27 Mai, 2018

Adaptar para sobreviver – O 4x3x3 do Benfica

Pedro AfonsoNovembro 7, 20177min0

Adaptar para sobreviver – O 4x3x3 do Benfica

Pedro AfonsoNovembro 7, 20177min0
A época do SL Benfica não tem sido, até ao momento, brilhante. Mais do que os resultados, a equipa de Rui Vitória apresenta um futebol muito pobre, aos solavancos, mais dependente da qualidade individual dos seus extraordinários intérpretes do que de um plano pré-definido. Mas em Guimarães, pareceu ver-se, a espaços, um novo modelo para a equipa encarnada. Será este o caminho?

O brilhantismo de Charles Darwin e da sua Teoria da Evolução não se cinge apenas e só à Biologia: a universalidade da necessidade de adaptação é algo torna essa mesma Teoria transversal a todas as áreas da existência humana. E o futebol, como parte integrante de uma existência plena e feliz (quando a nossa equipa ganha), vive de constantes desafios e de superação.

Trabalhar sobre uma base preparada

Rui Vitória chegou à Luz há duas temporadas. O técnico ribatejano, ciente dos 6 anos de trabalho do seu predecessor que levaram à construção de uma identidade futebolística, o tão em voga 4x4x2, fez o que qualquer gestor inteligente faria: aproveitou as bases lançadas por Jorge Jesus e adaptou o sistema tático às suas ideias. Para isto contribuiu a contratação de Mitroglou, que veio fazer uma dupla mortífera com Jonas, das melhores que se viram nos últimos 15 anos em Portugal.

O 4x4x2 é, contudo, um sistema tático com particularidades limitantes e fortemente dependente da qualidade individual e de adaptação dos seus intérpretes. Jogando com 2 avançados e com apenas 2 médios centro, o miolo do terreno pode ser campo de uma batalha perdida. Se no primeiro ano de Rui Vitória, Renato Sanches veio fazer do 8 que a equipa precisava, Pizzi, apesar da excelente época passada, parece não ser talhado para a posição (como já previamente discutido aqui).

Para além destas idiossincrasias, a verdade é que Rui Vitória não aplicou em mais nenhuma das suas equipas, previamente à chegada ao Benfica, este sistema tático. Optou sempre por um sistema mais conservador, o 4x3x3, mais calculista, mais ponderado. Como aliás, é o futebol imaginado por Rui Vitória: um futebol de construção mais lenta, de maior expectativa pelos passos do adversário, ao contrário do seu antecessor, onde o ímpeto tinha tanto de apaixonante como de irracional.

Uma análise perfeita da dinâmica que o SLB apresentou no Domingo [Fonte: Record]
 

Esta época, o plantel do Benfica apresenta-se muito mais enfraquecido do que na época passada. Seferovic não é Mitroglou, por muito que o ímpeto inicial tenha iludido os adeptos, Jiménez passa mais tempo fora da área do que dentro da área, Pizzi acusa os dois anos de jogos quase semanais, André Almeida não é (nem perto) Semedo e Luisão não vai para novo.

Adaptar e proliferar

As paupérrimas exibições da equipa da Luz fizeram soar todos os alarmes e mais alguns. O próprio Rui Vitória admitiu, por diversas vezes, o momento difícil e apenas superável, como sempre, com trabalho, treino, novas abordagens. Finalmente, em Guimarães, viram-se os resultados desse mesmo treino e desse trabalho. Rui Vitória foi, finalmente, capaz de incutir o seu sistema de jogo, as suas ideias, quebrando com o pré-estabelecido e abrindo portas para se poder afirmar plenamente na liderança do Tetra-campeão.

Ao contrário de tudo aquilo que era previsto, Rui Vitória apresentou o Benfica num 4x3x3 no passado Domingo, não abdicando dos seus melhores jogadores por ideias pré-concebidas que não têm nenhum tipo de lógica (dizer que Jonas, o melhor jogador da Liga NOS, não funciona em 4x3x3 é menosprezar um verdadeiro génio do futebol).

Mas o que acarretou esta mudança tática? Acima de tudo, LIBERDADE. Liberdade para os criativos do meio-campo poderem construir, errar e pressionar, sempre com Fejsa a servir de “pronto-socorro”; liberdade para os extremos que, não obstante a preferência pelo 4x1x4x1 em momento defensivo, conseguiam dedicar-se muito mais às suas tarefas ofensivas e a movimentos de rotura, sem o medo habitual de errar; liberdade para Jonas descer e subir no campo como bem lhe apetece, porque é isso que os génios fazem.

Jonas sabe bem quem o acompanha [Fonte: Expresso]
 

Com Krovinovic e Pizzi no meio-campo, as limitações na construção por parte dos centrais foram colmatadas, pois a equipa ora construía pela direita ora pela esquerda, não tendo de esperar, como costume, pela basculação do 8 de serviço. Por outro lado, o auxílio de Jonas na construção criou um vazio de marcações para os centrais que, faltando a referência de Ponta-de-lança estático com que o Benfica jogou nos últimos dois anos, viram-se obrigados a procurar encurtar espaços entre-linhas e abrindo espaços nas costas para o ataque à profundidade que Salvio tão bem sabe fazer. Os laterais, menos obrigados a participar na manobra ofensiva por falta de elementos desequilibradores no ataque, geriram melhor os seus adversários diretos, tendo sido patente a evolução na eliminação dos cruzamentos para as costas dos centrais tão comuns noutros jogos.

E se duvidas há de que este é, talvez, o melhor caminho para recuperar a boa forma encarnada, os seguintes pontos deverão dissipar qualquer dúvida:

  • Pizzi: se o seu rendimento foi menor, tal foi menos óbvio, dado que Krovinovic e Fejsa deram-lhe espaço para errar e também para brilhar. Assim, Pizzi jogou melhor e mais livre, como os criativos devem jogar
  • André Almeida: acutilante no ataque e certinho a defender. A assistência para o golo de Jonas é primorosa
  • Samaris: o grego não é nem nunca foi um 6. Mas não é nem nunca será pior jogador que Felipe Augusto. A presença de Fejsa e o meio-campo a 3 permitiu-lhe a liberdade de atacar espaços mais avançados e culminou com um golo. Este Samaris pode ser o box-to-box que a equipa tanto precisa
  • Krovinovic: ter um jogador destes no banco e não-inscrito para a Champions parece ser gestão danosa
  • Jonas: esteve envolvido nos três golos – marcou 1 e abriu espaços para Samaris e Salvio
  • Salvio: sem se desgastar fisicamente em demasia para tarefas defensivas e recuperações sucessivas, o argentino esteve no melhor e no pior, como já é hábito. Mas muito mais próximo do melhor.

Todos rendem mais quando inseridos num contexto propício [Fonte: MSN]
 

O jogo não foi perfeito: o final com um golo absolutamente desnecessário (e muito concedido por Svilar) e um penalty desnecessário fizeram com que uma boa exibição (apenas boa) ficasse manchada. Mas ao contrário de outros jogos, o Benfica jogou como equipa, com uma ideia, com automatismos visíveis, mas que necessitam de trabalho.

Rui Vitória tem agora a faca e o queijo na mão para moldar a equipa às suas ideias, em vez de se adaptar a algo que já vem de trás. Pode e deve assumir, de uma vez por todas, a sua identidade e afastar os fantasmas de muitos saudosistas que teimam em agoirar. Terá coragem para isso ou tratou-se apenas de mais uma rotação quasi-aleatória?


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