O Agente Desportivo, Uma Sombra de Bosman

Francisco da SilvaSetembro 20, 20204min0

O Agente Desportivo, Uma Sombra de Bosman

Francisco da SilvaSetembro 20, 20204min0
Os agentes desportivos viram a sua preponderância aumentar fortemente a partir da Lei Bosman. Desde então, estes novos elementos do futebol têm dominado o mercado de transferências, revelando virtudes mas também pecados mortais.

Os agentes desportivos criaram nas últimas décadas uma aura muito sui generis à volta da sua própria atividade. Se por um lado assumem-se como parceiros fundamentais para fechar os mais complexos negócios milionários, por outro lado, continuam a ser encarados como “facilitadores” oportunistas e pouco éticos na sua forma de atuação.

Até aos meados da década de 90 do Século XX, a maioria dos jogadores profissionais não tinha qualquer empresário, agente ou intermediário desportivo profissional que gerisse os seus contratos e os seus movimentos de transferências. Pelo contrário, parte dos jogadores profissionais delegava a gestão da sua carreira desportiva a familiares ou conhecidos de uma forma informal e ainda pouco profissional.

A Lei Bosman, desenhada após a vitória em tribunal de Jean-Marc Bosman no final de 1995, acabou por mudar completamente o paradigma do futebol europeu e mundial. A partir desse momento, os clubes deixaram de cobrar pela transferência de jogadores em final de contrato, os próprios jogadores tinham direito a negociar novos contratos com outros clubes quando faltassem menos de 6 meses para o atual contrato expirar, a limitação de apenas 3 estrangeiros por ficha de jogo foi abolida e a legislação laboral da União Europeia, anteriormente aplicada ao comum do cidadão, passou também a ser aplicada no futebol, desta forma, finalmente os jogadores comunitários tinham livre circulação no continente europeu.

A Lei Bosman, apesar de todos os seus predicados, levou à queda irremediável do Futebol Popular. Se numa primeira fase a Lei Bosman trouxe alguma equidade ao sistema e permitiu equilibrar a relação de forças entre os jogadores e os seus clubes, simultaneamente, criou um gigante mercado global de transferências que se revolucionou desde então.

Os clubes financeiramente mais poderosos passaram a conseguir contratar sem grandes restrições os melhores ativos de outros clubes e de outras ligas, alargando o fosso entre “ricos” e “pobres” no futebol, a corrida pelo maior e melhor talento futebolístico hiperinflacionou as transferências e os contratos dos jogadores, a crescente complexidade dos negócios e a exclusiva dedicação futebolística dos jogadores criou uma poderosa classe, os agentes desportivos.

Aos dias de hoje, esta nova classe é dominada por ardilosos negociantes como Jorge Mendes, Mino Raiola, Pini Zahavi, Juan Figer ou Kia Joorabchian que, a troco de uma comissão milionária, são capazes de montar e de concretizar os negócios mais complexos, de garantir os contratos mais recompensadores e de consumar as transferências mais surpreendentes. A astúcia e a sapiência destes agentes permite libertar incondicionalmente o jogador profissional de preocupações legais, fiscais ou contratuais, desta forma, o jogador pode dedicar-se exclusivamente ao quotidiano futebolístico e às exigências dentro das 4 linhas.

Mino Raiola (à direita) com Zlatan Ibrahimović (Fonte: Getty Images)

O aumento do mediatismo dos jogadores, a movimentação constante de milhões de euros e a possibilidade de dedicação única e exclusiva dos jogadores profissionais são virtudes que devem ser reconhecidas a estes homens de negócios, que só no Século XXI viram a sua atividade ser reconhecida e regulada no mundo do futebol.

Porém, os pecados desta função são muitos, alguns deles mortais. A ganância, a intriga e o oportunismo pautam muitas vezes a atuação de alguns agentes desportivos que, ignorando o impacto negativo que podem ter sobre os agentes desportivos honestos, humildes e francos, estabelecem parcerias dúbias, negócios obscuros e autênticas “lavandarias” de dinheiro onde reina a promiscuidade e a evasão fiscal.

Num mercado bastante focado na exportação, os clubes portugueses têm “sobrevivido” com a preciosa ajuda destes agentes desportivos que permitem financiar a atividade desportiva e compensar défices sistemáticos da operação. Neste momento, as fronteiras regionais dos agentes desportivos já se esbateram e já não se confinam somente ao Porto ou a Lisboa, também Vila Nova de Famalicão ou Vila do Conde já se renderam aos méritos da roleta.

Partir para a generalização da classe dos agentes desportivos seria um erro capital, até porque, numa fase embrionária de muitos talentos futebolísticos, várias agências desportivas apostam fichas no acompanhamento e no aconselhamento de jovens jogadores promissores, sendo absolutamente fulcrais para o desenvolvimento futebolístico e humano desses mesmos jovens. Todavia, numa classe onde se trabalha muito e bem na sombra, seria igualmente importante libertar algumas das sombras que assombram a sua atuação.


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