesborough, e a verdade é que tem sido uma alternativa válida, cada vez mais a subir de forma. Aos 26 anos, o uruguaio ainda vai bastante a tempo de poder elevar a sua carreira a um patamar mais alto e de plena afirmação. Há ainda Ricky Alvarez, mas com menor influência na equipa face aos restantes dois.

Na frente de ataque está a virtude, pois a verdade é que a Sampdoria marca muitos golos – 24, o que lhe dá o quatro melhor ataque até ao momento – já tendo algumas goleadas acumuladas esta temporada, como os 5-0 ao Crotone ou os 4-1 ao Chievo Verona. Na frente de ataque, temos a “besta” Duván Zapata, resgatado ao Nápoles, e que jeito tem dado à Samp. Em conjunto com a experiência e toque de bola de Fabio Quagliarella, o colombiano tem-se revelado uma aposta acertada de Giampaolo. Depois, o italiano parece apostado em fazer uma época de sonho, aos 34 anos, sendo o melhor marcador da equipa. Os dois jogadores já têm onze golos e oito assistências a si atribuídos, pelo que se vê a sua capacidade de não só marcar, como criar golos e jogar em conjunto. É uma dupla temível, das mais fortes no Calcio, e promete aterrorizar as defesas até ao fim do campeonato. Além disso, temos ainda David Kownacki, que se tem revelado como uma autêntica arma secreta, com uns impressionantes três golos marcados em apenas noventa minutos jogados pelo clube. Parece seguro dizer que Patrik Schick e Luis Muriel não têm, por enquanto, feito muita falta, algo absolutamente notável dada a qualidade dos dois atacantes. Quem fica a ganhar é a Sampdoria, que fez dois bons negócios com os dois jogadores.

A defesa da equipa não é excelente, mas também não tem hábito de comprometer muito. De certo ponto, o registo de treze golos sofridos não é mau, tendo em conta a competitividade dos jogos e que os jogos do clube têm tipicamente muitos golos (apenas um jogo teve menos de dois golos). A baliza entregue a Emiliano Viviano e as laterais entregues a Jacopo Sala e Ivan Strinic garantem qualidade e profundidade, essencialmente no apoio ao ataque. No centro da defesa, não é necessariamente o caso, algo que acaba por prejudicar um pouco aquilo que é a solidez defensiva e que pode levar a um maior número de golos sofridos, principalmente em jogos fora. Jogadores como Gianmarco Ferrari e Matías Silvestre, um talvez pela falta de experiência a este nível e outro pela veterania que lhe tem retirado capacidades, terão de conseguir aumentar o seu nível, ou então o clube terá de encontrar alternativas válidas.

O ponto fraco da equipa pode afetar o seu desempenho? A esperança numa grande época mantém-se?

O ponto fraco da equipa está na sua inconsistência nos jogos fora, com alguns resultados aquém do exigível e que a impedem de ter mais pontos do que já tem. A derrota por 4-0 com a Udinese reflete o pior jogo da época da equipa, com a vitória por 2-1 contra a Fiorentina a representar o lado oposto da moeda e a representar uma das vitórias mais importantes, bem como a recente vitória por 2-0 perante o eterno rival Genoa, no seu estádio, mas como visitante (lembremo-nos que se trata de um estádio partilhado pelos dois clubes).

Se a equipa conseguir melhorar o seu desempenho fora de casa, cometendo menos erros, e se mantiver o Luigi Ferraris como a sua fortaleza, teremos uma Sampdoria predisposta a lutar ferozmente pelos lugares europeus. Com os sete pontos de vantagem, a equipa não pode ficar nada menos que extremamente motivada, pois é algo que lhe confere segurança nas suas capacidades.

O velhinho Luigi Ferraris tem sido talismã na presente temporada. Um dos mais icónicos estádios italianos tem dado sorte a um dos clubes mais históricos em Itália (Foto: Samp News 24)

Resta perceber até que ponto é que o seu plantel estará ao nível das restantes equipas, que estão muito fortes e com equipas cada vez mais recheadas de craques.

Seria muito bom para um clube que já merece regressar a ter destaque no Calcio, depois de anos muito difíceis. O futebol italiano está em renascimento, e era importante que equipas como a Sampdoria seguissem a linha. Chegar ao nível de quando o clube era comandado por Paolo Mantovani é certamente utópico, mas conseguir estabilizar o clube na primeira metade da tabela do campeonato constantemente e conseguir estabilizá-lo na luta pelas competições europeias parece possível.


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