CD Nacional e a “paixão” pela montanha-russa das subidas e descidas

Francisco IsaacMaio 24, 20217min0

CD Nacional e a “paixão” pela montanha-russa das subidas e descidas

Francisco IsaacMaio 24, 20217min0
Terceira descida em seis anos, problemas técnicos e de plantel, são alguns dos problemas do CD Nacional. Há explicação para este fracasso?

Último classificado da Liga NOS 2020/2021, numa quase cópia ao que se tinha passado em 2018/2019, época em que o CD Nacional também foi relegado para a segunda liga. A comparação entre estas duas descidas é de que os alvinegros somaram menos pontos na actual (28 com Costinha e 25 pontos somados entre Luís Freire e Manuel Machado), mas com menos golos sofridos (a equipa então treinada por Costinha consentiu 73 tentos, quase um recorde na primeira liga), ficando exposta a inexistência de um projecto sério e de real progressão no emblema presidido por Rui Alves, que nos últimos 10 anos soma três relegações para a segunda divisão. Há explicação para estes sucessivos fracassos? Ou não serão fracassos, pois o facto de garantir a manutenção logo após a descida à 2ª divisão, não é um cenário tão crítico como se pode pensar?

Se fosse pela lógica do segundo “argumento”, então não haveria espaço para demissões do staff técnico, uma vez que o objectivo era garantir um plantel estável a longo-prazo, completamente entrosado e com outra competência para, no futuro, subir e se manter com todas as forças no principal escalão do futebol do futebol português. Contudo, desde a recaída para a segunda liga em 2016/2017 (pior das relegações de sempre, com 21 pontos), que o CD Nacional não encontra fórmula para se aguentar na Liga NOS após a subida e, em parte, se explica pelas carências tanto a nível do plantel. que por sua vez, revelam certos vícios da sua classe dirigente tendo como consequência um rendimento desportivo afectado especialmente quando medem forças com emblemas com tanta ou maior capacidade económica.

Seria fácil falar só de como Costinha e Luís Freire caíram no erro de tentar apostar num jogo aberto, de subida no ataque e procura de ter uma posse de bola positiva (constantes combinações e forçar mudanças de posicionamento ao adversário), sem ter o plantel necessário para tal. Todavia, é mais importante analisar o trabalho da estrutura para perceber onde foram cometidos alguns dos erros iniciais que têm significado uma desvantagem competitiva para o CD Nacional época após época.

Comecemos por uma situação que passou despercebida em 2019: o caso da “guerra” levantada contra um contingente de jogadores após a descida dessa época. Este é um exemplo primário de como a gestão administrativa afectou, a longo-prazo, as condições de se potenciar um CD Nacional mais competente e equilibrado, criando um ambiente nocivo dentro do clube, que acabou com a saída desse grupo de atletas logo após terem garantido a subida em 2020, isto após o encerramento precoce da segunda liga devido ao SARS-CoV-2.

As saídas de Nuno Campos, Jota, Diogo Coelho, Kaká ou Vítor Gonçalves – foram todos campeões em 17/18 e 18/19, sempre como titulares do plantel então comandado por Costinha e, a maioria, tinha lugar fincado no onze de Luís Freire em 19/20 – forçou uma ida ao mercado que acabou por não trazer soluções minimamente credíveis, à excepção do internacional tunisino, Larry Azouni, e o ex-Palmeiras, Pedrão, suscitando várias perguntas em relação à forma como a direcção alvinegra actuou durante as janelas de transferências de Verão e Inverno. A “guerra” levada a cabo contra antigos atletas e a decisão de despedir Luís Freira para contratar Manuel Machado, treinador que no passado trouxe glórias mas que não tinha qualquer contacto com o futebol profissional desde 2017, ilustram bem os últimos deste Nacional da Madeira.

Olhando para o elemento da mudança de treinadores, é observável que esta troca de Freire por Machado não teve, em primeiro lugar, efeitos práticos, como ainda se deu um registo francamente pior de resultados no geral, somando só uma vitória e um empate nos 10 jogos que liderou o emblema madeirense, enquanto Luís Freire conquistou 5 vitórias e 6 empates em 24 encontros. Curiosamente, o Nacional registou a pior derrota da temporada com Manuel Machado no banco de suplentes, nos 1-5 sofridos nos Açores na visita ao CD Santa Clara.

Isto ajuda a provar que a decisão de mudar de treinadores não brotou os efeitos necessários, para além de ter sido mal planeada/pensada já que a opção para substituir Luís Freire passou por contratar um treinador afastado há quatro anos do futebol ao mais alto nível, quando existiam outras soluções mais credíveis ou, pelo menos, em “forma” de primeira liga, podendo ter dado outra dinâmica a um CD Nacional em queda. Um detalhe que ajuda a perceber esta passagem de Manuel Machado pelo CD Nacional foi o facto de ter tentado desculpabilizar os maus resultados na recta final do campeonato com erros de arbitragem, alegando, por exemplo, que os alvinegros tinham sido prejudicados em Alvalade (entre outros jogos), quando na realidade foram salvos em diferentes decisões, ostentando aquilo que são princípios errados de quem procura dar outra sequência a uma situação dramática para quem quer escapar à relegação.

Recuando até Março, recordemos a entrevista para a TSF Madeira de Rui Alves, presidente do CD Nacional, que criticou abertamente o trabalho de Luís Freire pouco tempo depois da saída deste,

“Se tivesse feito a alteração em janeiro, o Nacional estaria hoje noutro patamar classificativo. Até estive para a fazer muito antes. Só que, de repente – e depois de um período muito mau – o Nacional teve quatro jogos sem perder e isso levou-nos a pensar que íamos entrar noutro ciclo.”.

Ora, causa e efeito, ao revelar este pensamento, Rui Alves admite que a culpa da situação actual do CD Nacional é sua, porque a aposta feita em Luís Freire afinal não foi de sucesso e que não reunia os critérios necessários para se manter à frente da equipa, sem o dirigente assumir abertamente a sua responsabilidade pela situação presente.

Porém, esta não é a primeira vez que cai no erro de fazer afirmações que pouco depois perdem a sua validade, e basta só olhar para Maio de 2020, altura em que afirmou à imprensa que “não iria fazer uma revolução no plantel” e que “a maioria da equipa está encontrada para a próxima temporada”, para depois se seguirem 13 saídas e chegarem 13 novas caras (João Vigário realizou uma época como emprestado e assinou a custo-zero em Junho de 2020), numa clara demonstração que não existe algum projecto sustentável ou minimamente legível/entendível.

Até que ponto a gestão actual do CD Nacional está a custar o desenvolvimento do clube? Ou os erros e falácias de Rui Alves não impedem o crescimento, quando na realidade o problema é inerente ao emblema alvinegro? No meio das questões, a verdade passa pelo facto de terem descido para segunda liga em três ocasiões nos últimos seis anos, denotando-se um pico alto de entradas/saídas a cada nova relegação, sem se falar do discurso quase opressivo de Rui Alves nesses momentos, mais concretamente quando se fala dos salários e da tentativa de renegociá-los porque o clube não consegue suportar a mesma folha salarial na segunda divisão. Estes são alguns pormenores que têm vitimado um emblema com relativa história na primeira liga – e não mencionámos os problemas da formação, já que são raros os atletas formados no clube que chegam ao escalão máximo -, tendo lançado diversos atletas conhecidos e que terminaram em alguns clubes de maior dimensão europeia, entre outros dados de relativo interesse, que infelizmente estão a ser cada vez mais ofuscados pelos episódios actuais.


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