Jorge Jesus – A influência da Imprensa na perceção do valor do Treinador

Pedro AfonsoFevereiro 15, 20218min0

Jorge Jesus – A influência da Imprensa na perceção do valor do Treinador

Pedro AfonsoFevereiro 15, 20218min0
"Mais vale cair em graça do que ser engraçado" ou uma história de como Jorge Jesus se consegue manter no topo do futebol português.

“Mais vale cair em graça do que ser engraçado” ou uma crónica de como Jorge Jesus se mantém no topo do futebol português.

Sem publicidade, acontece uma coisa horrível – Nada. 

P.T. Barnum

Na era das novas Tecnologias da Comunicação, do Digital, do fluxo ininterrupto de bits que inundam os nossos computadores, smartphones feeds, a opinião democratizou-se mais do que nunca, conferindo a cada indivíduo a possibilidade de expressar os seus pontos de vista, fundamentados ou não, de forma simplificada e, aparentemente, livre de consequências. A beleza deste modelo, deste estado a que a sociedade chegou, é também pautada pela perda do valor relativo da verdade e do que efetivamente deve ser considerado uma opinião correta ou incorreta. O pós-modernismo social afeta-nos de formas distintas, no entanto é um fenómeno por demais evidente e que tardou, mas chegou finalmente ao futebol.

Evitando as conversas habituais relacionadas com os lances de arbitragem, onde a realidade é deturpada pela visão de cada um, fenómeno com enorme carga filosófica cujos pensadores modernos escolhem ignorar por vergonha de admitir prazeres terrenos e universais, a verdade é que, mais que nunca, o valor dos próprios intervenientes do jogo é ditado, em grande parte, pela imagem que projectam e pelo valor que os opinion-makers lhes atribuem.

Como não amar as opiniões de jogadores que falharam rotundamente como treinadores? (Fonte – The Sun)

Talvez possamos enquadrar este fenómeno regressando ao início do século XX e considerando um dos jogadores mais polarizadores do futebol moderno: David Beckham. O inglês, prodigioso nas bolas paradas, foi elevado desde cedo a um estatuto de Deus Olímpico do Desporto-Rei, ultrapassando colegas de equipa como Ferdinand, Scholes e Giggs, que mantiveram a sua relevância e o seu rendimento efetivo durante um período de tempo mais longo. No entanto, e nunca será demais considerar a importância que os Galácticos e as contratações do Real Madrid tiveram neste período do futebol, Beckham granjeava um carinho e uma devoção que se estendiam para além do futebol: para além de bem-parecido, cultivava a sua presença social, casou-se com Victoria, estrela das Spice Girls, e construiu uma imagem a que hoje se poderia chamar de influencer. Mas, em poucas palavras, será possível afirmar que Beckham nunca foi o jogador que fizeram dele nem construiu um legado suficientemente forte, futebolisticamente falando, para ainda hoje ser falado com tanto carinho.

Um Trendsetter (Fonte: Goal.com)

E de que forma isto afeta o futebol atual? Bem, são inúmeros os casos de jogadores com uma imprensa extremamente favorável, que ignoram muitas vezes más exibições ou que exacerbam em demasia os feitos dos mesmos. O exemplo mais gritante será, com certeza, o de Paul Pogba, uma das várias estrelas de uma Juventus poderosíssima, que nunca foi capaz de mostrar o seu valor ao serviço do Manchester United, mas que continua a ser colocado no topo do Mundo por inúmeros órgãos de comunicação social, ignorando colegas de equipa com maior importância na manobra da equipa. Mas o mais interessante será verificar esse fenómeno aplicado a um caso atual e relevante: Jorge Jesus.

Um ponto prévio, Jorge Jesus é um bom treinador. O seu modelo de jogo é interessante, o seu carisma não deixa ninguém indiferente e tem um CV invejável. No entanto, os seus feitos são quase tão impressionantes como os seus falhanços, granjeando um estatuto de intocável, muitas vezes apelidado de “melhor Treinador Português do Mundo”, que pouco sentido faz quando se olha em profundidade para a sua carreira.

A sua primeira passagem no SL Benfica tem tanto de genial como de horrível, com prestações na Liga dos Campeões abismais (apesar de presenças na Liga Europa oscilando entre o genial e o confrangedor) e vitórias a nível interno com “nota artística”. A sua “traição” para o clube rival, o Sporting CP, surgiria como uma emancipação, uma demonstração de que era ele o cérebro de todas as conquistas e que o corpo órfão morreria e um novo corpo se ergueria. Dois anos em Alvalade serviram para provar essa teoria errada e para coroar Rui Vitória como um treinador também ele marcante na história do Futebol Encarnado. A isto segue-se uma passagem pelas Arábias, um destino pouco dado a treinadores geniais e ao nível dos melhores do Mundo, e uma mudança para o Flamengo, onde viria a atingir o ponto mais alto da sua carreira.

Um marco no Futebol Brasileiro (Fonte: Expresso)

Mas é necessário, também, contextualizar este Flamengo. Jorge Jesus não apanhou uma equipa típica do panorama sul-americano. A equipa camarinha era o equivalente a um Liverpool da América do Sul, repleta de craques, com investimentos ímpares na história do futebol sul-americano, talhada para grandes voos. E Jorge Jesus cumpriu esses voos, cumpriu as suas responsabilidades. Não se pode falar de uma cavalgada épica até a um título internacional, não se pode falar de uma história de David e Golias. Jorge Jesus treinava o “Golias” e cumpriu o seu destino.

Regressa, então, a Portugal para revitalizar um Benfica moribundo, recebido com pompa e circunstância, com a Comunicação Social em alvoroço, promessas de títulos europeus e de “nota artística”. Volvidos 6 meses, tudo isso parece uma miragem, uma piada de mau gosto para os benfiquistas. O que falhou então?

Arrasando… (Fonte: Renascença)

Em primeira instância, a Estrutura Encarnada, incompetente e displicente, que preparou um plantel desequilibrado (apesar de pleno de qualidade e suficiente para conquistar o campeonato) para receber o “Salvador”; em segunda instância, a perceção da qualidade de Jorge Jesus. É que, na verdade, o adepto lembrava o Jorge Jesus das finais europeias, das épocas de Matic, Enzo, Rodrigo e Gaitán, das cenas estratosféricas, mas esquecia as épocas de perdas de campeonatos em casa com direito a “banho” aos portistas, os 5-0 contra o FC Porto, a perda do campeonato ao serviço do Sporting para um Benfica instável, a soberba insuportável e a total isenção de culpas nos maus resultados para o açambarcar dos elogios nos bons. A Imprensa escolheu exaltar os feitos positivos e nunca foi dado espaço para o contra-ponto, essencial para um jornalismo de qualidade. Criou-se, assim, uma ideia messiânica de um bom treinador que nunca conseguiu, nem conseguirá, atingir o nível que afirma ter.

Nada exemplificará esta situação melhor do que o percurso de Abel ao serviço do Palmeiras. Com uma equipa manifestamente inferior à de Jorge Jesus, conseguiu conquistar o mesmo troféu que Jorge Jesus exaltara como sendo dificílimo, num país onde clama que se pratica o melhor futebol do mundo a nível tático. Portanto, deixando de lado as afirmações que apenas poderão ser consideradas uma brincadeira de mau gosto, será relevante analisar a forma como a Imprensa Portuguesa decidiu ignorar os feitos de Abel até à final (as capas dos jornais desportivos são um bom exemplo) e foram coagidos pela opinião pública a atribuir a mesma cobertura ao evento que haviam conferido a Jorge Jesus. E mais interessante do que isso, será perceber porque é que em tantos anos de sucessos internacionais de treinadores portugueses, figuras como Manuel José, “rei” no futebol africano, foram sempre ignoradas e vistas com alguma desconfiança por parte do público português.

Por fim, tudo se resume na seguinte observação: Jorge Jesus perdeu 19 pontos em 19 jogos ao serviço do Benfica na corrente temporada, histórica em termos de investimento para o clube da Luz e, até hoje, apenas um jornalista perguntou acerca do futuro do treinador encarnado. Após a derrota contra o Moreirense, nenhum jornalista foi capaz de perguntar a JJ se sentia o seu lugar em perigo, nem se sentia que tinha capacidade para continuar a exercer as suas funções. Para contrapor, dizer que Lage perdeu 23 pontos em 29 jornadas e foi despedido após uma extensa campanha mediática (a qual ele próprio denunciou) para o expulsar do Benfica.

Jorge Jesus percebeu desde muito cedo que teria de cair em graça e assim o fez. A Imprensa nunca o trairá, o clube está refém dele e os adeptos vivem presos às memórias positivas de tempos idos, o que faz com que Jorge Jesus ainda seja considerado com uma parte da solução e como o menos responsável do descalabro encarnado desta temporada.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter