José Peseiro e a não-pressa de trocar de treinador em 2018/2019

Francisco IsaacNovembro 1, 20189min0

José Peseiro e a não-pressa de trocar de treinador em 2018/2019

Francisco IsaacNovembro 1, 20189min0
Trocar o treinador agora ou esperar por um momento melhor e de mais calma para escolher outro timoneiro? José Peseiro consegue aguentar até Maio ou sairá antes?

Depois de meses de convulsão em Alvalade, o Sporting Clube de Portugal procura retornar ao caminho do sucesso, ou pelo menos, do crescimento e de se reafirmar tanto no contexto nacional como internacional. A saída caótica de Bruno de Carvalho, a escolha por um treinador de recurso pensando no curto-prazo e não a médio-prazo e o refazer de uma equipa dividida e estilhaçada, foram obstáculos claros na preparação para a temporada.

Perante isto, a opção recaiu como todos sabem em José Peseiro, um treinador que ficou sempre marcado pelo quase sucesso, relembrando o fracasso das conquistas na Bwin Liga e Taça UEFA em 2004-2005 pelo clube leonino. Uma pré-época com resultados medíocres, com a chegada de vários reforços sem a qualidade exigida, deixou os adeptos do clube de Alvalade receosos com o arranque de época.

Contudo, contra todas as más previsões, o Sporting Clube de Portugal chegou a Outubro a um pequeno passo da liderança, tendo conseguido sobreviver ao jogo da Luz, conquistando também resultados positivos na Europa.

Mas as últimas semanas trouxeram algumas más notícias como a derrota em Braga e Portimão que foram provas claras de algo que José Peseiro não tem conseguido driblar: futebol débil, sem identidade e desprovido da intensidade certa. A consumação final foi o encontro em casa para a Taça da Liga frente ao Estoril-Praia, com uma assobiadela monumental mortal e letal.

MUDAR, FICAR E AGUENTAR OU ARRISCAR NA SAÍDA DO TÉCNICO

O plantel é precário, mas não é inferior ao do SC Braga e aproxima-se em certos parâmetros ao do SL Benfica e FC Porto, sendo que a maior preocupação passa pela falta de opções no banco para substituir os titulares como acontece com Bas Dost, Bruno Fernandes, Jérémy Mathieu, Marcus Acuña ou Rodrigo Battaglia. Dos reforços que chegaram só Nemaja Gudelj, Raphinha e Nani trazem qualidade imediata à equipa, ficando na dúvida o valor de Bruno Gaspar, Viviano ou Abdoulay Diaby, aquilo que foi um claro problema para o ex-técnico dos “leões” para esta temporada.

Pedia-se bem mais a um clube da envergadura do Sporting Clube de Portugal, que esteve (e até ver está) “refém” de um esquema táctico demasiado clássico e profundamente virado para a filosofia de contra-ataque rápido e de jogo de profundidade, sem que essa estratégia seja viável perante as ferramentas que estavam ao dispor de José Peseiro.

Bruno Fernandes parece não ter tanta importância e participação na forma actual de jogar dos verde-e-brancos, os laterais estão muitas vezes imiscuídos de participar activamente no ataque, existindo uma clara falta de conexão entre sectores.

O futebol demasiado arcaico do Sporting CP, condicionou várias exibições da equipa que vive assente num futebol pouco dinâmico, excessivamente disperso e altamente dependente das suas individualidades, o que até forçou “positivamente” o surgimento de Jovane Cabral por exemplo. Curiosamente, José Peseiro afirmou que o resultado final e exibição fraca ante o Portimonense deveu-se a uma tentativa de mudar a forma de jogar do Sporting CP que acabou por prejudicar a equipa.

Porquê então alterar a estratégia? Porquê demonstrar que afinal a táctica e ideias até aqui vincadas e defendidas pelo próprio treinador não eram as melhores? José Peseiro tentou defender-se ao mesmo tempo que tentou proteger a equipa, dando um misto de respostas consensuais e de afirmações pouco esclarecidas e sem nexo.

Perante isto tudo, a vontade de uma parte da falange de adeptos, comentadores e ex-jogadores/dirigentes é de que Novembro ou Dezembro era e é um mês bom para alterar o treinador principal, repondo a equipa no caminho certo. Mas ao fazer esta decisão, a maioria está a tentar apressar uma troca que pode ser negativa a médio-prazo, forçando depois nova mudança.

Talvez a melhor ideia era de aguentar José Peseiro até ao limite, sendo que o limite passava pelo clube ficar bem longe dos primeiros lugares, ser afastado de todas as competições a eliminar e de um clima negativo com os jogadores e dirigentes. E porquê aguentar? Se o treinador português tivesse permanecido até Maio, daria tempo para procurar um treinador de qualidade à direcção e SAD do Sporting CP.

Trocar e provocar uma nova convulsão dentro de um plantel já por si frágil pode tirar força, margem de manobra e confiança a qualquer treinador que venha a aceitar a formação verde-e-branca, criando novas e mais dificuldades que o clube não precisa.

Nesse sentido, e pensando numa troca só em Maio, que treinadores poderiam assumir este plantel e montar uma equipa minimamente consistente e pautado por um jogo apaixonante?

Propomos três possíveis timoneiros que podem encaixar bem no plantel, trazendo cada um deles uma identidade diferente mas mais ousada ao cenário actual.

VÍTOR PEREIRA

Situação actual: com contrato de 1 ano com o Shanghai SIPG F.C.;
Aspectos a Favor: trabalho defensivo de qualidade, boas ideias em termos de estratégia de transição de bola, bom motivador, com boa cadência para a conquista de títulos;
Aspectos Contra: salário demasiado alto, apetência para um futebol mais de controlo do que ataque total;

É uma escolha estranha, mas não nova, pois o nome do ex-técnico do FC Porto já circulou pela imprensa desportiva nos últimos 4 anos, especialmente durante as fases em que os jornais garantiam que Jorge Jesus estava com um pé fora de Alvalade (situação falsa e produzida talvez no sentido de destabilizar os “leões”).

Vítor Pereira foi bicampeão em Portugal, tem um sentido de jogo de posse de qualidade, trabalha com excelência a defesa, consegue extrair o melhor do colectivo, formatando bem as individualidades no caminho de formar uma verdadeira equipa.

Todavia, Vítor Pereira é um treinador que “exige” uma boa remuneração e com o sucesso no Shanghai SIPG pode muito facilmente renovar por um valor exorbitante, ou sair para a Europa a pedir um valor igual ao que auferia na China. Com o plantel actual do Sporting Clube de Portugal, seria interessante ver como Vítor Pereira articularia uma defesa experiente e inteligente com um ataque minimamente eficaz quando bem trabalhado.

MIGUEL CARDOSO

Situação actual: sem contrato após ter sido demitido pelo FC Nantes;
Aspectos a Favor: futebol de capricho ofensivo, bom conhecedor da Liga NOS actual, bom trabalhador e executante de estratégias equilibradas;
Aspectos Contra: não suficientes provas dadas como treinador principal, aposta de alto risco, relação por vezes intensa com os atletas mais experientes

Futebol vibrante, agressivo, detalhado e promissor foi o que Miguel Cardoso conseguiu impor em Vila do Conde na temporada 2017/2018, dando outro timbre e forma de jogar ao Rio Ave que deslumbrou os adeptos portugueses no decurso dessa época.

É um futebol com uma mescla de posse de bola mas também de aproveitamento do “miolo” do jogo para colocar a bola em profundidade, onde todas as unidades têm um papel dinâmico e não só posicional tanto a atacar como defender. É por assim dizer um sistema que eleva o colectivo a uma simbiose fluída entre a defesa e o ataque, mas que também proporciona aos jogadores a sua ascensão individual.

Contudo, a Miguel Cardoso falta mais segurança defensiva e percepção que nem sempre dá para jogar de forma total contra todos os adversários, pedindo mais adaptação perante os diferentes “inimigos” com quem joga. Num clube como o Sporting CP pode aproveitar a dimensão do emblema para se precipitar para uma estratégia arrojada, mas pode existir sempre o problema da falta de experiência para lidar em momentos de alta pressão.

LUÍS CASTRO

Situação actual: com contrato de 2 anos com o SC Vitória SC;
Aspectos a Favor: consegue dar forma a plantéis que têm pouca qualidade individual, procura esboçar uma identidade futebolística interessante e joga ao ataque controlado;
Aspectos Contra: pouco exuberante em termos de espectáculo, ataque por vezes parco em golos, .

Experiência, muita experiência tem Luís Castro na Liga NOS, tendo sido também o pioneiro no sucesso do FC Porto a nível de formação (levantou o título como treinador da equipa B dos azuis-e-brancos), apresentando um futebol bem consistente, conseguido e sério.

Tem deixado sempre o “esqueleto” para que as suas ex-equipas consigam atingir uma posição bem interessante nos anos seguintes. Veja-se o caso do FC Rio Ave de Miguel Cardoso que herdou as benesses do tempo de Castro em Vila do Conde, da dimensão do GD Chaves durante a sua presença lá e mesmo após após a sua saída. Ou seja, Luís Castro sabe talhar um plano, trabalhar o plantel e garantir uma posição elevada na classificação.

A Luís Castro falta por vezes a parte emotiva do jogo, a de atribuir uma consistência ofensiva completa e “agressiva” que se espera por uma equipa do topo da classificação. Mas, depois de boas experiências em Vila do Conde e Chaves, é talvez altura de arriscar em nova aposta num clube de maior dimensão.

Outras opções podiam passar por Silas (pouco provou ainda, mas mesmo com um plantel limitado conseguiu ganhar ao FC Porto e SL Benfica num espaço de 7 meses, para além de ter garantido a manutenção do plantel que agora actua no Jamor), Rui Jorge (homem-da-casa e que tem provas dadas nos sub-20, somando-se ainda um esquema e forma de jogar de sucesso e virado para o futurismo) e Paulo Sousa (opção excessivamente “cara”).

Quem vai ser o próximo herói/vilão no banco dos “réus” do Sporting Clube de Portugal?

Será o homem certo para o Sporting CP? (Foto: Lusa)

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