A Taça das Nações Africanas merece mais respeito

Francisco IsaacMaio 12, 20227min0

A Taça das Nações Africanas merece mais respeito

Francisco IsaacMaio 12, 20227min0
Uma competição lendária e que é tratada como secundária, Francisco Isaac explica o porquê de devermos respeito à Taça das Nações Africanas

Copa América, Taça Asiática, Campeonato da Europa, Gold Cup, e a Taça das Nações Africanas, são os torneios continentais mais emblemáticos da história do futebol, com cada um a reunir episódios de glória e honra, com jogadores lendários a terem deslumbrado as diversas edições destas competições. Porém, a Taça das Nações Africanas é o campeonato continental que mais tem sofrido nos últimos 30 ou 40 anos, muito devido à forma como os clubes e federações têm lidado com os seus principais activos, com alguns jogadores a serem forçados a recusar a chamada às selecções por pressão interna de quem detém o seu contrato de trabalho, retirando assim alguma visibilidade e atenção a uma competição espectacular e que tem conquistado excelentes números de audiência a cada nova edição.

Ao contrário da maioria dos outros torneios, a Taça das Nações Africanas (ou como é chamada mais coloquialmente em Portugal, CAN) foi 95% jogada entre os meses de Janeiro, Fevereiro ou Março, caindo no meio da época do futebol europeu, o que abriu, nos últimos quarenta anos (altura em que o profissionalismo no futebol começou a atingir o seu expoente mais alto), o início de um conflito contratual entre clubes e federações, seguindo-se um esgrimir de argumentos e discussões que não ajudam a nenhum dos lados, especialmente ao das selcções africanas.

Acima de tudo, é perceptível que os clubes procurem salvaguardar os seus direitos, uma vez que detêm os direitos profissionais sobre um dado atleta, algo que já levou a problemas com a FIFA, nomeadamente durante as janelas internacionais de amigáveis, blindando-se assim de perderem um dado activo para uma competição durante o decorrer da temporada.

Porém, e apesar de ser entendível parte do discurso evocado pelos responsáveis máximos dos clubes europeus – e do Médio Oriente, como explicaremos a seguir-, a verdade é que a Taça das Nações Africanas está abrangida pelo calendário FIFA e, a partir desse ponto, o querer recusar ou, pior, forçar os atletas a não aceitarem a convocatória para a competição, demonstra um nível de hipocrisia e de falta de bom senso por parte dos detentores dos passes, fazendo uma espécie de chantagem emocional/psicológica para quem só quer representar o seu país ao nível mais alto.

Este é o primeiro problema da Taça das Nações Africanas, um que debilitou a competição em 2022, já que atletas como Odion Ighalo (o Hilal da liga da Arábia Saudita recusou ceder o avançado, alegando uma lesão “fantasma” para bloquear a sua saída para a selecção nigeriana) ou Ismaïla Sarr (só foi permitido participar a partir dos quartos-de-final) foram quase ou mesmo impedidos de representar os seus países, entrando numa disputa pública com as selecções correspondentes, o que pode comprometer, em parte, com a verdade desportiva do torneio, isto porque efectivamente as selecções afectadas não estão na sua máxima força não devido a uma lesão ou suspensão, mas sim porque o clube simplesmente quis proteger os seus interesses, não olhando para os meios para atingir esse fim.

Em Dezembro de 2021, a Associação Europeia de Clubes, chegou a publicar um comunicado no qual rejeitava a mudança da Taça das Nações Africanas para Janeiro de 2022 – o torneio era para ser jogado no Verão de 2021, contudo, devido à pandemia do SARS-CoV-2 foi alterada a data para seis meses a seguir – e que os emblemas europeus não teriam qualquer obrigação de ceder os seus atletas, o que expôs a real postura de quem dirige o futebol europeu e mundial.

Porém, semanas depois, Gianni Infantino foi capaz de convencer todas as partes de um acordo, com as federações das selecções africanas a garantirem cuidado e zelo pela condição física dos atletas, enquanto os clubes comunicariam da disponibilidade física dos seus atletas, com alguns jogadores a só encontrarem a comitiva uns poucos dias antes do início da 33ª edição da Taça das Nações Africanas.

Não querendo deambular demasiado tempo numa questão que poderá estar correlacionada com aspectos raciais, ou de menosprezar e qualificar o futebol africano como de categoria “inferior”, é importante perceber que uma competição histórica, carregada de uma magia especial e, por vezes, única, não pode ser ameaçada por entidade A ou B, sobre o espectro de falta de profissionalismo na sua realização – várias vezes isolam-se incidentes com equipas de arbitragem ou de condições de acesso aos recintos, vocacionando um discurso puramente racista -, merecendo um respeito maior e de reconhecimento da sua utilidade para o lançamento de jogadores ao mais alto nível, de expor a beleza, ritmo e sapiência do futebol africano, ou no descobrir de novas estrelas jovens.

Será importante responder a uma pergunta que o leitor fará: porque é que a Taça das Nações Africanas não se joga no Verão, a par do que acontece com o Mundial, Copa América e afins? Bem, desde 2018 que a Confederação Africana de Futebol decidiu alterar a data do torneio para os meses de Junho e Julho, de modo a conseguir contar com todo os atletas e maiores activos, sabendo de antemão do perigo de realizar um torneio durante dos meses de maior calor ou de extremos climatéricos, o que forçou um ajuste de horários, por vezes pouco “positivos” para os espectadores em streaming ou na televisão assistirem.

Ou seja, a CAF e as suas federações fizeram o esforço de mudarem a sua história de terem a Taça das Nações Africanas a ser jogada no inicio de cada ano civil, para adequarem as suas agendas às vontades dos clubes europeus, asiáticos ou do Médio Oriente, numa clara demonstração de boa vontade e de respeito para com as outras federações ou emblemas locais. No meio de uma pandemia complicada, complexa e desoladora, a CAN foi forçada, novamente, a emigrar para outra data no calendário, tendo que ser colocada em Janeiro de 2022, por força do Campeonato do Mundo ser jogado em Novembro-Dezembro, não existindo possibilidade de ser acondicionada em Junho. E como é que os clubes reagiram? Recusaram, inicialmente, ceder qualquer jogador às selecções que necessitariam dos serviços das suas maiores estrelas e nomes.

Mas porquê devemos ter respeito pela Taça das Nações Africanas? Se o argumento “porque é uma competição internacional com a mesma envergadura, histórico e dinâmica que um Campeonato da Europa, Copa América, etc”, não chega – e deveria bastar -, então por isto: a CAN tem um perfume exclusivo a si próprio, uma forma de jogar (sim, uma parte dos jogos são caóticos, o que não deixa de ser belo também) dinâmica, intensa e estrategicamente diferente das suas congéneres continentais, e com uma dedicação profunda às suas raízes culturais diversificadas e que durante dois séculos foram alvo de perseguição, acantonamento e menosprezo.

Uma nota final, e que é uma simples curiosidade: a CAN ou Taça das Nações Africanas foi estabelecida no ano de 1956 no 3º congresso internacional da FIFA realizado em Lisboa. De lá para cá, a competição já teve 33 edições, 15 campeões (nenhum dos PALOP conquistou o título, curiosamente) e mantém uma combinação ardente entre a tradição colorida e a modernidade dinâmica, merecendo todo o respeito possível.

 


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