Roberto Martínez, o (falso) encantador de burros

Francisco IsaacMaio 24, 20264min0

Roberto Martínez, o (falso) encantador de burros

Francisco IsaacMaio 24, 20264min0
Uma convocatória que criou mais incerteza que excitamento demonstrou como Roberto Martínez continua a acreditar na sua capacidade para enganar o público

Terá havido seleccionador nacional português que gastou (e gasta) tanto tempo a tentar explicar a sua visão e justificar as escolhas feitas com um discurso simplista e verdadeiro, como se estivesse a contar uma historieta qualquer aos jornalistas e adeptos que acompanham esse momento interactivo de Roberto Martínez? Porém, a forma como o próprio consegue se contradizer e entrar em conflitos com explicações prestadas no passado é de um nível trágico, criando uma imagem negativa para a selecção nacional, sendo quase uma continuação dos últimos quatros anos de Fernando Santos enquanto seleccionador naciomal.

A questão de Pedro Gonçalves ‘Pote’ é talvez das situações mais gritantes dos últimos 10 anos. Queira-se ou não, o avançado do Sporting CP tem sido de longe dos melhores jogadores a actuar em Portugal nos últimos 20 anos, não só pelos números individuais (97 golos e 66 assistências) como pela forma categórica que pinta o ataque dos Leões, tendo sido fundamental na conquista dos três títulos nacionais. Porém, Roberto Martínez nunca ofereceu uma verdadeira oportunidade ao avançado, conseguindo mesmo gerar inúmeros e repetidas situações delicadas, com a última a se passar nos amigáveis de Março, em que ‘Pote’ não jogou um único minuto dos encontros frente aos EUA e México por suposta lesão, lesão essa que foi desmistificada pelo Sporting CP. Mais valia nem ter levado Pedro Gonçalves e ter deixado cair a máscara na altura. A não estreia de Geovany Quenda também será outra nódoa no pano de Martínez, com o jovem talento a ter sido convocado para ficar no banco de suplentes sem jogar um único minuto frente a Escócia ou Croácia – este último jogo já só contava para o calendário, uma vez que Portugal tinha o 1º lugar do grupo A garantido. Já Tomás Araújo e Samuel Costa receberam minutos na sua primeira convocatória, demonstrando que existem dois pesos e duas medidas, desconhecendo-se só qual o factor que faz um jogador cair para um lado ou para o outro.

Importa dizer que as selecções nacionais vivem num universo ambíguo, em que impera a lógica de que os melhores jogadores devem ser convocados ou aqueles que estão em melhor forma. Porém, aos seleccionadores nacionais cabe o direito de montar a equipa de acordo com a sua visão, o que pode entrar em choque com a tal ideia dos ‘melhores jogadores’. Roberto Martínez demonstrou sempre uma queda por jogadores como João Félix, Nélson Semedo, Ruben Neves, Renato Veiga e Gonçalo Ramos (por mais que queiram tentar forçar a ideia que Ramos é o avançado do futuro, 12 golos em 44 jogos pelo PSG é pouco, especialmente quando nem sequer é um suplente regular na equipa de Luis Enrique). Já atletas como João Palhinha, Pedro Gonçalves, Paulinho, Ricardo Horta, etc, raramente ou nunca foram escolhas com presença afirmada no elenco de Portugal, apesar de grandes temporadas realizadas ou de serem reconhecidos pela sua qualidade individual. Mas, novamente, Roberto Martínez tem todo o direito de escolher aqueles que encaixam melhor na sua visão. Contudo, tentar enganar o público e imprensa com argumentos e factos torcidos já se dispensa, uma vez que só espelha a imagem de alguém que não só não consegue convencer os outros como não consegue convencer a si próprio.

Teria sido preferível que Martínez tivesse sido honesto com a razão das suas escolhas, simplesmente dizendo que não via utilidade em jogar A, B ou C, ou que jogador X, Y ou Z estavam sempre dentro das suas escolhas mesmo fora de forma ou sem qualquer impacto no clube pelo qual jogam – João Félix foi um retrato disso durante largos anos. Por pior que Fernando Santos tenha sido durante o seu reinado enquanto seleccionador nacional, pelo menos optou por não tecer comentários quando era questionado em redor da convocatória ou não convocatória de um determinado qualquer jogador, enquanto Martínez opta por premir o botão de ‘encantador de burros’ e montar uma ladainha mágica que já não engana nem o adepto mais fervoroso.

O fim da era Martínez pode acabar em tons de dourado, caso consiga levar Portugal a conquistar o Campeonato do Mundo. Infelizmente para o timoneiro de Portugal, a verdade é que será dos Mundiais mais tristes da história por todas razões e mais algumas, sendo talvez o encaixe perfeito para o que foi um reinado paupérrimo em ideias, discursos vazios e decisões de uma natureza estranha.

Foto de Destaque das Selecções de Portugal – Federação Portuguesa de Futebol. 


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