Jorge Sampaoli: 2ª vida para o treinador ou Santos?

Rafael RibeiroAbril 6, 20195min0

Jorge Sampaoli: 2ª vida para o treinador ou Santos?

Rafael RibeiroAbril 6, 20195min0
O argentino desembarcou no Brasil incrivelmente como uma aposta. Em baixa após época de pouco brilho com o Sevilla e a péssima campanha com sua seleção natal no Mundial da Rússia, o treinador irá dar ou ganhar sobrevida com o Santos?

As equipas brasileiras costumam, dentre poucas exceções, manter a rotatividade de treinadores em períodos muito curtos de tempo. Criou-se o hábito de “gerar uma situação nova” aos jogadores a partir da demissão de seus técnicos, com a justificativa de criar mais competitividade interna no plantel e impactá-los de maneira a render mais. Assim como as rápidas demissões, também são costumeiras as fases de contratações seguirem o mesmo perfil. Treinadores jovens, vindos das categorias de base. Depois, treinadores estrangeiros, com bons retrospectos contra equipas brasileiras. Mais recentemente, voltaram-se os olhos para técnicos mais consagrados, experientes e que outrora foram chamados de ultrapassados.

Sampaoli, apesar de ter uma rodagem mais estrelada que muitos treinadores daqui, veio na contramão das contratações recentes (Renato Gaúcho ao Grêmio, Felipão ao Palmeiras, Abel Braga ao Flamengo e Cuca ao São Paulo). A era dos estrangeiros (desde Gareca no Palmeiras, Paulo Bento no Cruzeiro, Osório, Bauza e Aguirre no São Paulo, Reinaldo Rueda no Flamengo) já havia passado, sem deixar grandes lembranças. Mas Sampaoli veio em um momento de reinício de carreira. Após passagem mediana no Sevilla e o controle (ou a falta de) da seleção Argentina no Mundial da Rússia em 2018 fizeram o treinador voltar algumas casas no tabuleiro.

Início conturbado

Sampaoli foi contratado como o principal reforço da época, porém sem saber exatamente das condições da equipa que iria dirigir. O Santos não possui para este ano recursos financeiros de sobra para rechear o plantel, até mesmo por já ter investido bem ao trazer o próprio Sampaoli. Assim sendo, o treinador chegou a reclamar da falta de reforços, tanto em entrevistas quanto em reuniões com a diretoria santista, que garantia que o técnico sabia do momento financeiro do time. Ao chegar, pediu a contratação de um guarda-redes, sem também saber que Vanderlei, atual titular santista, é um dos jogadores de mais prestígio com os adeptos, além de líder dos demais jogadores, capitão e um dos melhores guarda redes em atividade no Brasil.

Tudo isso gerou dúvidas suficientes para que debates sobre sua saída tomassem as mídias e demais adeptos. Muitos diziam que sua saída seria questão de tempo. Depois de pouco tempo, sem novas polêmicas, conseguiu arrumar o time a ponto de apresentar um futebol mais vistoso que equipas até melhores em plantel (como Palmeiras e Flamengo) e as enquetes do país tomaram outro rumo: como Sampaoli conseguiu impor seu estilo de jogo em tão pouco tempo?

 

Presidente santista ouviu reclamações do treinador sobre a falta de reforços (Foto: Divulgação/Santos FC)

Rápida adaptação do plantel ao seu estilo de jogo

Sampaoli conseguiu, com os jogadores que possuia a disposição, implementar uma mentalidade diferente das que as equipas brasileiras apresentavam (com poucas exceções, como o Grêmio de Porto Alegre, que também mostrava superioridade absoluta em seu estado). Jogadores em baixa com treinadores anteriores, como Jean Mota e Derlis Gonzalez, se mostraram extremamente eficientes no novo esquema tático do técnico. Marcação alta, impedindo o adversário de sair facilmente para o jogo, recuperação rápida da bola e maior posse com troca de passes. Assim Sampaoli conseguiu mostrar que este tipo de jogo pode dar certo mesmo com nomes de menor expressão dentro do relvado, diferente do que muitas equipas apresentavam (marcação fechada, retomada no próprio campo e contra ataque rápido para garantir um único golo de vitória).

Com isso, a equipa não só obteve vitórias, como também boas exibições em um tempo menor do que se esperava. Mas ainda se esperava mais obstáculos na trajetória inicial do treinador, já que os campeonatos ainda estavam em início, e apenas o Paulistão estava em seu auge, além das fases preliminares da Copa do Brasil. Porém, em seu primeiro embate continental, dois empates com o modesto River Plate do Uruguai e uma eliminação mais do que precoce. Talvez, pelo bem do próprio treinador e de sua sequência no litoral paulista, não houve cobranças excessivas.

 

Sampaoli convidou meninos que assistiam ao treino de fora do centro de treinamento a visitarem as instalações e brincar no relvado (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

Queda na Sulamericana e decisão no Paulistão

Com o baque da eliminação na Sulamericana superado, era o momento de continuar o trabalho, sem se desviar por cobranças externas. A caminhada no Paulistão serviu para que alguns reforços pudessem complementar a já entrosada equipa alvinegra. Yeferson Soteldo, Christian Cueva e mais recentemente Jorge (lateral esquerdo vindo do Porto) ajudaram Sampaoli tanto em quantidade quanto qualidade.

O Santos se classificou para os quartos de final do Paulistão contra o empolgante Red Bull Brasil (equipa com melhor campanha na fase regular). E mesmo apesar disso, a passagem para a semi final foi tranquila. Está, até o fechamento deste artigo, disputando uma ida ao final do Paulistão contra o Corinthians (jogo de ida 2×1 para o Corinthians). Fato é que, mesmo sendo clássicos (Palmeiras enfrenta o São Paulo do outro lado da chave) o Santos de Sampaoli se credencia a uma final tática e tecnicamente merecida (pelo estilo de futebol apresentado).

O treinador tenta se redimir da eliminação na competição continental e levar o título do Paulistão 2019 (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

Como costuma-se dizer no Brasil, sabemos que “o futebol é uma caixinha de surpresas”, mas tanto a eliminação de Sampaoli quanto sua ida a final do Paulista trarão novos capítulos desta novela do treinador argentino e terras brasucas. Será que seu reinado irá durar ou será apenas um “fogo de palha” em mais uma tentativa das equipas brasileiras em contratarem técnicos estrangeiros? Certo é que sua passagem desperta ódios e amores em adeptos e analistas.


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