La Liga: O dia em que Barcelona perdeu o seu coração

Bruno DiasAgosto 16, 20216min0

La Liga: O dia em que Barcelona perdeu o seu coração

Bruno DiasAgosto 16, 20216min0
21 anos depois, Lionel Messi saiu de Barcelona. Um momento que muitos julgavam impossível e que deixou o clube e a cidade de coração partido.

Parece mentira, mas é mesmo real: Lionel Messi já não é jogador do FC Barcelona. Após uma extensa negociação entre o clube e o argentino de 34 anos, a “bomba” chegou na tarde do dia 5 de Agosto de 2021, quando os catalães anunciaram que a maior figura da sua história não continuaria a envergar a camisola “blaugrana“.

Um dia que durante muitos anos pareceu nunca poder chegar, mas que ganhou forma e acabou por se concretizar devido a um conjunto de factores despoletados e desenvolvidos ao longo dos últimos anos, maioritariamente pela gestão financeira aberrante efectuada pela anterior direcção “culé“, presidida por Josep Maria Bartomeu.

Messi viu-se forçado a trocar Barcelona por Paris, rumando assim ao Paris Saint-Germain e juntando-se a Sergio Ramos, Achraf Hakimi, Georginio Wijnaldum e Gianluigi Donnarumma, naquela que é já, discutivelmente, a melhor “janela de transferências” de uma equipa no futebol da era moderna, uma vez que, à excepção do marroquino Hakimi (contratado por 60M€ ao Inter de Milão), todos os outros “craques” chegam à capital francesa em final de contrato com os seus respectivos clubes.

Mas a história da saída de Messi de Barcelona está longe de ter contornos simples e facilmente perceptíveis.

(Foto: rfi.fr)

O porquê da saída

Ao contrário do que aconteceu no Verão passado, em que o astro argentino assumiu querer sair do clube, neste mercado existiu algo que pareceu sempre claro desde início: a intenção de ambas as partes – Messi e o Barcelona, agora liderado por Joan Laporta – era a de manter o vínculo quase umbilical que ligava clube e jogador há 21 anos. Apesar de se estenderem ao longo de várias semanas, não consta que as negociações se tenham revelado particularmente complicadas, e tudo parecia indicar que o camisola 10 estaria na iminência de renovar o seu contrato e partir para mais uma época em Espanha.

Só que surgiu um obstáculo inultrapassável. Devido às regras de regulação financeira da La Liga, e derivado dos sucessivos prejuízos apresentados em temporadas recentes (e isto, recorde-se, apenas 4 anos depois do Barcelona receber 222M€ por Neymar, naquela que ainda é a maior transferência da história do futebol), o orçamento salarial permitido ao Barça para esta temporada era em muito inferior ao que os “blaugrana” estavam a gastar com o seu plantel.

Contratações milionárias como as de Antoine Griezmann, Philippe Coutinho ou Ousmane Dembélé, juntamente com as adições de jogadores pagos “a peso de ouro”, como Samuel Umtiti ou Miralem Pjanic, fizeram disparar os gastos do clube nos tempos recentes, ao ponto deste se ver agora impossibilitado de inscrever Messi e os restantes reforços (Eric García, Memphis Depay, Emerson Royal, Sergio Aguero) sem uma significativa redução salarial dos jogadores já presentes no clube, fosse através de um novo contrato ou da venda dos mesmos. E nem mesmo a intenção do argentino de reduzir o seu ordenado em 50% (o máximo permitido pela lei espanhola) se revelou capaz de contornar uma limitação fatal para o planeamento desportivo catalão.

Partiu assim, então, um homem que mudou um clube (há um “antes de Messi” e haverá, certamente, um “depois de Messi” em Barcelona) e criou uma verdadeira religião na Catalunha. 672 golos e 305 assistências em 778 jogos. 35 títulos. 5 Botas de Ouro. 6 Bolas de Ouro. O melhor marcador da história do clube e do futebol espanhol. E incontáveis, quase infinitos, momentos de genialidade, de magia, de pura arte, de registos estatísticos irrepetíveis, de recordes infindáveis, de milhentos adversários resignados à sua superioridade, de futebol transformado num espectáculo capaz de ser apreciado até pelo mais desinteressado dos seres.

Não mais o futebol será o mesmo em Barcelona. Terminou a “era Messi” em Camp Nou.

(Foto: fcbarcelona.es)

O futuro

E depois de Barcelona… Paris.

Lionel Messi chega à capital francesa como resultado do “imbróglio” gerado em torno da sua renovação com o Barça, e com um claro objectivo em mente: a conquista da Champions League, a quinta da sua carreira e a primeira na história do Paris Saint-Germain.

Tendo em conta as circunstâncias e o momento em que o argentino deixou Barcelona, existiam apenas duas opções para dar continuidade à sua carreira. Uma era a equipa francesa. A outra era o Manchester City, de Pep Guardiola. Mas os ingleses apresentaram Jack Grealish – contratado ao Aston Villa pela exorbitante quantia de 116M€ – precisamente no mesmo dia do anúncio da despedida de Messi, pelo que também essa possibilidade rapidamente se esfumou.

Sobrou assim Paris, onde foi apresentado com total pompa e circunstância, para gáudio dos adeptos parisienses e descrédito dos adeptos catalães, ainda em choque com a vertiginosa cronologia de acontecimentos. Aí, encontrará uma autêntica “constelação de estrelas”, com o seu ex-colega em Barcelona e amigo Neymar à cabeça, mas também com jogadores do calibre e da reputação de Keylor Navas, Marquinhos, Presnel Kimpembe, Marco Verratti ou dos seus compatriotas Leandro Paredes, Ángel Di María e Mauro Icardi. Isto sem contar com o “galáctico” Kylian Mbappé, a outra grande figura do plantel que, porém, parece cada vez mais destinado a rumar a Madrid.

Um plantel recheado de talento e qualidade, que não olhou a despesas para assegurar dois anos de um craque planetário e que se afigura, assim, como o principal favorito à conquista da Europa. Resta agora saber como é que o também argentino Mauricio Pochettino irá conseguir gerir este grupo, de forma a garantir que a grande desilusão da temporada passada (com a eliminação nas meias-finais da Champions League frente ao Manchester City e o desastre a nível interno, perdendo o campeonato para um surpreendente Lille) não se repete.

(Foto: menshealth.pt)

Certo mesmo é que, em 2021, a epopeia de Messi conhece um novo capítulo. Paris vive dias de glória e Barcelona sente agora o vazio de um jogador inigualável. O dia que parecia impossível… chegou mesmo, e o paradigma na La Liga e no futebol espanhol e mundial foi, definitivamente, alterado neste Verão.


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