Hino Nacional Palmeirense: Desrespeito ou Homenagem?

Marcial CortezJunho 27, 20226min0

Hino Nacional Palmeirense: Desrespeito ou Homenagem?

Marcial CortezJunho 27, 20226min0
Quem frequenta o Allianz já sabe: ao iniciar os acordes do Hino Nacional, é hora de encher os pulmões e gritar "Meu Palmeiras". O que você pensa sobre isso?

O catarinense Cláudio (nome fictício) foi ao Allianz Parque pela primeira vez em sua vida. Apesar de fanático pelo Palmeiras, sempre encontrou dificuldades para conseguir chegar ao templo máximo do futebol alviverde. Mas aquele domingo foi diferente. ele conseguiu acertar a data da viagem, comprar ingresso, arrumar carona com os amigos e finalmente foi conhecer a casa do Verdão.

Chegou cedo pra não perder nenhum detalhe. Tomou cervejas no entorno, encontrou os amigos, tirou muitas fotos. As equipas entraram em campo, a bandeira nacional apareceu no telão e os acordes do Hino Nacional se iniciaram. Cláudio encheu os pulmões para cantar o “Ouviram do Ipiranga…” e qual não foi sua surpresa ao ouvir em uníssono um coro afinado dizendo “Palmeiras, meu Palmeiras, meu Palmeeeeeeeiras”.

Cláudio ficou atônito. Que espetáculo! Trinta e cinco mil pessoas cantando afinadamente o Hino Nacional, num coro ensurdecedor. No início, achou estranho, desrespeitoso até. Mas logo entrou no coro e cantou junto com a galera, a plenos pulmões.

A história de Cláudio não é única. Ao longo dos oito anos de vida do Allianz Parque, praticamente todos os palmeirenses passaram por situação semelhante. O Hino Nacional Brasileiro, que em todo o país é cantado da mesma forma, no estádio do Palmeiras é diferente. Quando o jogo é no Allianz Parque, a claque palmeirense já sabe: quando a bandeira aparece no telão, entra a letra substituta na melodia original. É um momento surreal para quem vai ao estádio pela primeira vez, e um evento para os frequentadores assíduos.

Torcida do Palmeiras em dia de Allianz Parque cheio. Foto: André Avelar

Mas há quem não goste. Os rivais, por exemplo. São comuns as reclamações, principalmente de torcidas de outros Estados, de desrespeito a um símbolo nacional. Isso é o que diz também a letra fria da Lei. O modo como se portar ao tocar o Hino Nacional Brasileiro é descrito na legislação brasileira, pela Lei 5700/71. Não, você não leu errado, a Lei é de 1971, escrita em plena época da Ditadura Militar no Brasil.

Pela lei, os brasileiros “devem tomar atitude de resṕeito, de pé e em silêncio, os civis do sexo masculino com a cabeça descoberta, os braços ao lado do corpo e os militares em continência, segundo os regulamentos das respectivas corporações”. Ao pé da letra, nenhum brasileiro civil vivo respeita o que diz a Lei. Mesmo em eventos que não são desportivos, todos cantam o hino, alguns com a mão no peito, outros em outras posições diferentes do que diz o texto. E em eventos esportivos da Seleção Brasileira, por exemplo, os próprios jogadores cantam (e alguns setores da imprensa cobram os jogadores que não sabem a letra ou que cantam errado) e muita gente aplaude no final. Pela Lei, tudo isso está errado.

As alegações de quem é contra

Recentemente, no jogo contra o Atlético Goianiense, o técnico Jorginho reclamou em rede nacional ao dizer que “é um absurdo a forma como a torcida do Palmeiras canta o Hino Nacional”.

Os torcedores rivais vociferam nas redes sociais. A palavra mais usada é “desrespeito”. No Twitter, Facebook e Instagram, todos criticam o modo como os palmeirenses cantam o Hino Nacional. Algumas redes de TV, quando transmitem jogos do Verdão, retiram o áudio ou diminuem o volume da torcida durante a execução do Hino.

“Um desrespeito, uma vergonha, deveriam ser todos presos”, diz C.C.D,  53 anos, torcedora do Corinthians. Para ela, “essa atitude da torcida é deplorável”.

“Eu canto o Hino com a letra original e continuarei a cantar sempre. Me incomoda muito quando estou no Allianz Parque. Tem que saber dividir e respeitar cada coisa”, diz S.R.G, 52 anos, torcedor do Verdão e frequentador esporádico do estádio do Palmeiras.

“A Lei existe e prevê até pena de prisão pra quem desrespeitar o Hino, mas vão fazer o que? Levar 40 mil pessoas para a Delegacia? Em países como os Estados Unidos, a bandeira nacional é sagrada, aqui também deveria ser assim”, ressalta P.V.A., 28 anos, militar e palmeirense frequentador assíduo do Allianz. Apesar do seu depoimento, ele canta a “letra palmeirense” no estádio.

O técnico Jorginho criticou a forma como os torcedores cantam. Foto: Bruno Corsino / ACG

E os apoiadores?

Para a maioria da torcida, tudo isso não passa de bla bla bla dos rivais. A cada jogo, mais e mais torcedores do Verdão agregam o coro e muitos já cantam a “nova letra” junto com a televisão e até mesmo em eventos fora do futebol.

“Na escola da minha filha, quando tem algum evento e toca o Hino Nacional eu canto a versão palmeirense bem baixinho pra ninguém ouvir. E vez ou outra vejo outros pais fazendo o mesmo”, diz D.F.S, 33 anos, palmeirense habituado com o clima do Allianz.

“O Palmeiras respeita tanto o HIno Nacional que é o único clube a usar a melodia pra apoiar os jogadores”, J.A., 39 anos.

“O mais legal do hino nacional na versão palmeirense é que todas as torcidas cantam o ‘meu Palmeiras’ mentalmente, mesmo que não queiram ou não assumam”, enfatiza C.D., 23 anos.

O fato é que o Hino cantado na versão palmeirense é um evento. É uma preparação psícológica para o jogo. É uma forma de intimidar os rivais. É um momento aguardado pela claque.

Eu poderia fazer uma pesquisa pra saber qual a porcentagem da torcida a apoiar ou não o hino palmeirense. Mas arrisco colocar “minha cara no fogo” (pra usar uma expressão bem atual) ao dizer que mais de 90% da torcida não liga pra essa lei.

O assunto é polêmico. O próprio colunista que vos escreve já passou por esse dilema. Eu vivi na época da ditadura militar, justamente o período em que se redigiu esta Lei. Cresci num período em que se executava o Hino Nacional diariamente nas escolas, e aprendi a ter um respeito muito grande por este símbolo nacional.

Camisa do Palmeiras com protesto contra a ditadura. Foto: Herculano Barreto Filho / UOL

Porém, hoje vivemos num país muito diferente. Um país que não respeita as suas próprias instituições. Um país em que 33 milhões de pessoas passam fome, enquanto o presidente passeia de moto e jet ski. É claro que isso não é motivo para justificar eventual desrespeito a um símbolo nacional. Mas não seria o momento de revisar a lei de 1971? A ditadura acabou, o país mudou, o mundo mudou. Hoje eu tenho a liberdade de cantar a “letra nova” a plenos pulmões e sem nenhuma culpa.

E espero continuar assim, por muitos e muitos anos. Sem medo de ser feliz!


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