Brasil feminino: Pia Sundhage é o nome da renovação

Rafael RibeiroJulho 28, 20195min0

Brasil feminino: Pia Sundhage é o nome da renovação

Rafael RibeiroJulho 28, 20195min0
Com maior visibilidade devido ao Mundial feminino da França neste ano, porém com um resultado abaixo do esperado, a Seleção Brasileira feminina troca de comando e aposta em uma mulher já consagrada no futebol: Pia Sundhage.

Pela primeira vez na história um mundial feminino teve transmissão em um canal de TV aberto no Brasil. Com isso, o país do futebol voltou seus olhos (com certo atraso) para a constante luta por melhores condições e mais visibilidade deste mesmo desporto, praticado pelas mulheres. O retrospecto antes do início da competição não inspirava confiança (nove derrotas nos últimos nove jogos), mas isso mudou quando as guerreiras brasileiras estrearam na França. O povo se contagiou, e de certa forma conseguiu que a categoria como um todo tivesse mais atenção, e o primeiro passo contado aqui pelo Fair Play é dado com Pia Sundhage.

Com 59 anos e uma proposta do Brasil, Pia desembarca no país com muitas responsabilidades, mas também com muitos méritos. Por seus trabalhos de destaque nas seleções dos Estados Unidos e Suécia, Pia é a cara da reformulação não só na equipa brasileira como também no futebol feminino de maneira mais ampla. A boa visibilidade gerada pela Copa do Mundo de 2019 na França liga um alerta para a Confederação Brasileira de Futebol que já deveria ter ligado há tempos, o de melhores condições, pagamentos e incentivos para a modalidade feminina do desporto mais querido.

Como surge Pia

Jogadora sueca dos anos 80 e 90, levando sua seleção nacional a uma conquista européia em 84, e marcando 71 golos pela Suécia, Pia Sundhage era mais uma das mulheres que desde épocas passadas brigava por espaço em um desporto culturalmente masculino. Se despediu dos relvados em 1996, já tendo começado sua trajetória como treinadora em 92, no Hammarby IF de Estocolmo, Suécia.

Depois de trabalhar em equipas estadunidenses como o Philadelphia Charge e o Boston Breakers, conseguiu com a seleção norte americana suas maiores conquistas. Dois ouros olímpicos (Pequim 2008 e Londres 2012), deu sequência a uma era de grandes feitos dos Estados Unidos, ao ser vice campeã do mundial em 2011 (seleção que recentemente se tornaria tetra campeã do mundo). Pela seleção de seu país, conseguiu um 2º lugar nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016, e passou a trabalhar com as equipas de base (sub15 e sub17).

Pia Sundhage como jogadora pela Suécia nos anos 80 (Foto: Divulgação)

Ex-jogadora, estrangeira e homossexual

Logo vários preconceitos já foram quebrados de uma vez só. Mesmo que o Brasil já tenha tido uma treinadora mulher (Emily Lima dirigiu a seleção por um período, porém saiu de forma turbulenta), Pia é a primeira mulher estrangeria a dirigir a seleção feminina, marcada, até então em sua maioria, por ser dirigida por treinadores homens – o último Vadão. E ainda vale lembrar que, assim como outras jogadoras brasileiras como Cris e até Marta, Pia declara abertamente sua homossexualidade, sendo mais um motivo nobre para a derrubar paradigmas no país.

Assim, Pia inicia sua caminhada no Brasil com o know-how exato para a reformulação que a equipa feminina precisa. Por ser vitoriosa, campeã por onde passou. Por saber trabalhar com categorias de base, em um momento onde a seleção precisará de novas meninas, substituindo nomes de peso. E também por ela mesma ser um nome de peso, respeitado, que carregará bandeiras importantes das mulheres em busca de melhores condições de trabalho, igualdade em vários aspectos ao futebol masculino e até no respeito que deve ser dado cada vez mais a elas.

Pia teve passagem vitoriosa pelos Estados Unidos, ajudando-os a construir esta potência (Foto: Martin Meissner/AP)

A reformulação

Muito discutida após a eliminação do Brasil nas oitavas de final do último Mundial (na França, para a equipa da casa), a reformulação já deu início pela comissão técnica. Sai Vadão, entra Pia Sundhage. Com um contrato de dois anos, renováveis por mais dois, Pia terá tempo para conduzir, além da reformulação, uma reestruturação do futebol feminino no país, a contar pelos campeonatos internos realizados, pela descoberta e treino de novas jogadoras, até o aproveitamento de potenciais atletas já para o ciclo olímpico de 2020 no Japão.

Como citamos acima, nomes de peso deixarão de compor a seleção, como Formiga e Cris, e outras estarão em sua fase final de carreira caso joguem, como a central Mônica, a lateral Tamires e até mesmo a própria Marta. Obviamente que não basta apenas um personagem trocado para que o futebol feminino no Brasil mude da água para o vinho, e que muito suporte terá de ser dado para a categoria como um todo, o que se espera que seja feito pela visibilidade adquirida ao longo de 2019. Mas já é certo dizer que o primeiro passo foi dado.

Pia desenvolveu as categorias de base da Suécia e poderá contribuir com a do Brasil (Foto: Getty Images)

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