Fernando Santos, a simplicidade de um engenheiro “louco”

José NascimentoAbril 2, 20204min0

Fernando Santos, a simplicidade de um engenheiro “louco”

José NascimentoAbril 2, 20204min0
O timoneiro da Selecção Nacional foi entrevistado por Luis Osório e o Fair Play esteve presente para ouvir Fernando Santos a contar algumas particularidades da sua história no futebol

Numa altura onde recebemos a notícia de que o Euro 2020 foi adiado, o que faz com que Portugal continue campeão europeu por mais um ano, o Fair Play decidiu recuperar uma entrevista conduzida por Luís Osório a Fernando Santos, na qual estivemos presentes. Fernando Santos foi o homem que levou a seleção à conquista da Europa e um dos poucos treinadores que comandou os 3 “grandes” em Portugal. A conquista do Euro é o ponto mais alto da sua longa carreira como treinador de futebol. Esta entrevista aconteceu no âmbito do programa “30 portugueses, 1 país” e foi realizada no Hotel Porto Bay Liberdade a 19 de Fevereiro de 2019.

Fernando Santos começa a ter o primeiro contacto com o mundo do futebol através do seu pai, um benfiquista ferrenho. Para comprovar este “fanatismo” do pai, recorda o episódio em que foi levado com apenas 52 dias à inauguração do Estádio da Luz. Herda assim a paixão de seu pai e torna-se adepto do Sport Lisboa e Benfica. Quando foi perguntado qual era o seu clube atual, afirmou: “Atualmente não tenho clube.” Começou a dar os primeiros toques na bola no Operário de Lisboa, de seguida fez captações no Sport Lisboa e Benfica, clube no qual entrou. Fernando Santos ao longo deste percurso reforçou que o seu pai nunca o deixou abdicar da formação profissional, que consistia na licenciatura no ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) ao mesmo tempo que jogava no Benfica. Actuava a defesa central ou a lateral esquerdo, tendo afirmando que, e citamos, “Era bom jogador, mas tinha um problema… não gostava muito de treinar”.

Depois desta passagem pelos juniores do Benfica e após ter terminado o curso ruma ao Estoril onde continua a conciliar os dois “mundos”. É no ano de 1977 que acaba o curso tendo, em seguida, no ano de 1979 ruma ao Marítimo onde alinhou apenas por uma época, tendo retornado ao Estoril onde acabou a carreira de jogador e começou a de treinador.

Neste regresso à Amoreira, começou a trabalhar no Hotel Palácio no Estoril o que fez com que “Nunca pensasse ser treinador a tempo inteiro” confessou Fernando Santos, pois trabalhava como chefe de manutenção do Hotel onde era bem pago. Este primeiro emprego foi para Fernando Santos uma aprendizagem de liderança, algo que iria aplicar mais tarde na sua carreira de treinador. No entanto começa a treinar o Estoril em 1987, seguido pelo Estrela da Amadora, Futebol Clube do Porto, AEK, Panathinaikos, Sporting Clube de Portugal, regresso ao AEK, Sport Lisboa e Benfica, e PAOK. Em 2010 torna-se o selecionador grego e em 2014 passa a ser selecionador de Portugal.

Nos dias de hoje, afirma que: “Não existe amor à camisola” devido à dificuldade do pós-carreira pois os jogadores têm um período de atividade de apenas de 10/15 anos e neste período de tempo, têm que conseguir arranjar sustento para o resto da vida, pois muitos deles não arranjam emprego, devido ao facto de não terem licenciatura ou qualquer tipo de formação. Questionado sobre as principais mudanças do futebol, afirma que o avanço da ciência permitiu a evolução do futebol. A outra diferença é: “Não há tempo nem espaço” isto porque os jogadores hoje em dia têm que decidir numa fração de segundos e não conseguem ter a bola no pé durante muito tempo isto quando comparado com o futebol dos anos 70 e 80, altura em que jogou. Para o sucesso tem como principal conselho o trabalho e reitera: “Estrelas só no céu e nunca vi lá nenhuma a brilhar sozinha” isto para dizer que sozinho ninguém ganha.

Quando foi pedido por Luís Osório para escolher “três jogadores do passado para a seleção” Fernando Santos escolheu: Eusébio, Germano e Coluna. Diz ainda que: “Viu grandes jogadores e tive o prazer de treinar grandes jogadores. Há um… Eusébio da Silva Ferreira”. Foi perguntado se Eusébio encaixaria bem ao lado de Ronaldo, ao que respondeu: “Com certeza. Juntar dois génios. Talvez nem coubessem na lâmpada do génio.”

Com esta entrevista percebemos que Fernando Santos é um treinador diferenciado de todos os outros pela maneira como aborda o mediatismo que à sua volta, mas também porque tem uma perspetiva diferenciada de todos os outros treinadores na maneira como vê as coisas. Isso pode ser comprovado por aquela célebre frase que os portugueses nunca mais vão esquecer:

“Só vou dia 11 (de julho) para Portugal.”

Terá sido um ato de loucura? Não sei… Mas se assim foi, foram os loucos que mudaram o mundo.


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