La Liga: o Barça de Xavi, num regresso às origens

Bruno DiasFevereiro 27, 20227min0

La Liga: o Barça de Xavi, num regresso às origens

Bruno DiasFevereiro 27, 20227min0
6 anos depois, Xavi Hernández regressou a Camp Nou, agora como treinador. Estas são as primeiras impressões do "seu" Barça.

Era um momento há muito aguardado: o regresso a Camp Nou de uma das suas maiores lendas. A 5 de Novembro de 2021, Xavi Hernández foi anunciado como novo treinador do FC Barcelona, sucedendo assim a Ronald Koeman, outra lenda do clube enquanto jogador mas que teve uma passagem claramente sofrível como técnico dos catalães.

Com Xavi, o presidente Joan Laporta trouxe muito mais do que um novo timoneiro para a equipa. Aos 42 anos, o antigo médio foi desde cedo apontado como o “herdeiro” de Pep Guardiola no banco “culé“, pelo seu perfil cerebral nos relvados, quase como uma extensão do próprio treinador dentro das quatro linhas. Naturalmente, este perfil associado ao estatuto conquistado pelo ex-capitão no clube (é ainda hoje o atleta com mais jogos na história do Barcelona, com 767 partidas) garantem créditos junto da massa adepta, e uma paciência que se afiguraria curta com qualquer outra escolha, dado o histórico recente de insucessos e rotundos falhanços desportivos, tanto no campo como fora dele (com a partida de Lionel Messi à cabeça, no que foi o fim abrupto de uma era na Catalunha).

Agora a partir do banco, Xavi terá a grande missão de devolver o clube aos grandes palcos e aos sucessos desportivos. Há sinais claros de que o Barça está disposto a investir no reforço do seu plantel e em avançar convictamente para uma transição entre a era que Xavi ainda viveu como jogador e uma nova era, com novas figuras centrais. Resta agora saber se o treinador será capaz de arcar com essa responsabilidade, ele que possui menos de 3 anos de experiência enquanto técnico. Mas os primeiros sinais são, na sua generalidade, bons.

 

As primeiras mudanças de Xavi

Mítica figura de uma corrente futebolística que fez história e assentou arraiais na Catalunha (até mesmo antes do próprio singrar enquanto futebolista, com a famosa “Dream Team” de Johan Cruyff), Xavi trouxe de volta o “tiki-taka” a Barcelona. Este é o resumo mais simplista e minimamente preciso daquilo que o técnico pretende implementar no projecto desportivo catalão.

Porém, Xavi tem já traçado o seu percurso independente enquanto treinador, e isso levou-o a adaptar essa filosofia à medida dos seus gostos e das suas experiências prévias, interpretando-a de uma forma personalizada e distinta daquela que caracterizou a equipa comandada por Pep Guardiola, por exemplo.

(Foto: marca.com)

As ideias gerais estão lá e são já relativamente bem conhecidas dos adeptos em geral, mas há “nuances” e posicionamentos diferentes no futebol de Xavi que são notórios desde o primeiro dia.

Estruturado no clássico 4x3x3, o jogo de posição volta a ser basilar nos comportamentos de todos os jogadores, sobretudo com bola. Começando pela defesa, à intenção de sair a jogar de forma curta e apoiada junta-se agora uma organização que procura auxiliar na progressão do jogo pelo relvado, com constantes opções seguras para que o portador da bola possa definir com relativa segurança. Os centrais abrem e permitem a Ter Stegen começar a jogada e ter um leque de opções em todos os corredores. Depois, e tal como Guardiola, também Xavi utiliza os laterais em papéis algo assimétricos: enquanto pela direita (com Sergiño Dest, Dani Alves ou até mesmo com a adaptação de um central) a função é mais conservadora e permite criar superioridade numérica na saída de bola, na esquerda há liberdade para Jordi Alba subir no terreno e integrar-se nas manobras ofensivas da equipa, sendo muitas vezes ele a assegurar a largura do ataque “blaugrana“.

Esta assimetria tem tido correspondência mais à frente, onde os extremos pisam também zonas distintas, com missões distintas. Pela direita, há largura total em todas as posses com Adama Traoré ou Ousmane Dembélé (que parece estar mesmo de saída de Barcelona, apesar da clara admiração de Xavi pelas qualidades do francês), sendo óbvio que a ideia é forçar o 1×1 e assim criar o desequilíbrio no último terço. Aqui, é notório que o técnico possui quase uma “obsessão” por este papel dos extremos, confiando bastante nessa ideia para ameaçar a baliza contrária. Ao centro e à esquerda, vão-se sucedendo jogadores de perfis distintos, com Aubameyang e Ferran Torres a alternarem nos postos e a ligarem a equipa através de referências mais centrais mas móveis, não descurando também um ataque à profundidade que fere o adversário com a velocidade de ambos e que aumenta também o espaço entrelinhas para a equipa manietar o jogo em posse.

Mas, tal como no passado, é no centro do terreno que se encontra a grande força deste Barcelona e o sector que se pode assumir como decisivo para que a equipa consiga melhorar a gestão dos seus jogos e manipular os adversários em termos estratégicos. É um facto que Sergio Busquets já não está no auge da sua carreira (aquela que Xavi conheceu de bem perto, quando formou com ele um dos melhores trios da história do jogo), mas o médio-defensivo continua a ser um mestre na gestão de ritmos, e agora junta-lhe um aprendiz de altíssimo quilate.

No lugar que era do agora treinador, Frenkie de Jong comanda as tropas catalães, apoiando Busquets na gestão do jogo, organizando, conferindo fluidez à circulação, transportando e quebrando linhas através do drible. E a “fazer de Iniesta“, está aquela que já é a figura da equipa. Aos 19 anos, Pedri é diferenciador. Perfeitamente confortável em espaços curtos, possui um drible curto de requinte, inventa soluções aparentemente inexistentes, tem recursos técnicos para dar e vender e lê o jogo com a inteligência e a maturidade de um experiente atleta, mais do que habituado aos grandes palcos. Tudo com uma regularidade brutal, tendo sido um dos jogadores com mais minutos da passada época no futebol europeu.

Um trio fantástico, ao qual se junta ainda a “pérola” Gavi, que aos 17 anos já é internacional A espanhol e se assume como um dos mais promissores talentos do planeta, com uma margem de progressão colossal.

Evidentemente, há ainda muitas arestas por limar, aspectos que colocam até em causa alguma estabilidade e consistência na evolução da equipa. A principal lacuna dos catalães continua a ser a transição defensiva, que se define como instável e periclitante, e uma maior segurança nesse momento do jogo apresenta-se como um desafio que pode levar algum tempo a ser compreendido e corrigido pelo treinador. Xavi é um grande defensor de uma reacção intensa à perda da bola no seu discurso, mas isso nem sempre se tem visto nos jogos da equipa “culé e tem custado golos sofridos e até pontos. É justo conferir ao treinador a próxima pré-temporada antes de se formarem opiniões definitivas sobre o tema, mas é claramente por aqui que o Barça pode falhar, pelo menos a curto prazo.

(Foto: fcbarcelonanoticias.com)

O início foi trémulo e custou inclusive a continuidade na Champions League. Mas os resultados recentes são bastante positivos, e o Barcelona voltou finalmente a assemelhar-se à imagem poderosa e gloriosa que muitos e muitos adeptos construíram do clube catalão. Num projecto que se espera ser longo e de contínua evolução e sucesso, estes são indícios muito promissores para um regresso triunfal do “tiki-taka” aos estádios da “La Liga“.


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