Brasileirão: Passado, Presente e Futuro. O que esperar da Liga?

Marcial CortezJunho 5, 20227min0

Brasileirão: Passado, Presente e Futuro. O que esperar da Liga?

Marcial CortezJunho 5, 20227min0
Ao longo de seus 63 anos, o Brasileirão já teve inúmeros nomes e formatos. Com a criação da Liga, o que poderá acontecer? Qual será o futuro do principal campeonato do país?

Nas últimas semanas, oito dos principais clubes do país juntaram-se para formar uma Liga, cujo nome provisório é Libra (Liga do Futebol Brasileiro), com o intuito de reorganizar o desporto rei em terras tuíniquins. A ideia é boa, mas o retrospecto mostra que essas iniciativas nem sempre acabam bem por aqui. Vamos relembrar a história do Campeonato Brasileiro – Brasileirão – e suas tentativas de organização.

O início – Taça Brasil e Robertão

Em 1959, o Brasil sentiu a necessidade de fazer um campeonato de âmbito nacional. A criação da Taça Libertadores da América exigia que os países da América do Sul mandassem seus clubes para representá-los, e o Brasil só tinha o Rio – São Paulo e o Campeonato Brasileiro de Seleções, disputado por seleções estaduais. Este último foi cancelado e substituído pela Taça Brasil, o primeiro campeonato brasileiro da História. Vencida pelo Bahia, a Taça Brasil era um torneio eliminatório e regionalizado. Os clubes de regiões diferentes só se encontravam nas fases finais, e os times paulistas e cariocas entravam somente na fase de meias finais.

Mesmo com a criação da Taça Brasil, o Torneio Rio – São Paulo continuava com suas edições anuais e era a principal competição do país. Isso perdurou até 1967, quando ampliou-se o Rio-SP com equipas de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O Torneio passou a se chamar “Torneio Roberto Gomes Pedrosa”, em homenagem ao guarda redes Pedrosa, que atuou no São Paulo e foi presidente da Federação Paulista de Futebol. O Torneio tinha o apelido carinhoso de “Robertão” e passou a ser o torneio de maior interesse nacional.

O Robertão e a Taça Brasil ocorreram de modo simultâneo nos anos de 1967 e 1968, quando a Taça Brasil deixou de existir e o Robertão seguiu em frente até 1970. Assim, nos anos de 67 e 68 temos mais de um campeão brasileiro por época – o Palmeiras venceu as duas competições em 67, enquanto Santos e Botafogo foram os campeões em 68.

Taça Brasil, trofeu dos primórdios do Brasileirão. Foto: CBF

Campeonato Nacional de Clubes, Arena, desorganização…

Em 1971, o Robertão foi extinto e em seu lugar iniciou-se o Campeonato Nacional de Clubes. O Atlético Mineiro foi o campeão e daí pra frente o que se viu foi uma completa desorganização e desmoralização do futebol brasileiro. O Brasil vivia tempos de ditadura e o Governo influenciava fortemente o futebol. O partido dos militares, a “Aliança Renovadora Nacional”, ou simplesmente Arena, dominava tudo com mão de ferro e havia uma famosa frase que dizia “onde a Arena vai mal, um clube no nacional”. Assim, tivemos edições do campeonato com mais de 80 clubes a disputar o Caneco, em formatos diversos, com fases de grupos, repescagens e até mesmo clubes que disputavam as séries inferiores com chances de subirem durante o torneio e tornarem-se campeões.

O Campeonato Nacional também mudou de nome ao longo de sua existência. O Brasileirão já foi “Copa Brasil” (não confundir com a Copa do Brasil), “Taça de Ouro” e “Copa União”.

O legado da Copa União

E por falar em Copa União, em 1987 a CBF alegou não ter condições econômicas de organizar o Campeonato Nacional e sugeriu a regionalização do certame, nos moldes da falecida Taça Brasil dos anos 70. Alguns clubes não concordaram com isso e criaram o “Clube dos 13”, que organizou o Brasileiro daquele ano, batizado de Copa União.

A Copa União trouxe inovações à época, como o sorteio da transmissão e a disputa em série única. O torneio foi organizado pelos clubes com o apoio da Rede Globo de Televisão, e contou com apenas 16 equipas, escolhidas pelos próprios clubes e não por critérios técnicos. Desnecessário dizer que isso trouxe muitos problemas, pois as equipas que não entraram na disputa ficaram descontentes e isso gerou muita polêmica. O Flamengo ganhou a Copa União de 1987 e se tornou o Campeão Brasileiro daquele ano.

Porém, a CBF se arrependeu de ter deixado a organização do campeonato nacional com os clubes e resolveu fazer o seu próprio campeonato,  vencido pelo Sport. O regulamento da CBF previa o confronto do campeão da Copa União com o campeão da CBF para definição do vencedor. Mas as equipas do Clube dos 13 se recusaram a disputar esses jogos finais e o imbróglio persiste até hoje. Rubro negros do Rio de Janeiro e de Recife reivindicam até hoje o título brasileiro de 1987 e essa polêmica não acabará nunca.

Álbum de figurinhas da Copa União 1987, campeonato que gera polêmica até hoje sobre o verdadeiro campeão. Foto: Reprodução Revista Placar

Copa João Havelange – 2000

Mas o maior exemplo da desorganização do futebol brasileiro aconteceu em 2000. A CBF estava com problemas na Justiça por conta de irregularidades denunciadas no ano anterior com relação a inscrição de jogadores, e por conta disso não pôde publicar nem organizar o regulamento do Brasileiro de 2000. Com isso, novamente os clubes é que ficaram com a incumbência de organizar o Campeonato. Como não podia deixar de ser, os clubes alegaram que não teriam condições de definir os critérios técnicos pra participação no certame e assim tivemos o Brasileirão com o maior número de equipas: Foram 116 clubes a disputar a Copa, com vários módulos, fases, repescagens e tudo que se possa imaginar para desorganizar um campeonato. Ao final, o Vasco da Gama tornou-se campeão.

Mas se há um lado bom na Copa João Havelange, foi que ela mostrou que o campeonato brasileiro precisava se organizar. Imprensa, torcida e demais interessados no tema sempre pediram que o maior torneio nacional deveria ser disputado em sistema de pontos corridos, em turno e returno, com o campeão a se definir pelo maior número de pontos.

A CBF se organizou, dividiu os clubes por critérios técnicos em várias divisões, e a partir de 2003 o Campeonato Brasileiro iniciou nesse formato e nunca mais o modificou. A única mudança foi o número de equipes, que diminuiu gradativamente até chegar ao formato atual de 20 clubes na primeira divisão. O primeiro ano com 20 clubes foi 2006, e desde então o Brasileirão tem a mesma forma e regulamento, e por isso mesmo hoje é um dos campeonatos mais interessantes e disputados do mundo.

E o futuro?

Essa é a pergunta que não quer calar. A Libra já é uma realidade e a CBF a observa com cautela. Teremos uma volta ao passado com favorecimentos, desorganização e regulamentos paranoicos, ou vamos manter o formato atual com acesso e descenso bem definidos?

Eu acredito no bom senso. A Libra fala na volta dos jogos de duas mãos no Brasileirão, o que eu não acho uma boa medida. Já temos jogos de duas mãos na Copa do Brasil. Deixem o Brasileirão em paz. Passamos tantos anos pra chegar no modelo atual que está a dar muito certo, então não há motivos para mudança.

Deixem o futebol brasileiro em paz.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter