Futebol feminino português: o balanço de 2021/2022

Margarida BartolomeuJulho 10, 20227min0

Futebol feminino português: o balanço de 2021/2022

Margarida BartolomeuJulho 10, 20227min0
Margarida Bartolomeu revê tudo o que se passou na temporada 2021/2022 do futebol feminino nacional, com olho para os campeões e jogadores

Terminada a época 2021-2022 do futebol feminino nacional, chegou o momento de fazer um pequeno balanço da mesma, bem como de analisar um pouco os desenvolvimentos de mercado das principais equipas nacionais.

O verão de 2021 chegou, e com ele a notícia da saída de 11 jogadoras do Sporting, bem como da equipa técnica, ao mesmo tempo que os rivais pareciam investir e reforçar-se cada vez mais, o que fazia adivinhar uma época complicada para as Verde e Brancas, que se encontravam em profunda reestruturação. Mas a verdade é que a época 2021-2022 terminou exatamente da mesma forma como começou – com a equipa feminina de futebol do Sporting Clube de Portugal a festejar um título.

A LUTA PELO TÍTULO E A MANUTENÇÃO

A Liga BPI 2021/2022 iniciou-se, e desde cedo se percebeu que iria ser bem disputada. Além dos usuais Sporting Clube de Portugal, Sport Lisboa e Benfica e Sporting Clube de Braga, as equipas do Futebol Clube de Famalicão e Sport Clube União Torreense também demonstraram que não iriam ser “favas contadas”, e poderiam roubar pontos a qualquer das 3 “favoritas”.

Entre surpresas e confirmações, voltámos a ter um Benfica Campeão, sendo que a grande desilusão da temporada foi mesmo a prestação do Braga na fase de Apuramento de Campeão, ficando a uns largos 15 pontos do primeiro classificado. O grande investimento realizado, com a contratação de diversas jogadoras experientes e com “provas dadas” (Anouk Dekker, por exemplo), bem como o regresso de um treinador “da casa”, faziam antecipar um desempenho bastante superior ao que acabou por se evidenciar.

Por outro lado, a equipa do Amora FC voltou a falhar a passagem à fase de apuramento de campeão, tendo que disputar novamente a fase de Apuramento de Manutenção, tal como a equipa do histórico Valadares Gaia. Também o Länk Vilaverdense, embora recém-promovida à Liga BPI, acabou por ter uma prestação bastante aquém do esperado, dada a forma como se reforçou, e o investimento realizado. O campeonato decidiu-se praticamente numa luta a dois, que o Benfica acabou por vencer, consagrando-se campeão nacional em pleno Estádio da Luz, após dérbi contra o Sporting.

A fase de Apuramento de Manutenção ficou marcada pela presença de diversos clubes históricos do Futebol Feminino Português (Valadares Gaia, Clube Atlético Ouriense e Estoril Praia – este, embora nunca tenha vencido um troféu, encontrava-se há diversas épocas na primeira divisão nacional), e pela despromoção de alguns desses mesmos clubes à segunda divisão.

Se as equipas do Amora e Valadares Gaia acabaram por ter uma campanha relativamente descansada, disputando entre si o primeiro lugar da fase de manutenção, mas garantindo, com relativa facilidade, ambos os lugares que permitiam a manutenção na Liga BPI 2022-2023, a verdade é que o Estoril Praia acabou por não ser capaz de garantir a manutenção, descendo assim à segunda divisão nacional, após diversas temporadas na primeira divisão. Por outro lado, o Ouriense disputou a manutenção com o também histórico Clube Futebol Benfica (“Fofó”), que procurava recuperar o seu lugar no seio da Elite Nacional. E foi neste jogo que se registou a maior “surpresa”.

Numa final disputadíssima, o “Fofó” acabou por conseguir levar a melhor sobre o Ouriense, e vencer por 1-0, assegurando, teoricamente, a subida à Liga BPI. No entanto, e por questões burocráticas relacionadas com o licenciamento necessário à participação na Liga BPI, a equipa do “Fofó” viu-se impedida de disputar a primeira divisão nacional, sendo “obrigada” manter-se na segunda divisão na época 2022/2023, tendo acabado a equipa do Ouriense por garantir, na secretaria, a manutenção na Liga BPI.

OS DESTAQUES E PENSAMENTOS PARA O FUTURO

Infelizmente, casos como este continuam a ser demasiado recorrentes no Futebol Feminino Nacional, o que denota a falta de profissionalismo existente nos clubes, e a forma (desapegada) como são tratadas as equipas femininas, mesmo em clubes históricos, e com um percurso marcado por vitórias (campeonatos e taças de Portugal).

Outra das desilusões da época, foi a incapacidade da equipa do Racing Power em conseguir concretizar o seu principal objetivo, que passava pela subida à Liga BPI. Após um começo instável, com a saída da equipa técnica, a equipa pareceu encontrar a estabilidade sob o comando do professor Nuno Cristóvão. No entanto, e após uma fase de resultados menos positivos, voltou a perder o seu treinador. Foi capaz de atingir as meias-finais do Playoff de Despromoção, perdendo apenas contra a equipa do Futebol Benfica. Mas, dado o investimento realizado, esperava-se mais desta recém-criada equipa, que acabou por falhar o seu principal objetivo definido para a época transata. Veremos o que farão em 2022/2023.

Terminada a época, e com 4 troféus em disputa – Liga BPI, Taça de Portugal, Taça da Liga e Taça de Portugal, concluímos que, para já, continuam a existir 3 grandes equipas a dominar o Futebol Nacional – o Sport Lisboa e Benfica, que se sagrou Campeão Nacional, o Sporting Clube de Portugal, que conquistou a Supertaça e a Taça de Portugal, e o Sporting Clube de Braga, que conquistou a Taça da Liga, registando-se, no entanto, um grande crescimento da equipa do Futebol Clube de Famalicão e do Sport Clube União Torreense, encontrando-se esta última a aproximar-se, progressivamente, da profissionalização da sua secção feminina.

Em 2022/2023 espera-se, novamente, um campeonato muito disputado. Voltando aos moldes anteriores, com 2 voltas e sem fases de apuramento de campeão e manutenção, veremos qual a equipa que se conseguirá manter mais regular ao longo de toda a época, e conquistar a tão desejada Liga BPI, bem como os restantes troféus em disputa. Para já, registam-se alguns movimentos no mercado de transferências, voltando o Sporting a perder diversas das suas jogadoras base, de entre as quais se destacam Joana Marchão, Fátima Pinto e Andreia Jacinto. No entanto, reforçou-se com Cláudia Neto, um dos nomes mais sonantes do Futebol Feminino Português, e que regressa assim ao nosso país, depois de uma carreira no estrangeiro, digna de destaque.

Para os lados de Braga, de realçar a saída do treinador João Marques, após falhar os objetivos traçados para 2021/2022, bem como daquela que foi considerada a melhor jogadora da época transata, Andreia Norton. Também destaco a saída da Diana Gomes e da Jermaine, duas jogadoras que foram essenciais para a equipa bracarense nas últimas épocas. A renovação de Dolores Silva, bem como a entrada de Gonçalo Nunes para o comando da equipa, faz-nos acreditar que o Braga se manterá tão forte como tem sido seu apanágio.

No Benfica, destacam-se mais as entradas dos que as saídas e, neste momento, parece ser a equipa que está a apostar tudo na reconquista do campeonato, bem como em superar a prestação da época passada na Liga dos Campeões. Andreia Norton e Rute Costa são os nomes sonantes, mas também Daniela Silva (ex-Famalicão) assinou pelo Benfica. Por outro lado, as renovações de Andreia Faria e Carole Costa são, também elas, de destacar, bem como a saída de Beatriz Cameirão, jovem média, bastante promissora.

Veremos o que nos trará a época 2022/2023. O que é certo é que iremos assistir a excelentes jogos, cada vez mais disputados e com maior incerteza no resultado final. Este será o reflexo do crescimento e evolução do Futebol Feminino Nacional, embora ainda haja muitíssimo mais para fazer, para que o Futebol Feminino Português atinja todo o seu potencial, que é tremendo! Poderemos começar, por exemplo, pela qualidade das equipas de arbitragem, que teima em não acompanhar o desenvolvimento da modalidade, e pela inclusão do VAR na Liga BPI, que peca por tardia.


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