Cristiano Ronaldo, o direito à greve e o seu futuro no Al Nassr
Cristiano Ronaldo foi o grande impulsionador da mudança de vários jogadores para a Arábia Saudita. Ainda que tenham chegado outros craques ao Médio Oriente, o astro português continua a ser a cara do projeto, que culminará com a organização do Mundial 2034, sem o ponta de lança nos relvados.
A contratação de Cristiano Ronaldo por parte do Al Nassr parou o mundo, desorganizou os mercados de transferências, com os emblemas europeus a passarem a contar com um rival, capaz de pagar salários incomportáveis para os tubarões europeus. Hoje em dia, a Arábia Saudita é um país a acompanhar, não somente pelos portugueses que recebe, mas também pelas estrelas que optam por rumar às equipas da nação, longe de estarem no final de carreira e ainda capazes de fazer a diferença. Apesar disso, poucos são capazes de referir que a Primeira Liga Saudita é superior às Big 5, colocando-a no patamar do futebol luso, neerlandês ou belga.
Isto deve-se ao facto da diferença gritante entre as equipas dentro da Árabia Saudita. Alguns emblemas contam com um investimento privado, tal como o Al Qadsiah (detido pela Aramco), mas outras fazem mesmo parte do estado: os celebres emblemas geridos pelo PIF, fundo estatal. Al Hilal, Al Nassr, Al Ittihad e Al Ahli contam com mais craques devido a isso mesmo. São comprados pela própria Arábia Saudita, que depois os coloca num destes quatro clubes. O PIF já aumentou a sua rede, mas os conjuntos referidos anteriormente continuam a ser os referentes.
Cristiano Ronaldo não está satisfeito com o comportamento do estado saudita com o Al Nassr, por dois motivos: o afastamento de José Semedo e Simão Coutinho das decisões importantes, e a falta de presença de mercado, dando o Al Hilal como exemplo. O astro português fez mesmo greve ao encontro contra o Al Riyadh. Consequências? Obviamente, zero. Falamos do rosto de um projeto, de um dos melhores jogadores da história, que vive para chegar ao golo 1000 e para fazer boa figura por Portugal no Mundial 2026. Com outro atleta a história teria sido outra, quando falamos de um país em que muitos dos direitos não existem (inclusivamente, o direito à greve).
O ponta de lança possivelmente aprendeu em 2026 que a vida é feita de injustiças, principalmente no futebol. O Al Hilal investiu mais e a verdade é que Cristiano Ronaldo tem razão em se mostrar chateado, mas tem que que compreender que as regras para o conjunto de Simone Inzaghi são diferentes. Ao contrário de Al Nassr, Al Ittihad e Al Ahli, o Al Hilal tem no príncipe Al-Waleed bin Talal o seu investidor privado e por isso consegue comprar mais do que os outros. Olhemos ao mercado de janeiro e verifiquemos as compras realizadas:
- Kader Meité: 30 milhões de euros
- Saimon Bouabré: 23 milhões de euros
- Murad Al Hawsawi: 8,3 milhões de euros
- Rayan Al Dossary: 4 milhões de euros
- Sultan Mandash: 3,4 milhões de euros
- Pablo Marí: 2 milhões de euros
- Karim Benzema: custo zero
O Al Hilal esteve muito mais ativo no mercado do que os restantes. O Al Nassr, por exemplo, só contratou dois jogadores: Abdullah Al Hamdan e Haydeer Abdulkareem. A diferença chega a ser colossal. Contudo, Cristiano Ronaldo tem que olhar para os seus colegas e verificar que a equipa que o rodeia tem igualmente nomes de luxo e que fazem a diferença: João Félix, Kingsley Coman, Sadio Mané ou Marcelo Brozovic. Sem esquecer que o Al Nassr poderia comprar mais craques, investindo o que recebe Cristiano Ronaldo, que beneficia de regalias nunca antes vistas numa relação jogador-clube. O avançado apercebeu-se que aos 41 anos não pode ganhar sozinho e a sua sequia de títulos pelos sauditas está a deixá-lo cada vez mais frustrado. Porém, a equipa liderada por Jorge Jesus começou a quebrar ainda em 2025, perdendo a liderança para o Al Hilal ainda em dezembro, numa fase em que os dois conjuntos não tinham reforços.
Há dois pontos de vista nesta história: o dos que odeiam Cristiano Ronaldo e o dos que o adoram. Os primeiros vão afirmar que o jogador está a fazer ‘birra’ porque vai ficar a zeros novamente, sendo que deveria ser castigado por ter feito greve a uma partida (que o Al Nassr até ganhou). Já os segundos, vão proteger o seu ídolo, reivindicando que o jogador tem poder no clube (porque a instituição lhe o ofereceu) e que há uma preferência pelo Al Hilal.
Embora estes polos sejam opostos, os dois têm pontos válidos. Cristiano Ronaldo tem este poder. O maior opositor consegue reconhecer-lhe aspetos positivos. Quem estará muito desagradado com toda esta situação é Mohammad bin Salman, príncipe herdeiro e principal criados do projeto Visão 2030, onde o futebol tem um papel fundamental. Cristiano Ronaldo pode não ser o melhor jogador do mundo ou sequer o atleta com mais qualidade que atua na Arábia Saudita. Porém, a sua cara é a mais conhecida e que continua a convencer atletas a mudarem-se para o Médio Oriente. É urgente resolver a situação.
Muito se tem falado de uma saída de Cristiano Ronaldo no verão, apontando-se à existência de uma cláusula de rescisão de 50 milhões de euros. Porém, trata-se de uma verba demasiado elevada para um ponta de lança de 41 anos, em decadência. Depois de três anos na Arábia Saudita, é complicado de entender o seu nível. As defesas sauditas em várias equipas não possuem a qualidade das europeias e as centenas de golos marcados pelo Al Nassr não servem para uma avaliação completa. O Mundial 2026 promete ser o próximo grande objetivo de CR7, que quererá chegar à prova na melhor forma possível. Por isso, é improvável que a sua ’birra’ dure muitas semanas, ainda que a sua atitude seja uma abertura para que outros o possam seguir no futuro. Quanto ao seu futuro, vão haver sempre rumores, mas o seu contrato finaliza em 2027.



